Escritora Lídia Jorge pede à Igreja padres «cultos» e capazes de«dialogar»

Rui Jorge Martins, 17/05/2021m- Foto: Daqui

«A homilia é um momento importantíssimo» que «tem de ser aproveitado com a maior amplitude possível, com dados culturais vários; se isso não acontece, as pessoas vão à missa como foram há dez anos ou como irão daqui a dez anos, sem a noção de que o mundo se transforma»

 

A escritora Lídia Jorge considera que entre vários padres subsiste uma ignorância em relação a criações elementares da arte e da cultura, que é preciso corrigir para aproximar a Igreja de mais pessoas. Ao mesmo tempo, diz que muitas homilias sobre o mesmo texto bíblico se repetem ao longo de décadas, indiferentes às mudanças no mundo.

«Pede-se à Igreja que os seus sacerdotes sejam cultos» e «tenham acesso a obras literárias, instrução do ponto de vista de gosto pela música, pelo teatro, pelas várias expressões da cultura», afirmou a escritora durante o 14.º Encontro Nacional de Referentes da Pastoral da Cultura, que decorreu através de meios digitais, no dia 28 de abril (de 2021).

No encontro organizado pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, a autora sublinhou que o desenvolvimento da sensibilidade para a cultura deve ser acompanhada pela «capacidade de dialogar com as pessoas».

«Muitas vezes» fala-se com padres «que não leram nada, a não ser obras fundamentais da teologia», mas «são incapazes de perceber o que a obra de James Joyce, ou outra, lhes pode dar», referiu.

  1. Como exemplo da «espécie de aversão» que em alguns meios clericais existe em relação à cultura,
  2. contou às cerca de duas dezenas de participantes um encontro, «estranho», com um padre, que lhe declarou:

«Quando os sacerdotes começam a falar de poesia, temos tudo estragado (…) [porque] se entra num caminho que não se consegue dominar.»

Ao lembrar a obra Verbo – Deus como interrogação na poesia portuguesa, com seleção de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia (ed. Assírio & Alvim), a escritora sustentou que há

«poemas que podem perfeitamente circular pela Igreja, pelos crentes, e fazer parte das celebrações».

«É importante perceber que há toda uma cultura que está a passar debaixo dos nossos olhos», afirmou, antes de lamentar a existência de homilias que, «ano após ano», são proferidas «como se não corresse o tempo, como se de ano para ano não houvesse alterações».

Para Lídia Jorge,

  • «as pessoas têm medo de falar do que vem nos jornais, medo de criar a sua própria narrativa; mas isso aprende-se. Devia haver um aprendizado da narrativa».
  • «A homilia é um momento importantíssimo»
  • que «tem de ser aproveitado com a maior amplitude possível, com dados culturais vários;
  • se isso não acontece, as pessoas vão à missa como foram há dez anos ou como irão daqui a dez anos, sem a noção de que o mundo se transforma»,

assinalou.

Neste sentido, a escritora defendeu que o texto canónico proclamado nas celebrações deve ser

«acrescentado com a narrativa do nosso tempo, que tenha a capacidade de chegar às pessoas através de novas parábolas sobre a parábola».

  • Depois de evocar um padre que, nas pregações, contava não só «histórias da Bíblia», mas também «histórias da vida»,
  • a escritora observou que se mais sacerdotes aproximassem o Evangelho dos acontecimentos do dia a dia, «as pessoas sentiriam a Igreja muito mais próxima».

«Há uma espécie de assepsia, que a palavra dita e narrada não pode tocar neste mundo, há um tabique muito forte»,

observou, ao responder à pergunta sobre como os católicos podem estar mais presentes no mundo da cultura.

A Igreja tem lançado

  • «uma espécie de cortina perante os vários espaços culturais, não os faz seus, não os interioriza,
  • pode assistir a uma ou outra coisa, ser amiga de uma ou outra pessoa,
  • mas não os transforma naquilo que é a sua pregação»,

acrescentou a escritora.

Rui Jorge Martins

Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Fonte: http://www.jornaldamadeira.com/2021/04/29/lidia-jorge-pede-se-a-igreja-que-os-seus-sacerdotes-sejam-cultos-e-saibam-dialogar/

1 comment to Escritora Lídia Jorge pede à Igreja padres «cultos» e capazes de«dialogar»

  • Herminia Braulio

    Em parte tem minha concordância. Entretanto, a cultura pode ser interpretada ao menos de duas formas:
    – cultura enquanto costumes/hábitos de uma comunidade
    – ou cultura/erudição enquanto conhecimento.
    Seja qual for a interpretação, a essência da questão passa pela comunidade à qual o sacerdote será enviado. Deve estar inculturado na comunidade que vai paroquiar, de modo que não lhe falte a cultura adequada para anunciar a Boa Nova de modo pedagógico.

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