A fratura da classe dominante. Artigo de Valério Arcary

 Valério Arcary – 01 Junho 2021 – Foto: DAQUI

 “Por que foi possível a recuperação dos direitos políticos de Lula?” A indagação é de Valério Arcary, professor aposentado do IFSP, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 31-05-2021.

Eis o artigo.

“Estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota” (Sun Tsu).

 

Existem três avaliações diferentes na esquerda sobre as decisões do STF sobre a anulação das condenações de Lula. O tema tem importância grande, porque é central na interpretação do novo momento na conjuntura Lula encabeça a preferência em todas as pesquisas de opinião disponíveis. Mantidas as atuais condições, o que é, evidentemente, imprevisível, Lula estaria em um segundo turno contra Bolsonaro.

 

É imprevisível porque ninguém pode saber qual será a conjuntura em meados de 2022.

  • Qual será o desenlace da CPI da pandemia no Senado?
  • Qual será a evolução do governo Bolsonaro e, talvez, até o seu destino?
  • Qual será o contexto da pandemia daqui a um ano?
  • Qual será a situação econômica? Como vão evoluir as taxas de desemprego?
  • Qual será a taxa de inflação?
  • Qual será a evolução do salário médio?
  • Quais serão os impactos sociais das privatizações da EletrobrásCorreiosCedae/RJ previstas para o segundo semestre de 2021, se não forem detidas?
  • E o mais importante, qual será a relação social e política de forças?

 

Estas e muitas outras variáveis, hoje, impensáveis, porque “merdas acontecem” exigem máxima prudência.

  • Mas não diminuem a necessidade de retirar lições da campanha Lula Livre,
  • porque foi a maior vitória democrática dos últimos cinco anos,
  • e quem diminuir seu significado está, totalmente, equivocado.

 

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Foto: Divulgação

 

A primeira é ingênua e circular: vencemos porque a causa era justa e justiça foi feita.

  • Muitas causas justas não são reconhecidas pela justiça.
  • Não devemos ter nem ilusões, nem muitas expectativas na justiça.
  • Lembremos que o impeachment de Dilma Rousseff foi referendado pela justiça.

Julgamentos políticos se decidem em função de interesses políticos, ou seja, a luta pelo poder.

Esta interpretação remete, portanto, o desenlace da votação da incompetência da 13ª Vara de Curitiba e a suspeição de Moro

  •  à força da campanha nacional e internacional.
  • Ao talento da defesa jurídica pelos advogados de Lula.
  • À unidade conseguida na maioria da esquerda para a organização dos Encontros e, sobretudo, da Vigília em frente ao prédio da Polícia Federal.
  • À atividade incansável da rede de juristas organizados na ABJD,
  • à adesão de grandes artistas populares que influenciaram o mundo da cultura,
  • à solidariedade da ala mais à esquerda da Igreja Católica, que abriu as portas do Vaticano, além de outros religiosos.

Remete, também,

  • à estabilidade na formação do Comitê Lula Livre Nacional e sua capilaridade em muitas cidades,
  • à regularidade dos boletins de informação,
  • à qualidade dos materiais de agitação e propaganda,
  • à iniciativa dos Festivais,
  • à persistência dos mutirões, as atividades de rua
  • e, também, à força do compromisso do próprio Lula que perseverou, destemidamente.

Há muitos grãos de verdade neste balanço, mas ele é unilateral. Em sua versão mais extrema desconsidera a divisão entre as forças sociais hostis ou até inimigas, uma versão ilusória de voluntarismo.

 

A segunda é aquela que argumenta que uma fração da classe dominante passou a defender a liberdade de Lula,

  • como resposta a uma nova situação política precipitada pela crise sanitária, econômica, social e política ao longo do último ano,
  • em função dos desastres do governo de extrema-direita.

O isolamento de Bolsonaro acabou favorecendo Lula.

A pressão burguesa sobre o STF

  • responderia, preventivamente, à preocupação diante do perigo de uma explosão social,
  • ou à necessidade de contar com Lula e com o PT para preservar a estabilidade institucional em caso de um impeachment.

Nas correntes mais sectárias florescem ideias perigosas e até, curiosamente, contraditórias, senão de inspiração paranoica.

  • Alguns sugerem que a fração mais poderosa da burguesia pressionou pela liberdade de Lula para enfraquecer Bolsonaro,
  • outros que Lula teria interesse em preservar Bolsonaro, porque perderia favoritismo nas eleições de 2022, se Bolsonaro fosse deslocado.
  • Há, também, um grão de verdade aqui, mas não mais do que isso.

Na sua versão mais extrema esta visão flerta com teorias de conspiração.

 

A terceira é muito mais complexa.

A campanha Lula Livre começou em condições muito adversas.

Quando Lula foi preso, em abril de 2018,

  • era impossível prever que em novembro de 2019 estaria solto
  • e, muito menos, que em março de 2020 teria recuperado seus direitos políticos.
  • A evolução foi muito rápida.

