Negar todo o poder para conservar todo o poder. Afetos e efeitos do dispositivo de bloqueio.

IGREJA

Papa-Francisco-3

 

por Andrea Grillo –  Publicado em 5 de maio de 2021 no blog: Come se non

Foto: Papa Francisco / DAQUI

A Igreja, para preservar  aquilo sobre o qual não tem poder e só a pode justificar, deve reconhecer abertamente o poder de mudar e de adaptar todo o resto se quiser permanecer capaz de “sair de si” e de encontrar, no mundo, o revelar-se  do seu Senhor.

Uma igreja que, pelo contrário, estivesse  “bloqueada sobre tudo” e que mostrasse saber mudar apenas as “invocações a São José”, ofereceria de si um rosto amedrontado e egocêntrico.

 

 

Até mesmo nos últimos tempos, continua a ser uma manifestação consistente a tendência do magistério eclesial de “bloquear tudo”, embora também conheça as exceções respeitáveis, especialmente no nível do magistério papal.

O que deve surpreender é que essa “afirmação do poder” ocorra por meio da afirmação repetida de “não ter o poder”. 

  • Que a afirmação do poder ocorra por meio de uma negação do poder
  • é um modo de argumentar que se difundiu no discurso eclesial católico desde os anos 1970
  • e assegurou progressivamente uma verdadeira ‘paralisia’  daquela orientação para a reforma e para os processos de atualização,
  • que o Concílio Vaticano II tinha providencialmente reintroduzido na vida da Igreja.

Já tratei do fenômeno anteriormente, identificando uma espécie de ‘estilo magisterial’, que se baseia numa estratégia paradoxal:  negando a própria autoridade, ele conserva toda a sua autoridade . ( in-uscita-e-esercizio 1…).

Retomo brevemente o sentido desse primeiro raciocínio, para tentar compreender também os desenvolvimentos mais recentes.

 

1. O problema da autoridade

No debate eclesial que surgiu após as palavras proféticas do Papa Francisco sobre a “Igreja em saída” e sobre a “superação da autorreferencialidade”,

  • não foi ainda claramente entendido o quanto esta prioridade, que o Papa corretamente enunciou desde o primeiro dias de seu ministério
  • – e que já estava claramente presente no seu texto apresentado na Congregação dos Cardeais em conclave
  • exigisse  uma profunda revisão do estilo com que a Igreja pensa e age acerca do tema do “poder” e da “autoridade”.

Para “sair da autorreferencialidade” e tornar-se verdadeiramente “heterorreferencial”

  • – ou seja, não colocar a si mesma no centro, mas o Outro Deus e o outro próximo –
  • a Igreja deve antes de tudo reconhecer que está investida de uma autoridade real e eficaz.

Em outras palavras,

  • ela  deve poder confiar na possibilidade de intervir com autoridade na sua própria doutrina e disciplina 
  • no que ela pensa de si mesmo e sobre o que ele faz de si mesma –
  • sem ceder à tentação de “impedir a si mesma um repensamento”, ainda que em nome da fidelidade à tradição. 

A Igreja, por um lado, é estabelecida por uma mensagem que não pode controlar e sobre a qual não tem poder .

Mas isso

  • diz respeito à “substância da antiga doutrina do depositum fidei“, 
  • não à “formulação do seu revestimento”,

para usar a famosa distinção com que João XXIII, no grande discurso  Gaudet mater ecclesia , inaugurou o período conciliar, definindo assim a “índole pastoral” do Concílio Vaticano II.

  • Se a Igreja pensasse que a única maneira de ser fiel ao Evangelho fosse continuar em tudo e para tudo como antes – tanto doutrinal como disciplinarmente –
  • ela se convenceria imediatamente de que deve permanecer absolutamente imóvel para ser plenamente ela mesma. Fará do imobilismo a sua obsessão

O Concílio Vaticano II ontem e Francisco hoje, quiseram responder a esta tentação, com o exercício de uma palavra profética, que quer antes de tudo persuadir a Igreja e o mundo de duas coisas:

–  que a fidelidade é mediada pelo movimento, pela conversão, pelo sair para a rua, não pela paralisia, pelo medo e pelo fechar-se dentro de muros;

– que para mover-se precisa reconhecer a si mesma a autoridade para estar na história da Igreja e da salvação de forma participativa e ativa, não como espectadores mudos e passivos ou como meros “notários”.

