Ciência e Razão em tempos sombrios

Por Léo Peruzzo Júnior, no Le Monde Diplomatique Brasil – 19/04/2021 – Imagem:  Daqui

Método científico calcado na objetividade e na ordem tornou produção de saberes terreno estéril, apartado dos dilemas e projetos da sociedade. Gerou monstros como o negacionismo. Saída exigirá efervescência e pluralidade de saberes

 

A ciência moderna apropriou-se de um estilo de investigação calcado na ideia de que seria possível construir uma aliança entre o homem e a natureza, vínculo este que poderia apaziguar nossa gélida solidão no universo.

Assim, a partir de um ponto de vista estritamente materialista,

  • encontraríamos o tão esperado conhecimento objetivo
  •  e, consequentemente, a razão inspiradora da ordem matemática que a tudo se impõe.

Este amadorismo intuicionista, porém, foi responsável por consolidar uma imagem de ciência isenta de quaisquer propósitos valorativos.

A este respeito, Jacques Monod (1910-1976), por exemplo, prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1965 por descobertas sobre o controle genético da síntese de enzimas e vírus, afirmou que

  • o principal desafio aos cientistas é justamente o edifício filosófico materialista moderno
  • segundo o qual o mundo não tem um propósito,
  • uma vez que ele é simplesmente um “universo gélido de solidão”.

Lutar contra este feitiço, portanto, requer

  • analisar como as visões de mundo são construídas a partir da ciência
  • ou, como problematizou Francis Bacon,
  • por quais motivos o domínio do conhecimento científico torna-se, frequentemente, uma forma de poder.

A exortação de Jacques Monod, na obra O Acaso e a Necessidade, é ainda mais profunda e perigosa:

  • esta visão de mundo científica-objetiva tornar-se-ia um guia mais adequado para avaliar a verdade
  • na medida em que a Biologia, mais do que todas as outras disciplinas,
  • seria responsável por clarear “em termos não metafísicos o problema da ‘natureza humana’”.

O fato é que

  • esta imagem de ciência como uma atividade neutra, imparcial e não ideológica
  • cedeu espaço para um ambiente insuflado de modelos cujo instrumentalismo não deixou de ser um ato religioso.

Assim, a ciência abandonaria o argumento de que

  • sua prodigiosa capacidade está na maneira como produz resultados
  • para aderir aos fins econômicos e políticos que sustentam sua estrutura de trabalho.

Este atrito permite explicar, mesmo que parcialmente, que

  • a subordinação da atividade científica a outros parâmetros e valores
  • pode representar um risco à visão de futuro daqueles que esperam da ciência o alçar do propósito moderno.

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A crise no interior da ciência, portanto, revela que há uma conexão íntima entre os resultados científicos e a vida das pessoas ligadas à produção de tais resultados.

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O pêndulo deste movimento

  • não denota apenas como uma sociedade elege e estrutura seus valores [morais, científicos e políticos],
  • mas como um simples descompasso é capaz de dizimar milhares de vidas.

O ritmo deste pêndulo, isto é, entre a atividade científica e a produção de resultados que deem conta da malha plural que é a realidade,

  • essencialmente depende daquilo que Paul Feyerebend (1924-1994), um dos filósofos da ciência mais importantes do século XX,
  • denominou de “crítica democrática à ciência”.

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  • Se a ciência não se preocupar com a vida das pessoas que não estão diretamente ligadas à produção de tais resultados corre-se o risco de eliminar o pluralismo que é a base da sociedade. 

  • Por isso, uma ciência que não está sujeita ao controle democrático pode ser produtora dos maiores monstros.

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Entretanto, a posição anarquista de Feyerebend

  • está longe de agasalhar os “monstros” que ostentam o pluralismo como forma medíocre
  • para atacar as evidências científicas que estão submetidas constantemente à autoavaliação, testabilidade e crítica do próprio método.

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As redes sociais, por exemplo, são a expressão legítima deste tipo de mediocridade intelectual que aspira apoio através do consenso, e não dos argumentos. É o locus por excelência da espetacularização das falácias, da banalização do horror e da manifestação egoística do desejo instantâneo.

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A crise democrática no interior da ciência, porém, é uma vantagem metodológica: por um lado, porque permite que a aliança entre o homem e a natureza seja constantemente avaliada; por outro, porque possibilita que a própria ciência não seja um terreno seco e estéril distante de nossas aspirações, projetos e necessidades, particularmente aquela que preserva e acolhe os mais vulneráveis e marginalizados.

A crise da ciência, por fim, deveria nos mostrar que o edifício filosófico que os cientistas adotam, em maior ou menor grau, não é uma tolice epistemológica de segunda ordem. Ao contrário, ele é tão crucial quanto aos possíveis resultados que poderão ser encontrados no mundo.

A este respeito, vale recordar que nem toda ciência trabalha a partir de um ato de “descoberta”, haja vista, por exemplo, aquilo que a mecânica quântica tem indicado ao postular que as características do mundo “aparecem” quando os observadores agem de forma apropriada.

Nesse ponto, precisamos recordar, ainda, a indagação feita por Feyerebend:

“será que existe apenas uma única visão ‘científica’ de mundo?”.