Campanhas similares, como a luta pela liberdade de Mandela foram, incomparavelmente, mais longas e difíceis.

Processos assim só podem ser explicados considerando muitos fatores.

  • Claro que é educativo começar a avaliação sublinhando a importância da campanha unitária da esquerda pela sua libertação.
  • Deixou uma lição inspiradora para os perigos do futuro.
  • Na hora das derrotas, conseguir manter a cabeça erguida é essencial. Nada substitui a firmeza e a dignidade.

E ficaram muito mal diante da fotografia da história aquelas correntes e grupos de esquerda que se recusaram a defender Lula Livre.

  • Sem o engajamento incansável do MST na construção da campanha tudo teria sido muito mais difícil.
  • Sem a aposta que prevaleceu no PT de que a influência de Lula permitia que a campanha tivesse uma audiência de massas não teria sido possível.

Mas a unidade dos dois maiores partidos da esquerda brasileira além do PTPSol e PCdB foi fundamental, também.

  • Nunca foi uma luta somente do PT.
  • A luta pela liberdade de Lula engajou, em maior ou menor proporção, a imensa maioria da esquerda brasileira, felizmente.

Mas seria ingênuo atribuir o desenlace das votações no STF à força da campanha.

  • Não foi possível organizar atos de massas pelo Lula Livre.
  • Todos os atos foram, em maior ou menor medida, atos de vanguarda.
  • Sejamos honestos: atos da militância.

Ou seja, agruparam o ativismo mais consciente ou, ideologicamente, politizado, em especial, os “inoxidáveis”, a “velha guarda” da esquerda brasileira que veio dos anos oitenta e noventa.

 

Outros fatores pesaram muito no desenlace das votações do STF.

  • O julgamento de Lula foi sempre, desde o início, um processo político,
  • indivisível do golpe institucional de 2016 que deslocou Dilma Rousseff da presidência.

Esse era o calcanhar de Aquiles da operação que culminou na prisão de Lula:

  • nenhum setor importante da burguesia se posicionou contra o golpe.
  • Um golpe semelhante ao que aconteceu em Honduras e no Paraguai.
  • Um golpe que abriu o caminho para Bolsonaro chegar à presidência.

A perseguição política mascarada pela judicialização era uma operação muito perigosa, porque estabelecia precedente grave, a legitimação do lawfare.

Quando Sergio Moro aceitou, desenvergonhadamente, o cargo de ministro da Justiça no governo de extrema-direita liderado por um neofascista como Bolsonaro, a turbulência começou, sobretudo, no exterior.

A divisão do mundo jurídico entre os denominados “garantistas” e “lavajatistas” existiu, portanto, durante todo o processo.

  • O modelo de denúncias construídas sobre delações premiadas
  • sem outras provas além dos testemunhos de réus interessados em anistia
  • era um escândalo.

Mas tudo se acelerou na medida em que a manipulação realizada pela Lava-Jato foi desmascarada pela publicação pelo The Intercept da troca de mensagens entre Sergio Moro e os procuradores, e confirmada pelos arquivos da operação spoofing,

  • Quando o centrão deixou de ser somente base de sustentação parlamentar e se incorporou, plenamente, no governo
  • os conflitos com a operação Lava-Jato passaram a se expressar dentro do governo.

Não são poucos os parlamentares do centrão, mas, também, do MDB, Democratas e até do PSDB, ninguém menos que Aécio Neves, candidato presidencial derrotado em 2014, partidos históricos da representação burguesa desde o fim da ditadura, que estavam sob investigação.

Não menos importante foi a mudança lenta da conjuntura em função da hecatombe sanitária da pandemia.

  • O obtuso negacionismo de Bolsonaro diante da tragédia humana do contágio em massa e do colapso do SUS,
  • desconsiderando a emergência da contratação de vacinas, defendendo remédios imaginários, denunciando a necessidade de quarentenas e, constantemente, ameaçando com o autogolpe
  • resultou em enfraquecimento social e político.

A derrota de Trump mudou o lugar do governo Bolsonaro no mundo de forma qualitativa.

  • Ainda que Bolsonaro mantenha apoio majoritário na “massa da burguesia”,quando consideramos os seis milhões de empresários de conjunto,
  • o desastre em curso produziu fissuras no núcleo duro da classe dominante.

Nenhum setor defende o impeachment, mas o manifesto dos 500 foi um alerta amarelo.

A maioria da grande burguesia, alguns poucos milhares de bilionários, ainda aposta na preservação do regime democrático-eleitoral. As ameaças bonapartistas de Bolsonaro fraturam a classe dominante.

E um regime democrático-liberal não é possível sem a esquerda na legalidade.

Vencemos, porque lutamos, mas, também, porque nossos inimigos se dividiram.

E a luta de classes nunca é em vão.

 

Coluna | Ciro Gomes nunca voltou de Paris? | Brasil de Fato

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Valério Arcary

É professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/609758-a-fratura-da-classe-dominante-artigo-de-valerio-arcary

 

 

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