Esta consideração, no entanto, encontra várias resistências

  • não só na inevitável inércia do modelo a ser superado,
  • mas também em alguns ‘lugares comuns’, entre os quais gostaria de considerar o que podemos expressar como  a redução da autoridade à “renúncia de autoridade”.

Este é um lugar comum muito fascinante, que por vezes assume considerável importância na experiência eclesial e que o magistério pode e deve utilizar em passagens complexas.  Traduz-se formalmente numa declaração de “non possumus”.

É este um dos pontos-chaves do “magistério negativo”, que a tradição antiga, medieval e moderna tem cultivado com atenção e cuidado. Trata-se, em última análise, de uma “auto-limitação do magistério”. 

Mas esta auto-limitação,

  • que de per si é garantia de “outro“,
  • e que  portanto deveria conter e impedir as formas de autorreferencialidade eclesial,
  • entrou com grande força na experiência eclesial das últimas décadas, sobretudo a partir do final dos  anos 1970.

Embora vindo de longe, este método de argumentação magisterial teve, exatamente após o Concílio Vaticano II, um novo e inesperado sucesso.

 

2. O “dispositivo de bloqueio”

Gostaria agora de identificar com maior clareza o cerne de tal argumentação num raciocínio artificioso

  • – que de certa forma aparece como uma espécie de “sofisma”
  • e que não é difícil de atribuir a um desenvolvimento integral do magistério, numa parábola temporal de pelo menos 50 anos, que vai dos anos 70 até os dias atuais.

É um “artifício teórico” que alcança, mediante um indiscutível refinamento retórico, um resultado pré-estabelecido:

  • bloqueia qualquer mudança
  • e faz prevalecer, mais afetivamente do que conceitualmente, uma primazia do antigo sobre o moderno.
  • É um “dispositivo de bloqueio” que paralisa afetivamente, “por apego” qualquer projeto de reforma.

Antes de analisar as principais etapas deste interessante fenômeno, que por uma questão de brevidade chamarei de “dispositivo de bloqueio”, gostaria de esclarecer melhor a peculiaridade da minha abordagem:

a) O aporte deste “modelo de pensamento” é muito significativo e foi aperfeiçoado especificamente pela elaboração teórica de J. Ratzinger: diz respeito primeiro ao Ratzinger Arcebispo, depois ao Ratzinger Prefeito e finalmente ao Razinger Papa: é o fruto não do “primeiro Ratzinger”, livre de compromissos pastorais, mas do “segundo e último Ratzinger”, comprometido com responsabilidades crescentes em nível da Igreja diocesana e depois, brevemente, da Igreja universal.

b) O cerne da argumentação

  • é fruto não só de uma indiscutível competência teológica, mas também da abdicação da razão, de uma forma bastante marcada,
  • para dar espaço a um “afeto”, ou, melhor ainda, a um “attachement”/“apego” irrenunciável,
  • que é assumido como auctoritas indiscutível:  retrocede a uma auctoritas  afetivamente sobredeterminada e, por isso incontrolável.

c) Por tal motivo é possível atribuir ao raciocínio a qualificação de “dispositivo”:

  • ele não explica racionalmente, mas valida retoricamente e impõe juridicamente uma solução que não tem bases sólidas senão num afeto. 
  • Isso determina o efeito de “evaporar” qualquer instância legítima de mudança, que se transforma imediatamente, e eu diria quase violentamente,
  • numa  uma contradição com os afetos e, portanto, numa negação e numa ameaça à tradição.

d) Funciona, por fim ou talvez antes de tudo,

  • como um suporte teórico perfeito, quase como axioma indiscutível,
  • para afirmar uma estrutura resistente e imóvel da Igreja, diante de um mundo ameaçador e traiçoeiro, ao qual a Igreja não deve ceder.

