por 28/04/2021 

Biden sobe o tom contra projeto que levará gás russo à Alemanha. Às vésperas da sucessão de Merkel, alemães dividem-se. Embate revela velha estratégia de Washington: sabotar alianças Berlim-Moscou e dominar mercado energético da Europa.

J. L. Fiori. A geopolítica anglo-americana. In: História, Estratégia e Desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 141.

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Halford Mackinder (1861-1947), o pai da geopolítica anglo-americana, formulou no início do século XX uma teoria sobre a distribuição espacial do poder mundial e traçou uma estratégia correspondente de conquista e controle anglo-saxão do poder global.

Sua teoria e estratégia foram na verdade

  • uma sistematização e racionalização daquilo que a Inglaterra já vinha fazendo desde o fim das Guerras Napoleônicas,
  • quando o Foreign Office inglês definiu, pela primeira vez, a Rússia imperial dos Romanov como principal concorrente do poder britânico na Europa, na Ásia Central e, inclusive, na América.

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A mesma estratégia que depois se manteve no século XX, com relação à Rússia comunista de Lenin a Gorbachev, e segue vigente hoje, com relação à Rússia nacionalista e conservadora de Vladimir   Putin.

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No século XIX, esta preocupação britânica foi a verdadeira origem da chamada Doutrina Monroe,

  • que foi de fato formulada e sugerida aos americanos pelo ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, George Canning,
  • e que depois de ser rejeitada pelo presidente James Monroe,
  • foi apropriada e anunciada por ele como sendo de sua própria lavra, no seu discurso ao Congresso americano, de dezembro de 18231.

No final do século XIX, e em particular durante o século XX, essa estratégia de isolamento da Rússia adquiriu uma nova dimensão, e um objetivo mais específico, a partir da “primeira unificação” da Alemanha, em 1871, como fica quase explícito na visão de Mackinder, que aparece na epígrafe deste texto:

  • não permitir jamais que a Rússia e a Alemanha estabelecessem entre si algum tipo de aliança estratégica ou de interdependência econômica que lhes permitisse hegemonizar a Europa,
  • e, como consequência, controlar o poder mundial.

A mesma ideia foi retomada pelo diplomata americano George Kennan, em seu famoso telegrama de 22 de fevereiro de 1946, no qual defendia

  • a necessidade de “contenção permanente” da URSS, ideia que foi referendada por Winston Churchill em seu famoso discurso no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, em 5 de março de 1946,
  • quando propôs a criação de uma espécie de “cortina de ferro” separando a Europa Ocidental da URSS e seus países aliados da Europa Central.

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Essa mesma doutrina estratégica está sendo retomada agora – de forma ainda mais radical – pela nova administração democrata de Joe Biden e seu chefe do Departamento de Estado, Antony Blinken, com relação à Rússia de Vladimir Putin.

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  • Houve aumento das sanções, das ameaças e da pressão militar em cima exatamente do eixo que conecta o Mar Báltico com o Mar Negro,
  • e que envolve interesses estratégicos diretos da Alemanha e da Rússia em torno da Ucrânia e da Crimeia, na região do Mar Negro,
  • e em torno da Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia, na região do Mar Báltico.

O gasoduto Nord Stream 2 – A disputa geopolítica na Europa | by Eduardo Caetano de Sousa | LinkedIn

                                                                 Nord Stream 2 -Imagem: Daqui

É essa mesma estratégia de bloqueio e distanciamento entre Rússia e Alemanha

  • que explica o veto cada vez mais agressivo dos norte-americanos ao projeto de construção do gasoduto “Nord Stream 2”,
  • que começa na cidade de Vyborg, noroeste da Rússia, e chega até a cidade de Greifswald, no nordeste da Alemanha, passando pelo fundo do Mar Báltico,
  • com 1.230 km de extensão e um custo previsto de U$ 10,5 bilhões.

Este gasoduto já está instalado em 95% da sua extensão, e ao ser concluído dobrará a capacidade do Nord Stream 1.

  • Este foi concluído em 2011, com uma capacidade para 55 milhões de metros cúbicos de gás por ano,
  • e com a instalação do novo pipeline, passará para 110 milhões de metros cúbicos por ano.

O projeto desse gasoduto do Mar Báltico

  • inclui sua alimentação terrestre na Rússia, sua parte submersa e inúmeras ligações através da Europa Ocidental,
  • e foi financiado por um consórcio liderado pela empresa russa Gazprom, associada com as alemãs Uniper e Wintershall, a austríaca OMV, a francesa Engie e a anglo-holandesa Shell.

 

Nos seus quatro primeiros meses, o governo Biden

  • já praticou mais duas rodadas de novas sanções contra todas as empresas e governos envolvidos no projeto,
  • e ameaçaram transformar seu veto numa “linha vermelha” intransponível,
  • com ameaças ainda mais graves e destrutivas do que as que já foram feitas, sobretudo com relação ao governo da Alemanha.

Nessa sua geopolítica, os EUA

  • contam com o apoio da Polônia, da Ucrânia e dos países bálticos e nórdicos,
  • além de uma parte significativa dos governos e forças políticas da própria União Europeia.

