O que quer a Colômbia rebelde?

 

Por Betty Ruth Lozano Lerma, na Cult – 21/05/2021 – 

Foto: Protestos na ColômbiaDAQUI

Nos intensos protestos pelo país, ganha forma um movimento horizontal e amplo. Já frearam contrarreforma neoliberal e derrubaram ministros. Agora, exigem Renda Básica, serviços gratuitos e comissão para investigar truculência policial.

 

“O governo está nos matando” é o SOS da juventude colombiana diante da repressão desencadeada pelo governo contra a mobilização pacífica iniciada em 28 de abril, data em que sindicatos convocaram uma greve nacional.

  • A população saiu às ruas em massa e, naquela noite, uma onda de violência policial foi desencadeada contra os manifestantes que haviam se instalado em lugares estratégicos da cidade de Cali.
  • Após estabelecerem pontos de bloqueio permanentes, foram atacados com balas com o objetivo de gerar terror e dissuadir o protesto.

Quem disse medo?

A repressão fez apenas aumentar a indignação.

  • Uma multidão sem precedentes foi às ruas no primeiro de maio de Cali.
  • Desde então, o governo do presidente Iván Duque Márquez
  • vem desdobrando uma força militar desproporcional contra menores armados apenas de sonhos e pedras.

Até o dia 8 de maio, os números de violações de direitos humanos correspondiam a um país sob uma ditadura militar.

  • A polícia, a ESMAD (esquadrões da Polícia Nacional), o exército e civis armados (paramilitares)
  • atacaram os pontos de bloqueio com balas e declararam objetivo militar à Missão Médica Voluntária, que atende feridos nesses pontos,
  • em franca violação das normas internacionais de Direitos Humanos.

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Agora é impossível contar os assassinados, os desaparecidos, os espancados e torturados, as mulheres abusadas sexualmente pela polícia. As forças militares e policiais estão impedindo os defensores dos direitos humanos de realizar seu trabalho. Não há garantias de vida hoje na Colômbia.

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Segundo o boletim nº 9 da Campanha Defenda a Liberdade, entre 28 de abril e 7 de maio,

  • havia 451 pessoas feridas,
  • 15 foram vítimas de violência de gênero,
  • 1291 foram detidas – a maioria delas por meio de procedimentos arbitrários e submetidas a tortura –
  • 42 foram mortas.
  • O número de desaparecidos pode chegar a 471.

Apesar desta situação,

  • os jovens continuam nas ruas, mostrando expressando que lhes tiraram tanto que até o medo se perdeu.
  • Seus protestos foram pacíficos, criativos, lúdicos, artísticos.
  • Há evidências suficientes que mostram a prática policial de atos de vandalismo e violência
  • com o objetivo de deslegitimar o protesto, diminuir sua popularidade e justificar o uso da força pública.

Quem se mobiliza hoje sabe que o governo mente.

Por que o protesto?

Este protesto tem antecedentes na greve de novembro de 2019,

  • convocada por centrais de trabalhadores, organizações sociais, camponesas, indígenas, afrodescendentes e estudantis,
  • e que também teve como protagonistas as pessoas jovens.

A população se mobilizou

  • contra o que chamou de “pacote Duque”, que, entre outras medidas,
  • pretendia baixar o salário mínimo em 75% para jovens menores de 25 anos
  • e diferenciá-lo de acordo com a produtividade de cada região.

A mobilização de 21 de novembro de 2019 foi um despertar da maioria para a precariedade da vida em todos os níveis, como resultado do modelo neoliberal.

Essa greve se tornou um tema de debate nacional apoiado por rainhas de beleza, cantoras e várias figuras do entretenimento. E as reações do governo são semelhantes tanto em 2019 quanto em 2021: militarização de algumas áreas do país, repressão policial, fechamento de fronteiras e invasões de domicílio.

As pessoas jovens: protagonistas

  • A greve de 28 de abril, ainda em curso, teve como protagonistas jovens sobretudo das zonas mais periféricas, marginalizadas e empobrecidas da cidade.
  • Não se trata de juventude universitária, mas daquela que não teve a oportunidade de fazer carreira e também não tem a possibilidade de um trabalho digno (nos termos da OIT).

Trata-se de uma geração nascida no contexto desses 40 anos de economia neoliberal na Colômbia.

Uma juventude cheia de frustrações:

  • quando queriam estudar não tinham possibilidades,
  • quando saíam em busca de trabalho, não encontravam.

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São o Não Futuro. São aquelas pessoas que têm que ganhar a vida com trabalho informal, sem benefícios ou seguridade social. Muitos limpam vidros nos semáforos, vivendo diariamente a humilhação. Em suas casas falta tudo.

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É também a geração que viveu diretamente as consequências econômicas e emocionais da pandemia:

  • o desemprego dos pais, o próprio desemprego, as situações de estresse devido ao confinamento e à pobreza.
  • Mas é também a geração da comunicação instantânea por meio das redes sociais.