Recuperando temas e motivos do antimodernismo de um século antes,

  • o “dispositivo” funciona perfeitamente como um “bloqueio”, antes de tudo contra o espírito de um Concílio Vaticano II,
  • percebido cada vez menos como recurso e cada vez mais como “deriva”, um desvio.

Este “dispositivo de bloqueio” apresenta-se em numerosos exemplos historicamente progressivos, quase como se fora uma “acabamento” cada vez mais refinado e agudo dele.

A apresentação dirá respeito, pela ordem, a 4 documentos eclesiais inteiramente característicos desta abordagem:

  • a “Carta sobre a primeira confissão” do Arcebispo de Munique, de 1977,
  • a carta apostólica  Ordinatio sacerdotalis  de 1994,
  • a Instrução  Liturgiam authenticam  de 2001,
  • o Motu Proprio  Summorum Pontificum, de 2007,
  • à qual se junta a “carta aos Bispos Alemães” sobre a questão pro multis”, de 2012.

No cerne de cada um destes documentos, num arco de 35 anos,

  • encontra-se o mesmo mecanismo argumentativo, claramente reconhecível,
  • fascinante e desviante, límpido e ao mesmo tempo obscuro,
  • no qual apego e razão se fundem e se confundem. 

Uma breve investigação

  • poderá trazer à luz o ponto cego, mas também o débito que todos temos para com esta forma de raciocinar
  • e configurar a reflexão sobre a tradição eclesial
  • e da qual, se queremos reler significativamente o Concílio Vaticano II, deveremos nos libertar, mais cedo ou mais tarde.

3. Quatro exemplos do “dispositivo de bloqueio”

Apresento aqui apenas 4 exemplos de um modo de argumentar que hoje pode ser repetido quase em qualquer nível:

  • num texto de uma Congregação,
  • numa palestra universitária
  • ou numa entrevista em jornais,

e que pode ter, por objeto, qualquer “doutrina ou disciplina eclesial ”, sobre a qual se afirma que “ não ter poder ”.

3.1. A Carta sobre a Primeira Confissão (1977)

O primeiro “lugar doutrinal” em que se põe em prática o “dispositivo de bloqueio” é a relação entre a primeira confissão e a primeira comunhão,

  • que J. Ratzinger, então arcebispo de Munique, reconfigura “contra” a mudança feita por seu antecessor,
  • o card. J. Doepfner, que deslocou a primeira confissão para deois da primeira comunhão. 

A pretensão

  • é contrapor-se a um “uso pedagógico” da tradição,
  • mas a teologia que deveria nortear a nova opinião identifica-se simplesmente com a “evidência afetiva” do princípio de autoridade.

No texto da carta pastoral “Primeira confissão e primeira comunhão das crianças” (1977)

  • Ratzinger chega a inverter o sentido da tradição, para garantir a sobrevivência da prática mais tradicional (para ele),
  • afirmando uma primazia do sacramento de cura sobre um sacramento de iniciação,
  • em grave desacordo inclusive com o Concílio de Trento e com a diferença de “dignidade” que este exige seja reconhecida entre os sacramentos.

De fato ele afirma:

“só com a confissão pessoal se tornam verdadeiras as invocações de perdão da liturgia eucarística e esta liturgia eucarística da Igreja conserva a sua grande profundidade pessoal que, aliás, é o pressuposto da verdadeira comunhão”. 

Chega assim a subordinar a comunhão eucarística à confissão pessoal, como regra de abordagem original do sentido da própria comunhão, com um evidente e sério forçamento da tradição. 

Tudo isto, além do mais, argumentado com uma motivação verdadeiramente surpreendente:

  • o novo Arcebispo pede aos agentes pastorais que “deixem as suas idéias mais queridas para o bem da comunidade”,
  • mas de fato, com esta carta, ele impõe as suas próprias ideias mais queridas – as que para ele são afetivamente mais urgentes –
  • em detrimento do caminho de amadurecimento da comunidade. 