O filósofo procura atacar o ranço cientificista que torna a vida, este movimento de caráter simbólico e plural, uma expressão às coordenadas “gélidas” e “frias” indicadas por Monod.

Obviamente,

  • pluralismo que Feyerebend indica não é aquele que permite atacar as outras partes e dissolver o próprio papel da ciência,
  • mas o ambiente em que os passos mais inovadores, como escreve, só foram possíveis porque a comunidade científica ousou desobedecer ao conjunto de regras metodológicas que os prendiam.

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A insurreição é uma característica típica do fazer científico. Isso explicaria, segundo ele, porque a Ciência deve ser separada do exercício político do Estado, como ocorreu com a religião na moderna sociedade secular.

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Este hiato entre o método da Ciência – esta tradicionalmente aceita como um corpus de conhecimentos sistematizados – e a Sociedade – uma massa heterogênea de indivíduos com interesses distintos e organizados politicamente – acompanhou a própria emergência de uma crise da razão. Até onde, afinal, ela nos permite chegar? Estaríamos enclausurados, então, dentro de tais limites e coordenadas?

Não ignorando este particular problema, Bento Prado Júnior (1937-2012) afirmou, em uma de suas obras, que combate à desrazão seja talvez o sintoma mais evidente de uma eterna crise da razão.

Segundo ele, a crise da razão

  • aparece na polêmica entre modernos e pós-modernos,
  • no embate entre universalistas e relativistas
  • e nas formulações entre racionalistas e irracionalistas.

A crise da razão

  • é exposta na tensão da linguagem,
  • na diversidade das formas de vida,
  • na justificação e escolha de determinados paradigmas
  • e, por que não, naquilo que prejulga da constituição ontológica do mundo.

Esta crise também se mostra, por exemplo, na necessidade política de precisarmos combater, neste momento, as trivialidades e obviedades que estão aí na nossa frente:

  • a indiferença diante da morte,
  • negacionismo do trabalho científico
  • e a disseminação de conteúdos violentos e falsos.

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Alguém teria dúvidas, portanto, de que não vivemos uma crise profunda no emaranhado de questões que compõem o clássico conceito de razão?

Ou, ainda, que o confronto de imagens e visões de mundo seria intrínseca, por um lado, à incapacidade de a ciência descrever cirurgicamente a natureza e, por outro, à impotência que o próprio pensamento está submetido?

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Cedendo espaço para este movimento pode-se, então, reconhecer que

  • os tempos sombrios que politicamente vivemos apenas agravam nossa condição de humanos.
  • Não vencemos o confronto com a natureza, não driblamos os labirintos da racionalidade
  • e não escapamos das relações políticas de poder que constituem o horizonte fático da existência.

Contudo,

  • enquanto a Ciência procura fundamentar sua própria atividade e a racionalidade intenta contra a ignorância,
  • as relações de poder e os limites da soberania, díspares e heterogêneas, continuam instrumentalizando o mundo da vida
  • e, como escreveu o filósofo camaronês Achille Mbembe ao cunhar o termo “necropolítica”,
  • escolhem quem deve viver e quem deve morrer.

Isso não significa, por sua vez, conformar-se com a precariedade diante de tal condição, mas de aventurar-se contra esta cegueira que apenas a cultura pode romper.

  • Nossos tempos não são sombrios apenas pela depravação moral e intelectual daqueles que politicamente nos governam.
  • Há um conjunto de outros problemas e variáveis que abrem espaço e permitem que tais políticas de segregação possam se aglutinar mais facilmente.

A política da morte [“E daí?”] consegue se manter apenas se alguns corpos frágeis forem dispensáveis ou mutilados.

Por isso,

  • asfixiar o acesso à Educação ou eliminar as Humanidades, por exemplo,
  • é adubar o solo para que determinadas ideologias – autoritárias e fascistas – possam justificar seus instrumentos
  • a fim de combater o aumento das taxas de criminalidade
  • ou, como afirmaria Michel Foucaultnormalizar os corpos e torná-los dóceis.

Ora, se não há um mapa científico para ler o futuro, sua ausência também não poderia continuar servindo para legitimar racionalidades que representam um risco ao pluralismo e à vida cotidiana. Por isso, o anarquismo diante do método torna-se similar à resistência face a uma política nefasta e genocida.

Não vivemos tempos menos sombrios do que a Idade Média porque, assim como lá, há sonhadores e sonhadoras que continuam  aspirando uma aventura intelectual livre. Contra todo este movimento obscurantista vale recordar, por último, a afirmação de Feyerebend, em Contra o Método:

“Algumas ciências (teoria econômica, por exemplo) encontram-se em um estado lastimável. Outras são versáteis o suficiente para transformar um desastre em triunfo”. 

Não precisamos apenas de vacinas; precisamos de política, cultura e um espaço suficiente democrático para o livre pensar.       

 

Professor Léo Peruzzo Júnior realiza conferências em Portugal e Espanha

 

Léo Peruzzo Júnior,

professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia – PUCPR. Pós-Doutor em Filosofia pela Università Ca´ Foscari, Veneza.

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/ciencia-e-razao-em-tempos-sombrios/

 

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