Apesar dessas situações dolorosas, é também uma geração que não desiste, que hoje sai às ruas para ser protagonista da mudança social necessária para se ter uma vida digna de ser vivida.

Nas passeatas,

  • vimos jovens, grupos de todos os tipos, artistas (aliás, um dos assassinados pela ESMAD é Nicolás Guerrero, 21, artista urbano que velava os caídos, morreu de tiro de bala na cabeça transmitido ao vivo),
  • mulheres, grupos LGBTI+, professores e professoras, estudantes, donas de casa, afro, indígenas, pessoas desempregadas, trabalhadoras informais.

Todo o país indignado saiu às ruas, e o que recebeu como resposta do governo foi repressão e morte.

O que está sendo pedido?

A seguir, transcrevo a declaração emitida após uma assembleia realizada no campus da Universidad del Valle em 6 de maio:

“As delegações dos pontos de concentração e bloqueios, movimentos e sociais, políticos, juvenis, estudantis, artísticos, urbanos, rurais, afro, indígenas, sindicais, operários, grevistas departamentais, entre outros, reuniram-se no dia 6 de maio no auditório 5 do a Universidad del Valle, nós declaramos:

  1. A Greve Nacional e sua mobilização social e política em Cali, Valle e Colômbia são devidos a uma explosão de descontentamento popular como resultado de anos de exclusão e desigualdade, exacerbada pela ditadura de Uribe, cuja reforma tributária criminal foi apenas a faísca que acendeu a indignação popular.
  2. Reconhecemos que não existe uma liderança unificada da greve; ao contrário, existem múltiplas expressões sociais, políticas e populares em todos os pontos de concentração e bloqueios. Precisamos de uma articulação dirigida e organizada.
  3. Alertamos que o governo Duque pretende e executa contra a greve, não só uma resposta e escalada militar criminal, mas também atomizá-la com diálogos setorizados.
  4. Mandamos estabelecer um corredor humanitário para alimentação, saúde e assistência médica, higiene e saneamento, fornecimento de serviços básicos de sobrevivência, etc.
  5. Denunciamos a campanha de desinformação contra as causas e atores da greve nacional, que a ditadura Uribe-duquista e as lideranças militares atribuem a frentes guerrilheiras, vândalos e gangues criminosas, até mesmo a uma pretensa agenda comunista internacional oculta.
  6. Rejeitamos a conduta criminosa e cúmplice do Prefeito Ospina e do Governador Roldán em permitir a repressão e a “assistência militar” para legitimar os protestos sociais e populares, entregando suas funções de autoridades locais e regionais à liderança militar chefiada pelo Ministro da Defesa Molano.
  7. Convocamos assembleias populares em todos os pontos de concentração e bloqueios que culminam em uma grande assembleia municipal nacional que constrói um único roteiro unitário programático e democrático.
  8. Solicitamos ao governo de Iván Duque que estabeleça a primeira mesa de negociações na cidade de Cali

Lista de demandas sociais, políticas e unitárias

  1. Retirar a “assistência e escalada militarista” de Cali e do Vale.
  2. Garantir o protesto e a mobilização social no âmbito da Greve Nacional.
  3. Reformar a polícia e desmantelar a ESMAD.
  4. Implementação do acordo de paz que garante impedir o assassinato de líderes sociais e políticos.
  5. Renúncia do Comandante Geral das Forças Armadas Zapateiro.
  6. Retirar as reformas de saúde, previdência e trabalho.
  7. Renda básica universal e matrícula zero no ensino médio e superior.
  8. Ajuda financeira às PMEs e perdão de dívidas.
  9. Educação gratuita e condicionamento biosseguro para a presença.
  10. Maior investimento financeiro na educação básica, média e superior.
  11. Creches diurnas e noturnas para crianças da primeira e segunda infância.
  12. Justiça investigativa e criminal para todas as pessoas assassinadas, feridas, torturadas e desaparecidas na Greve Nacional.
  13. Proibição de perseguição policial e militar aos e às integrantes e participantes da greve nacional.
  14. Criação de uma comissão de esclarecimento da verdade.
  15. Que o Prefeito Ospina e o Governador Roldán se desculpem pela ordem de militarizar a cidade e o departamento, e por sua conduta cúmplice e criminosa, entregando suas funções de primeiras autoridades às chefias militares.
  16. Liberdade imediata de todas as pessoas detidas e que as pessoas desaparecidas apareçam.
  17. Ações e cronograma: 9 de maio às 10h, Assembleia Geral popular na sede de Meléndez da UV para definir um roteiro programático, unitário e democrático.

Neste momento, não sabemos que rumo vai tomar a greve, o maior medo, como expressou um cartaz, é que depois da sua revolta tudo continue como está. Espero que não. Continuaremos caminhando.

 

Betty Ruth Lozano Lerma: Feminismos Latinoamericanos - OPLAS.org

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Betty Ruth Lozano Lerma 

é socióloga e professora de Filosofia Política na Universidad Del Valle

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-que-quer-a-colombia-rebelde/

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