Apesar disso,

  • a Rússia tem insistido na natureza exclusivamente comercial de seu projeto conjunto com os alemães,
  • até porque a Alemanha já recebe o gás russo através do próprio Nord Stream 1, além de outros dois pipelines que atravessam a Ucrânia e a Turquia,
  • sem que esses projetos tenham sido vetados no momento de sua construção.

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No entanto, deve-se lembrar que essas “autorizações” aconteceram antes da intervenção militar russa na Síria, que consagrou um novo patamar na correlação de forças militares entre a Rússia e os Estados Unidos, e, em particular, com relação às forças da OTAN.

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Pelo lado da Alemanha, entretanto, o panorama aparece mais complexo e indefinido, e neste momento os olhos estão postos nas eleições gerais do próximo mês de setembro, quando será eleito(a) o(a) substituto(a) de Angela Merkel, chanceler desde 2005.

E a posição alemã frente ao seu projeto do Nord Stream 2 tem estado no epicentro das discussões eleitorais:

  • o Partido Social-Democrata apoia majoritariamente o projeto, mas hoje é apenas a terceira ou quarta força política da Alemanha,
  • mas o próprio Partido Democrata-Cristão de Angela Merkel está dividido com relação ao tema;
  • e os Verdes, finalmente, que são a segunda força política do país, opõem-se terminantemente ao projeto do gás russo.

A chanceler, Angela Merkel,

  • não vê diferença entre o projeto do Nord Stream 2 com relação aos demais gasodutos que já fornecem gás russo aos alemães e europeus,
  • e considera que a oposição americana atual envolve questões políticas e geopolíticas que transcendem os campos econômico e energético propriamente ditos.

O mesmo pensa Gerard Schroeder, antigo chanceler social-democrata e atual dirigente do consórcio Nord Stream AG, que lidera o projeto do gasoduto, que considera que

  • o Nord Stream 2 é uma alternativa energética eficaz e “limpa” ao uso do carvão e da energia nuclear,
  • e que resolverá o problema da escassez energética da Alemanha por várias gerações.
  • Além disso, Schroeder considera que o gás russo fracking gas é menos caro, de melhor qualidade e menos agressivo ecologicamente do que o fracking gas americano.

Nessa mesma linha, mas utilizando uma linguagem ainda mais agressiva,

  • o ministro das Finanças da Alemanha, Olaf Scholz, denunciou as sanções americanas como uma “severa intervenção nos assuntos internos da Alemanha e da Europa”2,
  • e o ministro de Relações Exteriores alemão, Helko Maas, chegou a tweetar que a “política de energia europeia tem que ser decidida pelos europeus, não pelos Estados Unidos”3.

Assim mesmo,

  • o projeto está “no ar” e é provável que se manterá assim até as eleições gerais do mês de setembro,
  • apesar de que os russos estejam avançando por sua própria conta para concluir os cerca de 150 km que ainda faltam para completar a construção desse gasoduto russo-alemão.

Mas não há dúvida de que a solução do impasse

  • parece cada vez mais embaralhada pelo aumento das tensões geopolíticas e militares entre Estados Unidos e Rússia,
  • e portanto seu desfecho é imprevisível, ou pelo menos deverá ser adiado ainda por algum tempo.

Enquanto isto, entretanto,

  • os produtores de gás liquefeito americano conseguem ir conquistando e se estabelecendo dentro do mercado europeu,
  • expondo uma vez mais a relação direta que existe entre a geopolítica e sua luta pelo poder,
  • e a conquista e monopolização dos mercados mundiais de petróleo e de gás pelas grandes empresas produtoras e exportadoras de petróleo e gás.

É como reconhece e denuncia a Associação de Negócios do Leste da Alemanha (OAOEV), quando declara que

“na prática, a América quer vender seu gás liquefeito na Europa e suas sanções americanas visam expulsar seus competidores do mercado europeu”.4

Uma lei de ferro que transcende esta conjuntura imediata, e que se repete todos os dias no mundo do petróleo e do gás, e em toda a “economia de mercado capitalista5.

 


1 Fiori, J.L.; “ O poder global dos Estados Unidos: formação, expansão e limites”, in Fiori J.L. (org), O Poder americano, Vozes, Petrópolis, 2004, p, p:73

2 “Germany, EU, decry US Nord Stream sanctions”, Deutsche Welle, 21 December 2019.

3 “Ukrania and Russia look to strike new gas deal amid US sanctions threats”. CNBC, 16 December 2019.

4 “Nord Stream 2 gas pipelines faces sanctions under Us defense bill”. Deutsche Welle 12 December 2019.

5 “Os ‘grandes predadores’ que estão na origem do capitalismo junto com os grandes e sistemáticos ‘lucros extraordinários’ foram a verdadeira mola propulsora do capitalismo, por cima da economia de mercado na qual se produzem e acumulam apenas os ‘lucros normais’, incapazes por si só de explicar o sucesso originário europeu, na acumulação e concentração da riqueza mundial”. (Fiori, J. L. Formação, expansão e limites do poder global. In: ______. [Org.]. O poder americano. Petrópolis-RJ: Vozes, 2004, p. 31).

   José Luis Fiori: ''a peste, o mercado, a guerra, e a triste sina brasileira'' - Carta Maior