Usar a o Didaquê como texto-chave

  • para afirmar o primado da confissão individual sobre a comunhão eucarística
  • é uma argumentação audaciosa doutrinariamente, que manifesta um uso da “auctoritas” completamente anacrônico e desprovido de comprovação . 

Mas é aqui que, pela primeira vez, aparece o “dispositivo de bloqueio”:

  • argumentando de maneira vaga, puramente afetiva,
  • ele obtém apenas uma “conformação autoritária”  do comportamento,
  • sem uma motivação teológica consistente.

 

3.2. A argumentação da Ordinatio Sacerdotalis (1994)

Muitos anos depois, em 1994,

  • com a  Ordinatio sacerdotalissobre o tema da “ordenação de mulheres ao sacerdócio” –
  • da qual Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi o grande inspirador
  • ele retoma fortemente este estilo, declarando que “a Igreja não tem poder de conferir às  mulheres a ordenação sacerdotal”. 

Com uma declaração de “não autoridade”,

  • e da qual ele mesmo esclarece mais tarde  a natureza “não infalível”,
  • pretende-se encerrar a questão, sem excluir que “outras ordenações” sejam viáveis.

A negação da autoridade determina a confirmação da forma clássica do poder eclesial e tem até mesmo a pretensão de reconhecer, não infalivelmente, uma tradição infalível. Desloca a infalibilidade do documento para a tradição, com um salto mortal argumentativo muito arriscado. 

  • Sem assumir nenhuma nova autoridade,
  • reconhece-se autoridade somente ao passado,
  • sem tematizar nenhuma das novidades culturais, antropológicas e eclesiais que o século passado trouxe, como se história não fosse. 

No cerne do documento, e da sua explicação sucessiva,

  • aparece novamente com clareza o “dispositivo de bloqueio”:
  • afeto, apego e autoridade substituem a razão teológica.
  • Afeto, apego eautoridade,substituem.
  • Sentimene poder no lugar da razão

Ao contrário, a razão deveria, a posteriori, limitar-se a justificar o sentimento de apego e o princípio de autoridade.

 

 3.3 Liturgiam Authenticam (2001) e a carta sobre o “pro multis” (2012)

Alguns anos depois, em 2001, J. Ratzinger foi novamente o inspirador da 5ª Instrução sobre a Reforma Litúrgica  Liturgiam authenticam, da qual brotava uma nova versão do “dispositivo de bloqueio”, com a afirmação absoluta do “primado do latim” sobre as “línguas vernáculas”. 

O efeito desta teoria sem qualquer fundamento histórico – na qual se chegava a estabelecer a irrelevância da língua dos destinatários e a pretensão de “transliterar figuras retóricas latinas” – foi duplo:

  • a paralisação da relação entre periferia e centro na gestão das traduções litúrgicas
  • e o esquecimento de que a “vida eclesial” não pulsava mais nas veias do latim, mas nas das línguas nacionais,
  • que já não eram, desde  50 anos atrás, línguas de tradução, mas línguas de experiência e de criação. 

Uma retomada posterior, na Páscoa de 2012, por parte do Papa Bento, de uma carta aos Bispos alemães, sobre a questão do “pro multis” punha em evidência, mais uma vez, a força do “dispositivo de bloqueio”:

  • a tradução literal “fuer viele” (por muitos) foi imposta “afetivamente” e “autoritariamente”,
  • pois no plano conceitual teria de ser negada por uma catequese cuidadosa que explicava como “para muitos” significa “para todos”.

 Uma imagem de evidência singular da contradição interna do “dispositivo de bloqueio”, com o qual, neste caso, se  afirma a “falta de poder” da Igreja para falar outras línguas além do latim.

