FILOSOFIA, MENTIRA VIRAL E DECADÊNCIA DA VERDADE

FILOSOFIA e POLÍTICA

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José Alcimar de Oliveira * – 19/04/2021 – Imagem: Reprodução

 Afinal, que vem a ser uma bela mentira? A que se torna evidente por si mesma (Oscar Wilde).

Quando a justiça é removida (da vida social) o que são os Estados senão um bando de ladrões?

 

1. Data de 1891 um célebre ensaio de Oscar Wilde intitulado A decadência da mentira. Segundo Wilde, a mentira deve ser celebrada na Arte, com maiúscula. Submetida aos artifícios políticos, a mentira se torna decadente. Somente a Arte eleva a mentira. A política a degrada.

A única forma de Arte da política reside na verdade. Na verdade ontológica, distinta da verdade lógica. Não se trata aqui de objetivar a oposição entre uma proposição verdadeira e outra falsa, mas da dialética entre o real verdadeiro e o real aparente, manipulado pela política da mentira.  

Por isso, fora do regime da verdade é impossível haver política reconciliada com a Arte.

  • Assim como para Bachelard a ciência é a estética da inteligência,
  • a verdade deveria ser a estética da política.

Na política a mentira será sempre lugar do ilusório, da falsificação, sem o menor estatuto estético. Somente na Arte a mentira e o engano podem se revestir do que é nobre e verdadeiro.

 

2. Karl Jaspers (1883-1969), num pequeno livro tecido de arraigada sabedoria, organizado a partir de 13 conferências filosóficas apresentadas na Rádio da Baviera no início dos anos 1960 e há 50 anos publicado no Brasil sob o título Introdução ao pensamento filosófico,

  • indica o quanto é socialmente danosa a ausência da filosofia na vida política
  • e o quanto a degeneração política hostiliza o pensamento filosófico:

“(…) a filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa condição”.

O ódio à filosofia, sem a qual a razão adoece e é impedida de reconhecer seu estado patológico, é indicativo de regressão civilizatória. Filosofia e democracia, segundo Habermas, partilham de um destino comum.

Num devir mútuo, uma sinaliza a existência da outra. Somente na democracia é possível um regime de unidade filosófica entre verdade e poder do povo. O Mouro de Trier (Karl Marx – NdR) concebe esta unidade ao afirmar que a filosofia encontra no proletariado suas armas materiais e o proletariado encontra na filosofia suas armas intelectuais.

 

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3. O livro dos Provérbios nos adverte sobre a perigosa e arrogante atitude do insensato e do tolo diante da sabedoria:

“Até quando, insensatos, amareis a tolice, e os tolos odiarão a ciência” (Pr 1,23).

  • A miséria filosófica presidida pelo ódio organizado como política e a ignorância cultivada como forma de vida
  • fecundam o lodaçal cognitivo e propício à legitimação e manutenção da política no submundo da fisiologia e da mediocridade.

A baixa política circula livre e domina o jogo no alto parlamento. Para Karl Jaspers,

  • “Muitos políticos veem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia.
  • Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão somente usam de uma inteligência de rebanho.
  • É preciso impedir que os homens se tornem sensatos.
  • Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante”.

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Como filha da cidade – forma superior (segundo Aristóteles) de organização da vida social –, a filosofia já nasce como filosofia política.

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4. Max Horkheimer (1895-1973), em seu Eclipse da razão (1947), diante do acelerado processo de degeneração da razão em razão instrumental na cultura do Ocidente, chega a dizer que

  • a filosofia ao não mais se definir como “a memória e a consciência da espécie humana”
  • pode levar a marcha da humanidade a assemelhar-se “(…) à circulação sem sentido da hora de recreio de um manicômio”.

A razão instrumental é a razão capital que preside e é presidida pelo padrão irracional (porque insustentável) de produção e consumo do sistema do capital. Seu avassalador e universal modo de operar subtrai à razão sua potência revolucionária.

Filha dileta da razão positivista,

  • a razão instrumental hoje administra e controla braços e mentes da classe trabalhadora por meio do poder ideológico e das mãos ditas invisíveis do mercado.
  • Quanto mais impessoal e anônimo, mais forte e eficiente é o poder do mercado.

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O mercado é a forma mais canalha de justificar e subtrair responsabilidade aos seus operadores: o mercado exige, foi o mercado, o mercado está nervoso, o mercado não admite… A consciência filosófica é condição da crítica ao exercício autoritário do poder controlado pela soberania da “vontade” e das “mãos invisíveis” do mercado.

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5. Em razão de sua ontologia ser definida pela estética, a verdade da Arte pode prescindir da conexão epistêmica entre o conceito e o real.

Na verdade,

  • quanto mais mecanicamente colada ao real,
  • mais pobre será a Arte.

Para efetivar sua potência transcriadora, a Arte necessita se descolar do real.  Sem distanciamento não há transfiguração. Trata-se de um devir estético, não de artifício ou ardil.

Na política,

  • quanto mais o conceito se aparta do real, e por artifício ou ardil fabrica um mundo paralelo,
  • maior é o distanciamento da verdade.
  • A verdade da política está no vínculo social entre o exercício do poder e as condições reais e objetivas do povo.

No Brasil,

  • a autocracia burguesa vive noutro mundo
  • e não guarda o menor vínculo com o país real.

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No real paralelo da burguesia não há lugar nem conexão com o real de carne-e-osso da classe trabalhadora. A alta burguesia da Paulista está mais próxima da especulação da Bolsa de Nova Iorque do que da miséria de Heliópolis, a maior favela paulistana.

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6. Segundo Agnes Heller, 

“a vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem nenhuma exceção, qualquer que seja seu posto na divisão social do trabalho intelectual e físico”.

  • Quando a política perde a capacidade de manter em equidade a relação entre poder e bom senso, que Descartes tinha pela coisa mais bem partilhada no mundo,
  • a justiça e o direito se apartam da vida cotidiana e cedem lugar ao arbítrio da autocracia.

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A democracia é o regime do acesso à verdade. Submetida à carência de reflexão e ao mutismo pelo arbítrio do poder, a vida cotidiana é corrompida pelo poder da mentira.  

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  • O exercício da razão implica o direito ao uso público da palavra.
  • Sem o domínio político da palavra a classe trabalhadora seguirá dominada pela miséria da política controlada pela autocracia burguesa.

Somente o domínio político da palavra, para pensar com o Mouro de Trier, pode transformar a teoria em força material nos braços e mentes da classe que produz riqueza.

 

7. Como falar em Estado Democrático de Direito

  • quando o executivo do Estado moderno, como atesta o Manifesto de 1848,
  • funciona como um comitê destinado a cuidar dos interesses orgânicos da autocracia burguesa?

A República brasileira já nasceu golpeada e no contracurso do que aponta o conceito de coisa pública: a res publica é proclamada como res privata.

O que é uma república apartada da verdade, da justiça, do bem comum, do interesse público?

A resposta mais direta a esta pergunta nos vem de Santo Agostinho, na Cidade de Deus: remota itaque justitia, quid sunt Regna, nisi magna latrocinia? Quando a justiça é removida (da vida social) o que são os Estados senão um bando de ladrões?

A República não é nem pode ter partido.  Seu partido é o interesse público. Sem República o Brasil seguirá em marcha social regressiva, avassalado pela pandemia viral da Covid-19 e pela pandemia cognitiva da mentira.

 

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* José Alcimar de Oliveira

é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 12 dias de abril do ano (ainda coronavirano) de 2021.

Fonte: Enviado pelo autor, via e-mail

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