Jesus e a Igreja. 3

Um dos milagres do Salvador que deve ser lembrado nessa época de Natal - Portal SUD

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Anselmo Borges – 01 Maio 2021  – Foto:  DAQUI
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Os baptizados formam um povo de profetas, reis e sacerdotes. A ruptura numa Igreja de irmãos deu-se com a ordenação sacerdotal, que originou duas classes: clero e leigos.

Todos os cristãos são sacerdotes: oferecem a sua vida a Deus e à sua causa, que é a causa dos seres humanos. Aqueles e aquelas que se reúnem convocados no baptismo pela pessoa de Jesus e o seu Reino formam a Igreja e são povo sacerdotal e sacramento de um mundo outro.
Mas é necessário que haja homens e mulheres
  • que dedicam a sua vida ao anúncio do Reino de Deus,
  • conselheiros espirituais que despertam para a transcendência,
  • animadores e coordenadores das comunidades…

Neste sentido, embora sem ordens sacras, continuará o ministério de padres, presbíteros, bispos, líderes das comunidades.

Homens e mulheres, casados ou não, escolhidos pelas comunidades ou com a sua participação. Alguns temporariamente, outros de modo permanente. E para quê?

 

1. Para que a questão de Deus não morra entre os homens enquanto questão. Se a simples palavra “Deus” deixasse de existir, o Homem deixaria de ser Homem, como escreveu Karl Rahner:

“A morte absoluta da palavra “Deus”, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu.”

Até filosoficamente, toda a pergunta pelo “sentido da acção humana”,  o perguntar pelo “sentido do processo do mundo na totalidade” exigem “um conceito de Deus”. 9

Com o eclipse de Deus, desaparece o sentido do mundo, que o Homem

“em vão tenta reencontrar mediante uma acumulação de racionalidade”.

Mas já Georges Gusdorf tinha prevenido:

  • “O caos, o absurdo, hoje, não propõem possibilidades abstractas;
  • campeiam por todo o lado, não por insuficiência de racionalidade, mas por superabundância e excesso de lógica, de técnica, de intelectualidade parcelar,
  • num universo em que a imensa acumulação de pormenores contraditórios oculta, ou mesmo destrói, a ordem humana.

Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência do sentido.”

O mundo parece encontrar-se perante um facto decisivo e mesmo único:

  • se, independentemente da sua resposta positiva ou negativa, o Homem já não vir pura e simplesmente necessidade de colocar a questão de Deus,
  • isso significa que, pela primeira vez na sua história, a Humanidade sucumbe à imediatidade, a uma visão fragmentária do aqui e agora e
  • “abdica da sua procura de sentido”.

Mas o Homem enquanto for Homem não deixará de perguntar, e toda a pergunta, em última instância, desemboca na pergunta pelo Ser Absoluto e Fundamento Último.

Como diz Ciorán,

“tudo se pode sufocar no Homem excepto a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e inclusivamente ao desaparecimento da religião”.

No mesmo sentido, afirma L. Rougier:

“A Igreja pode declinar, mas o sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam transcendência, subsistirá.”

 

2. Líderes, para que a causa de Jesus, que é o Reino de Deus enquanto causa do Homem, não morra entre os homens. Líderes, portanto, exercendo, com o Povo de Deus, o tríplice múnus de Cristo, profeta, rei e sacerdote.

Profetas, anunciando o Deus Pai/Mãe que quer a salvação de todos os homens e mulheres.

  • Não um deus do terror, mas o Deus da alegria e da vida; não um deus da exclusão, mas o Deus do perdão sem condições, que a todos acolhe, sobretudo aqueles e aquelas que são excluídos e marginalizados por motivos sociais, económicos, sexuais, religiosos;
  • não um deus infantil, infantilizante e imoral, mas o Deus que é força de autonomização e dignificação.

Profetas, que, parafraseando Kafka, falam sobre Deus, porque primeiro aprenderam a falar a Deus e com Deus.

Profetas que sabem ler os sinais do mundo e dos tempos,

  • que perguntam e escutam, e preparam anunciadores do Reino de Deus, implicados numa pastoral da interrogação,
  •  que tem a ver com dar razões da dúvida e razões da fé e da esperança.

A fé não pode encerrar-se nas muralhas de um dogmatismo fixo, coisista e morto, mas tem de abrir-se ao diálogo e à razão crítica.

Líderes com um múnus régio. Jesus respondeu a Pilatos: sim, sou rei; nasci para dar testemunho da verdade. E já tinha dito: “Vim para servir, não para ser servido.”

Líderes, portanto, para animar comunidades cristãs fraternas, de serviço à dignidade infinita do ser humano.

Desgraçadamente, a globalização está a ser sobretudo mundialização do mercado, no quadro ideológico do neoliberalismo, que cava cada vez mais fundo o fosso entre ricos e pobres. Os números não param de chegar, alarmantes e falando por si.

Para quem tenta seguir Jesus Cristo,

  • este estado de coisas é intolerável,
  • bem como toda a exploração do trabalho, o racismo, os vários tipos de discriminação, qualquer violação dos direitos humanos.
  • Trata-se, portanto, do combate lúcido e eficaz pela dignidade livre e pela liberdade com dignidade de todos os homens e mulheres, a começar pelos mais pobres, pelos humilhados e excluídos.

 

3. Não há religião verdadeira sem justiça e solidariedade.

Mas isto implica que a justiça e o respeito pelos direitos humanos têm de começar pelo interior da própria Igreja.

Na Igreja,

  • Jesus até queria mais do que uma democracia,
  • pois o que ele propunha era uma filadélfia, isto é, comunidades de irmãos e amigos (lê-se no Evangelho de S. João:

“Já não vos chamo servos, mas amigos”).

 

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Anselmo Borges – 01 Maio 2021

Padre e professor de Filosofia.Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/jesus-e-a-igreja-3-13630812.html

 

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