 

3.4. Paralelismo ritual, com efeito anárquico:  Summorum Pontificum  (2007)

A última etapa deste percurso eficaz do “dispositivo” encontra-se em 2007, com o  Motu Proprio “Summorum Pontificum”, por meio do qual, enquanto

  • se criava um paralelismo de formas rituais do mesmo “rito romano”,
  • éramos despojados  da autoridade de orientar a liturgia eclesial segundo as linhas da Reforma Litúrgica
  • e  eram repostos  em pleno vigor os ritos que a própria Reforma queria superar, denunciando os seus limites e distorções.

Também neste caso, o Magistério “se autolimita”

  • pois não teria a autoridade de guiar a tradição e as escolhas de cada um dos ministros ordenados,
  • mas desta forma restitui autoridade a formas de experiência pré-conciliar.

Aqui o “dispositivo de bloqueio” argumenta novamente de maneira a-histórica:  “o que antes era santo deve poder sê-lo sempre”. 

Portanto a Igreja não reconhece a si mesma nenhum poder de Reforma.

  • O que foi de per si perpetua-se
  • sem qualquer possibilidade de orientação ou conversão.

E um princípio argumentativo, de per si negativo e puramente a-histórico, causa efeitos históricos muito graves:

  • perda de controle dos bispos diocesanos,
  • centralização do controle num corpo “afetivamente condicionado” –  a Comissão Ecclesia Dei
  • difusão  da importância “política” – no sentido eclesial e mundano – da “forma extraordinária” como  “ forma reacionária”.

O dispositivo de bloqueio não parou as coisas: certamente bloqueou o desenvolvimento da Reforma e gerou um verdadeiro “monstrum”, com consequências dilacerantes já então eram facilmente previsíveis.

 

4. Francisco e a superação do “dispositivo de bloqueio”

Como é evidente, todos esses usos do “dispositivo”, ainda que na sua diversidade de contextos e efeitos, recorrem a um “lugar-comum” secular do magistério.

  •  Todos eles têm em comum uma dialética sutil entre “perda de poder” e “tomada de poder”:
  • quando o magistério diz que “não tem autoridade”,
  • deixa o “status quo” com autoridade que  tende a identificar com o “revelatum”.

Assim, leva a sobrepor o que é ao que deve ser. 

E  portanto

produz um  bloqueio do debate sobre a relação

  • entre iniciação e cura,
  • sobre o papel ministerial das mulheres,
  • sobre as formas de inculturação litúrgica
  • e sobre o caminho orgânico da reforma litúrgica

Não é difícil notar como

  • este “não reconhecimento de autoridade”
  • se identifique  com uma conservação do poder adquirido,
  • tornando-se muitas vezes princípio e alimento de uma perigosa inclinação à autorreferencialidade.

E, como vimos,

  • no “dispositivo de bloqueio” este resultado é obtido
  • por meio de uma síntese original entre “apego afetivo” e “razão teológica reduzida ao princípio de autoridade”.

__________________________

Em comparação com isso, o “retorno ao Concílio” pelo Papa Francisco parece marcado pela necessidade de “restaurar a autoridade” à ação eclesial. Só assim ela poderá sair da “tentação da autorreferencialidade”

__________________________

Mas, para fazer isso, precisa assumir uma abordagem diferente da tradição.

  • A Igreja não se reconhece como uma “história fechada”, como um “museu da verdade a guardar”,
  • mas como um “jardim a cultivar”.

Por isso, seria muito útil reler o pontificado de Francisco, oito anos após o seu início,

  • não como uma forma incerta e “soft” de ministério pastoral,
  • mas como um repensamento do modo como a Igreja não renuncia a exercitar a autoridade
  • e supera o“dispositivo de bloqueio” que J. Ratzinger tinha desenvolvido com tanto refinamento por 40 anos.
  • Francisco assume a exigência do exercício da autoridade que seus antecessores tinham como suspensa,
  • determinando sempre resultados caracterizados pela “paralisia”.
  •  Francisco desconectou o dispositivo, mudando tanto o papel do apego afetivo como o papel da razão teológica.

