Carta de uma venezuelana: “É a nossa vez de comunicar serenidade a quem nos vê curtir o crepúsculo de nossas vidas”

De la mano de PUBLICARTE fue bautizado “Pioneras” de Alicia Álamo Bartolomé | MSC Noticias

Alicia Alamo Bartolomé05/05/20 –  Foto: Daqui

Atriz da obra “Você tem que desfazer a casa” e escritora, aos 94 anos descreve sua quarentena em Caracas:

«Não te deixes prender pelas circunstâncias. Quando aprendemos a viver na contemplação do que nos rodeia, não há tédio nem desespero »

 

Sou uma velha de Caracas de 94 anos e 5 meses, para ser exato.

Fisicamente estou uma bagunça, mas mantenho a validade intelectual, por enquanto. Estou em quarentena desde antes de ser decretado no meu país, em março passado. Estou sem veículo particular há quase um ano, desde que o pobre coitado não passou no último conserto.

A Venezuela, graças ao socialismo do século XXI, no poder há mais de 20 anos, carece,

  • não só dos fundamentos para a existência,
  • mas dos menos básicos mas necessários, como peças de reposição para veículos.
  • Também não é possível comprá-los, dados os preços astronômicos.
  • Você nem mesmo consegue encontrar gasolina hoje, meu Deus, no país do petróleo!

Neste panorama, minha quarentena passa de forma pacífica e feliz.

  • Embora dos sete irmãos que éramos, eu só tenho um jovem de 90 anos que mora nos Estados Unidos e sou solteiro e sem filhos, não estou sozinho.
  • Além de ter queridos sobrinhos que não moram comigo mas cuidam dos meus negócios, tenho cuidador doméstico e uma casa própria com varanda de onde contemplo, de manhã e à tarde, se o tempo permitir, o totem do meu cidade: a majestosa e mutável montanha de Ávila.

Meus dias passam

  • entre a contemplação da natureza, das maravilhas de Deus, portanto, na oração;
  • televisão e trabalho de digitação no meu computador.

Sim, estou lúcida. Felizmente, nessas condições, posso escrever cinco artigos mensais para três publicações, digitalmente, é claro.

Não há papel e a imprensa impressa que não foi afetada pelo regime desapareceu.

Duas das minhas atividades incompatíveis com a quarentena foram suspensas:

  • a minha cadeira semanal para adultos, “Momentos estelares de teatro universal”, na Universidade Monteávila, da qual sou membro fundador,
  • e um curso de divulgação cultural às quartas-feiras em minha casa, com professores e disciplinas diversas, da qual sou coordenadora e anfitriã.

É verdade que Deus me deu muito, não sei por quê, enquanto outros não.

  • Alguém me disse um dia que eu era feliz porque tinha pouca ambição,
  • nunca pedi da vida o que não poderia alcançar. Talvez.

Em todo caso, tenho algo a dizer para quem está sozinho, sente o peso disso, do confinamento, da tristeza e do desânimo.

Se você é religioso, olhe e escute dentro de você, no fundo do seu espírito Deus espera por você e fala em silêncio.

O que digo aos não crentes não é muito, vai te fazer bem: olhe para fora, deve haver alguma clarabóia na sua prisão.

  • Em primeiro lugar, a luz do dia, a mudança do céu entre o azul e as nuvens, o amanhecer, o meio-dia e o pôr-do-sol, cores! O galho de uma árvore. Noite, talvez estrelas. Sons: barulho da cidade, diminuindo de acordo com as horas e mais por causa do confinamento em nossas casas; pássaros, vozes de crianças.
  • Se você não tem como ver lá fora, feche os olhos, imagine, deixe voar a sua fantasia e …, sonhe! Ele vive no oximoro, segundo os dizeres de São João da Cruz, a música tranquila …, a solidão sonora.

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Não seja acorrentado pelas circunstâncias. Quando aprendemos a viver na contemplação do que nos rodeia, não há tédio ou desespero. A natureza e as obras do homem nos abrem um leque de possibilidades, de caminhos para a beleza, a harmonia e a paz. 

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Infelizmente, meus contemporâneos tendem a incomodar aqueles que cuidam deles, a tornar-se um fardo para aqueles jovens que, por laços familiares ou outros, são responsáveis. Não aumente seus problemas – lembre-se de que eles têm vida própria – com reclamações, caprichos e hobbies. 

  • Se antes você obedecia aos mais velhos,
  • agora, como velho, você tem que obedecer aos mais novos.

Evite incomodar mais, por não incomodar, com ossos quebrados por não pedir ou consentir em ajudar. Esqueça, você não pode mais se defender sozinho e pare de choramingar, você vai assustar quem se aproximar de você.

Nesta hora de suspense global, quando não sabemos se estamos à beira de um apocalipse ou de um renascimento, cabe aos idosos comunicar serenidade a quem nos vê curtir o crepúsculo de nossas vidas, quando o alcance brilhante das cores do fogo, momento intenso e fugaz, a vida nos deixa, mas deixamos uma marca de paz e amor.   

 

ALICIA ÁLAMO BARTOLOMÉ: Diálogo. – Para rescatar el porvenir

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 Alicia Álamo Bartolomé

Fonte – https://www.abc.es/opinion/abci-alicia-alamo-carta-venezolana-toca-ancianos-comunicar-serenidad-quienes-gozar-crepusculo-nuestra-vida-202005051532_noticia.html

 

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