#29M: é hora de construir o Brasil pós-Bolsonaro

As ruas mostraram força contra o projeto neoliberal e autoritário do capitão. Agora, é preciso fazer com que outros segmentos da população enxerguem luz no fim do túnel deste pesadelo. Chegou a hora de imaginar um outro país.

 

As imagens das manifestações do 29 de maio são bastante impressionantes. Foram mais de 200 cidades brasileiras e uma dezena de capitais pelo mundo.

Segundo os organizadores, 420 a 450 mil pessoas. Movimentos sociais e organizações sindicais mostraram ânimo renovado e boa convivência com a grande pluralidade de manifestantes.

  • Havia uma presença bonita dos idosos da chamada geração de 68,
  • faixas amarelas gigantes que incorporaram a linguagem do Black Lives Matter,
  • batucadas de juventude
  • e partidos diversos do campo progressista.

Mais e mais segmentos da sociedade se dão conta de que o presidente é responsável por

  • implodir instituições democráticas,
  • intoxicar a opinião pública,
  • além de manchar a imagem do Brasil
  • , prejudicar o comércio exterior.

Temos uma possibilidade de mostrar, de modo consistente e baseado em fatos, que o poder executivo é o gerador de crises e instabilidade.

O presidente não salvou vidas nem a economia.

Os depoimentos recentes na CPI mostram que

  • o governo federal foi negligente e omisso nas negociações com o Butantan e com a Pfizer porque,
  • de fato, sua prioridade não era comprar vacinas, mas propagandear coloroquina e a imunização de rebanho.

Esta semana soubemos que o PIB dá sinais de recuperação, mas isso não aparece na mesa do grosso da população.

  • O número de desempregados, subutilizados e desalentados segue batendo recordes.
  • São 15 milhões de brasileiras e brasileiros na fila por trabalho
  • e mais 6 milhões que já desistiram de procurar emprego.

O Brasil teria voltado a funcionar se tivessem investido na vacinação.

O governo Bolsonaro mostra desgaste.

  • A postura negacionista com a pandemia, a destruição ambiental e a política externa desastrada mancham a imagem do Brasil no cenário internacional
  • e, agora que já estamos num momento pós-Trump, sem essa referência, a política externa de Bolsonaro se mostra mais desorientada.
  • Suas declarações desestabilizam o comércio exterior e nós corremos o risco de nos tornamos um Estado pária internacionalmente.

A mamata nunca esteve tão gritante.

Pelos fatos que vimos até aqui,

  • há verba e até um orçamento secreto para comprar tratores
  • e apoio do centrão, para aumentar o próprio salário e churrascos milionários.

A austeridade só vale pra destruir patrimônio público, cortar salário de trabalhadores, promover o desmanche de universidades públicas, da política de ciência e tecnologia1.

  • O Orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia é 34% menor que o de 2020.
  • O da CAPES tem 1% a menos que o do ano passado, que por sua vez já era 28% a menos que o de 2019.
  • Temos um apagão da ciência. Nós investimos em ciência e tecnologia 1/3 do que se investia há 10 anos. Essa falta de perspectiva explica o recorde na fuga de cérebros.

E esse quadro de mamata e austeridade nos ajuda a entender o que significa um neoliberalismo autoritário.

O presidente perde legitimidade com as forças armadas e setores da polícia federal. Há algumas semanas, quando os três chefes da marinha, da aeronáutica e do exército pediram demissão,

  • tivemos um sinal claro de que eles não pactuam com os rumos do governo.
  • Tivemos outro sinal essa semana quando a cúpula do exército abriu um processo administrativo contra o general Pazuello pela participação dele em ato político, o que é proibido por lei.
  • Não é impossível, mas está mais difícil Bolsonaro conseguir instrumentalizar as forças armadas para uma aventura antidemocrática.

Quanto à Polícia Federal,

  • desde a famigerada reunião de 22 de abril de 2020, o presidente já havia dito que interviria nesta para salvar seus filhos;
  • há duas semanas, autorizou a troca do superintendente da polícia no Amazonas para evitar uma investigação sobre a conduta duvidosa do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que ainda está em curso.

Mas Salles é um ativo tóxico para o governo. Muito provavelmente, vai ter de cair.

As investigações sobre sua destituição nas funções do ministério ganham corpo.

  • Recentemente, a Procuradoria Geral da República pediu abertura de inquérito
  • para investigar crimes de advocacia administrativa,
  • por dificultar fiscalização e investigação de infração, envolvendo organização criminosa
  • e o STF pediu a quebra de sigilo bancário.

Se for comprovado seu envolvimento em negócios ilícitos, mais um conjunto de vexames:

  • ele não somente terá trabalhado para passar a boiada, como também separou para si alguns dos bois.
  • Cairá com Salles um conjunto de pronunciamentos delirantes sobre ONGs colocarem fogo na Amazônia, autolicenciamento ambiental, etc.

Ou voltamos à realidade, ou o presidente terá muito trabalho para estancar essa sangria.

Está mais evidente para as altas patentes das forças armadas e quadros da PF

  • que o presidente mancha e distorce funções de instituições do Estado
  • e, cada vez que interfere trocando postos de chefia, mais essa imagem se difunde entre as corporações.

Os quadros de alta patente precisarão avisar seus subalternos de que o presidente inflama a sociedade contra si mesma e, o ano que vem, pode ser ele próprio o agente disparador de uma guerra civil. Resta saber o quanto há no chefe do executivo algo daquele jovem capitão transgressor da ordem.

O fato de, nos últimos tempos, o presidente ouvir mais o pastor Silas Malafaia que ministros, é sintomático.

O presidente é pouco aberto a revisão de rotas, pouco afeito às tarefas mundanas de coordenação e tomadas de decisão a partir de dados e evidências.

Como bom agitador, o presidente precisa

  • se socorrer na retórica messiânica,
  • esconder-se em dogmatismos transcendentais apaixonantes
  • e manter-se distante dos fatos e fenômenos reais.

Do lado da reconstrução, vão ser necessárias precauções sanitárias e também cuidado com pretextos que visam deslegitimar manifestações populares. Sabe-se que, historicamente, os espíritos antidemocráticos forjam baderna em ato pacífico quando se veem acuados.

E para que os ânimos sigam expansivos, ainda não cabe nos perguntarmos o que vai acontecer em 2022.

  • O importante é que o #29M deflagrou uma força coletiva para imaginar um Brasil pós-Bolsonaro
  • e é isso o que nos abre para novas possibilidades.
  • Precisamos fazer com que outros segmentos da população frustrada enxerguem o fim do túnel e se concentrem num ponto:
  • o chefe do executivo, a maior autoridade do país, é também o maior responsável pela crise humanitária em que nos metemos.

Precisamos voltar a fazer política com debate racional e programático, o que vai exigir que sejamos didáticos e assertivos. Com a sobreposição de crises e erros persistentes, mais e mais setores da sociedade se abrem à escuta e percebem a urgência de abandonar a mitologia.

É chegada a hora de imaginar um país depois da terra arrasada e construir desde já novos pilares para um Brasil pós-Bolsonaro. Não vai ser uma tarefa fácil, mas necessária para nos mantermos vivos.

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