Aqui, parece-me, existe um elemento de profunda continuidade com o Concílio Vaticano II e de inevitável descontinuidade em relação ao “dispositivo de bloqueio”. Cuja  incidência, no entanto, ainda não acabou.

5. O dispositivo suspenso, mas não desarmado

Engana-se quem pensa num “destino irreformável” vinculado à própria estrutura da Igreja Católica. Identificar o “dispositivo de bloqueio”

  • significa distinguir, precisamente, uma forma de argumentar,
  • que se difundiu progressivamente desde os anos 1970, de elementos que continuam a agir de forma vital no corpo da Igreja.

Nestes 8 anos de pontificado de Francisco bastaria citar 3 documentos, que desmentem explicitamente o dispositivo de bloqueio:

– Exortação apostólica pós-sinodal  Amoris Laetitia (2016),

  • que supera o primado insuperável da “lei objetiva” em matéria matrimonial,
  • sobre a qual, até  à Familiaris Consortio se  repetia que “a Igreja não tinha poder”.

– Motu proprio Magnum principium (2017)

  • que supera o primado da língua latina sobre as línguas faladas
  • e devolve às línguas vivas, e às Conferências Episcopais que as falam, uma autoridade original.

– Motu proprio Spiritus Domini (2021)

  • que supera a reserva masculina sobre a ministerialidade eclesial
  • e, pela primeira vez de modo explícito, torna possível a atribuição formal de “ministérios eclesiais” às mulheres.

Em três áreas nas quais a tradição tinha tentado identificar-se em formas históricas respeitáveis, mas contingentes, a Igreja, com a autoridade do Sínodo e dos atos papais,

  • reconheceu a si mesma o poder de modificar e atualizar a disciplina
  • e, em certa medida, a própria doutrina. 

A tentação de estender a substância imutável a toda a doutrina e a toda a disciplinas sempre foi forte na história da Igreja moderna e contemporânea.

Os antigos e os medievais eram,  deste ponto de vista, muito mais livres.

Hoje o desafio consiste em

  • reencontrar a liberdade dos antigos e medievais
  • e superar a rigidez que as vicissitudes modernas e tardo-modernas impuseram à tradição.

A forte mudança do Concílio Vaticano II continua sendo um legado insuperado.

Apesar desta grande contribuição oferecida pelo magistério de Francisco, vemos nos últimos tempos que

  • o dispositivo de bloqueio continua a ser um “recurso barato”,
  • facilmente utilizável para bloquear qualquer caminho de reforma,

aplicável indiferentemente

  • aos ministérios ou à sexualidade,
  • aos projetos sinodais ou às formas de celebração.

O dispositivo hoje parece às vezes devidamente “suspenso com autoridade”, mas não “desativado eclesialmente”. 

Após 60 anos daquele Concílio, hoje temos a urgência de, com serenidade e previdência, superar qualquer tentação de ceder novamente ao “dispositivo de bloqueio”.

É verdade:

  • a Igreja não tem poder sobre o que a institui e a cujo serviço dedica todo o seu operar.
  •  Mas identificar com demasiado imediatismo aspectos contingentes da tradição com esta “substância intocável”
  • não é um sinal de fidelidade, mas de medo.

A Igreja, para preservar  aquilo sobre o qual não tem poder e só a pode justificar,

  • deve reconhecer abertamente o poder de mudar e de adaptar todo o resto
  • se quiser permanecer capaz de “sair de si” e de encontrar, no mundo, o revelar-se  do seu Senhor.

Uma igreja que, pelo contrário, estivesse  “bloqueada sobre tudo” e que mostrasse saber mudar apenas as “invocações a São José”, ofereceria de si um rosto amedrontado e egocêntrico.

Liturgia y familia - Arzobispado de Barcelona

Andrea Grillo

Teólogo, Professor de Teologia, casado, pai de dois filhos

Fonte:  http://www.cittadellaeditrice.com/munera/negare-ogni-potere-per-conservare-tutto-il-potere-affetti-ed-effetti-del-dispositivo-di-blocco/

 

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