O perigo de um Deus bom

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1. Julgo que o que no Papa Francisco provoca mais a admiração das pessoas, dentro e fora da Igreja – talvez até mais fora – é ele ser um cristão. Por palavras e obras.

O que é ser cristão?

É ser discípulo de Jesus, tentar viver como ele. Jesus é o autor da maior revolução da História, que consiste na revolução da imagem de Deus.

  • Até pessoas que se dizem cristãs continuam com a ideia
  • de que Deus manda epidemias, por exemplo,
  • de que Deus precisou da morte do seu Filho Jesus para se reconciliar com a Humanidade.

Pergunto: que pai ou mãe decentes exigiriam a morte de um filho?

  • Em relação ao Deus que tivesse mandado o Filho ao mundo para, pela sua morte na cruz, poder aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade
  • só haveria uma atitude humanamente digna: ser ateu.

Na realidade, Jesus, veio, pelo contrário, revelar que

  • Deus é Pai/Mãe, amigo de todos, que a todos dá a mão, que compreende e perdoa e quer a salvação de todos.
  • Deus é Amor incondicional, “o seu nome é Misericórdia”, diz o Papa Francisco, que faz como Jesus:
  • anima a todos, dá a mão aos mais pobres, abandonados, marginalizados, denuncia a economia financeira especulativa e corrupta, que mata…

Afinal, na Páscoa, a pergunta que precisamos de fazer é sempre esta: quem mandou matar Jesus, crucificando-o?

Dá que pensar e até causa arrepios:

  • Jesus foi mandado matar, em primeiro lugar, pelos sacerdotes do Templo.
  • Eles não toleravam que Jesus dissesse, colocando na boca de Deus estas palavras:
  • “Eu não quero sacrifícios (de pombas, ovelhas, vitelos…), mas sim justiça e misericórdia.”

Os sacerdotes viviam, até financeiramente, da exploração do povo em nome da religião.  Quem mandou crucificar Jesus, a pedido dos interesses do Templo, foi o representante do Império, Pilatos.

Para que é que existem os impérios senão para dominar, explorar, escravizar?

  • Pilatos teve medo de que o fossem denunciar ao imperador por libertar um subversivo com consequências para o poder imperial.
  • De facto, o Deus de Jesus não quer escravos nem explorados por impérios ou seja pelo que for. Deus quer a dignidade de todos.

Não é esta dignidade e justiça para todos que Francisco também anuncia, quer e pratica?

Até parece que nos damos mal com um Deus bom para todos. Talvez não seja só parecer; em geral, damo-nos mesmo mal.

É que,

  • se Deus não fosse bom, não seríamos obrigados também nós a ser bons;
  • se Deus fosse vingativo, também nós podíamos vingar-nos;
  • se Deus não fosse o Deus da justiça e da paz, nós também podíamos roubar, ser corruptos, fazer a guerra, matar em nome de Deus ou invocando o seu nome…

Será que temos meditado suficientemente sobre o que levou Jesus à Cruz?

  • Jesus não morreu na cruz por vontade de Deus.
  • Morreu por vontade dos homens. Jesus não morreu para satisfazer um Deus irado.
  • Morreu pela causa de um Deus bom, amável.
  • Morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor: Deus é Amor… e só quer o bem de todos.

Quem nunca ouviu falar da parábola do filho pródigo, dos banquetes de Jesus com pecadores públicos, com prostitutas, acolhendo todos em nome de Deus?…

 

  • O sofrimento físico, psicológico, moral, de Jesus durante o julgamento,
  • o abandono e a fuga dos discípulos mais próximos,
  • a flagelação, a coroação de espinhos,
  • o caminho do Calvário, aquelas horas de horrores na cruz, é inimaginável.

Rezou a Deus, que tratava por “Abbá” (Pai querido), que o libertasse daquele suplício, que se aproximava, sentiu pavor, suou sangue, rezou aquela oração que atravessa os séculos:

Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”

Mas as últimas palavras foram de perdão e de confiança filial:

“Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”

Tantas vezes a cruz verdadeira de Cristo foi insultada com cruzes peitorais de ouro com pérolas incrustadas para ostentação de quem as utilizou…

 

2Aparentemente, foi o fim. Mas, lentamente, os discípulos – a primeira foi Maria Madalena, porque amava mais – foram reflectindo sobre tudo o que viveram com Jesus, o que Ele disse, o que Ele fez, o modo como o fez até à morte, e morte de Cruz,

  • e foi-se tornando claro para eles, numa experiência avassaladora de fé,
  • que aquele Jesus crucificado para dar testemunho do Deus que é Amor não podia ter sido devorado pela morte.
  • Na morte não encontrou o nada, mas o Deus que é a Vida e Amor. Jesus é o Vivente.

E reuniram-se outra vez e foram anunciar o Deus que Jesus anunciou, por palavras e obras. Deram testemunho d’Ele até à morte. “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos sobre os cristãos.

E uma nova esperança percorreu o mundo. E quando parecia que tudo se afundava, o cristianismo venceu, como sublinhava o ateu religioso Ernst Bloch, por causa desta proclamação: “Eu sou a Ressurreição e a Vida.”

As primeiras comunidades cristãs

  • reuniam-se e celebravam a Eucaristia com alegria nas suas casas,
  • lembrando Jesus, a sua vida, a sua morte, a sua ressurreição,
  • e anunciando a esperança da vida eterna plena: “Fazei isto em memória de mim.”

Mas damo-nos mal com um Deus bom.

E, lentamente,

  • porque eram acusados de ateísmo por não oferecerem sacrifícios à divindade,
  • a Eucaristia foi transformada em sacrifício oferecido a Deus,
  • e surgiram os sacerdotes com ordens sacras para oferecerem o sacrifico da Missa,
  • e reapareceram os senhores do Sagrado e as duas classes na Igreja: o clero e os fiéis.

Introduziram-se as cerimónias, com mais ou menos solenidade, das cortes imperiais. O que restou (resta?) da Ceia de Jesus?

 

Anselmo Borges

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

 

1 comment to O perigo de um Deus bom

  • Natércia Júnia Roland Furletti

    Real, esclarecedor, verdadeiro!
    Muito bom!
    Obrigada!

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