Deus é americano?

A religião americana privilegia o “ser americano” antes do ser cristão e o nacionalismo antes do universalismo da fé. Só que tal mentalidade faz tábua rasa da figura de Jesus Cristo, seu discurso e obra.

América. Imigrantes

| 19 Mai 21 |  Foto © Nitish Meena / Unsplash

“O problema é que esse pretensioso favoritismo divino diminui todos os outros povos, desumanizando-os, e revela o mais pernicioso egoísmo face a todos aqueles que são alheios a essa identidade nacional, rotulando-os como estranhos e inimigos potenciais.”

 

 

Atendendo a alguns discursos por vezes parece que Deus tem um fraquinho especial pelos Estados Unidos.

Dá ideia de que

  • as Escrituras devem ser interpretadas exclusivamente segundo o quadro mental norte-americano,
  • e que o Deus da Bíblia vive para abençoar aquela nação e suportar os seus interesses em desfavor de todas as outras.

Como alguém disse:

“As nossas guerras foram as mais justas, os pais fundadores foram os mais santos, o nosso governo é o mais favorecido por Deus e a nossa terra é a mais divinamente abençoada e protegida.”

  • Se no salazarismo se pensava que quem não fosse católico não era bom português (o que será isso?),
  • querendo significar pessoa séria e confiável, com base numa espécie de avaliação com resquícios medievais,
  • o americano bom é caucasiano e cristão, como atestam os supremacistas brancos e a prática política trumpista.

É o patriotismo que molda a teologia em terras do tio Sam

  • e abre caminho para que o nacionalismo desvirtue por completo a genuína visão do evangelho,
  • de modo que mesmo quando a política americana provoca nos bastidores a queda de governos estrangeiros democraticamente eleitos ou apoia e arma até aos dentes os ditadores mais sanguinários
  • o país quase nem hesita em apoiar tais desmandos e premiar os seus autores.

O problema é que esse pretensioso favoritismo divino diminui todos os outros povos, desumanizando-os, e revela o mais pernicioso egoísmo face a todos aqueles que são alheios a essa identidade nacional, rotulando-os como estranhos e inimigos potenciais.

Não que essa atitude seja nova em termos históricos, mas neste caso é justificada em nome de Deus.

No fundo é como se o Deus cristão mantivesse com a América uma aliança como a que Iavé estabeleceu com o povo hebreu há milhares de anos, tornando-se um Deus exclusivo e étnico, ligado a um povo que era o seu agente na terra.

Só que tal mentalidade faz tábua rasa da figura de Jesus Cristo, seu discurso e obra. O orgulho americano

  • impede o reconhecimento dos indivíduos de outros países do mundo como seus iguais, irmãos e irmãs em Cristo,
  • não permitindo considerar que também são criados à imagem de Deus,
  • fazendo com que os valores americanos se coloquem em conflito frequente com o evangelho.

Stephen Mattson diz que

  • o estilo de vida americano leva a que as comunidades e organizações religiosas ponham a tónica numa cultura de poder, controlo, popularidade, luxo, riqueza, prestígio, entretenimento e conforto.
  • Até inventaram uma teologia da prosperidade em consonância com o american way of life.

Usam-se os textos bíblicos para defender submissão às autoridades governamentais, mas já

“não achamos que esses mesmos versículos se apliquem a outros governos, em especial aos inimigos.” 

E depois o medo faz o resto e abre caminho para a produção de leis excludentes que assegurem a supremacia do homem branco.

A religião americana

  • privilegia o “ser americano” antes do ser cristão
  • e o nacionalismo antes do universalismo da fé plasmado no Novo Testamento.

A tentativa de criar uma religião tipicamente americana esteve quase sempre na ordem do dia durante os últimos dois séculos.

  • É o caso dos russelistas, mais conhecidos como Testemunhas de Jeová, organização criada em 1881 na Pensilvânia, por Charles Taze Russell,
  • e muito especialmente da Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Últimos Dias, uma ideia restauracionista de Joseph Smith Júnior levada à prática em 1820,
  • já para não falar de inúmeros grupos religiosos quase desconhecidos e sem tradução internacional.

Cada um acredita no que quer, mas são mais do que óbvias as inúmeras tentativas de “americanizar” a prática religiosa fazendo deslocar a tradição cristã para o continente, pois assim ainda fará mais sentido a narrativa de um país abençoado por Deus e colocado acima de todos os outros.

Apesar disso nem todos os pais fundadores eram cristãos, e o princípio do estado laico está claramente inscrito no documento fundacional do país.

  • Uma vez que o rei em Windsor era o líder máximo da Igreja Anglicana, e porque os fluxos migratórios que iam chegando à Nova Inglaterra traduziam já uma notória diversidade confessional,
  • decidiu-se não haver igreja de estado mas antes ampla liberdade religiosa.
  • Liberdade que hoje parece estar em causa quando parte do campo cristão se coloca numa trincheira, na luta contra o melting pot de um grande país como a América.

 

Adeptos de um deus menor

José Brissos-Lino

é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

Fontehttps://setemargens.com/deus-e-americano/

 

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