No epicentro mundial da pandemia. Artigo de Valério Arcary

Abriram a Caixa de Pandora no Brasil - YouTube

Por VALERIO ARCARY* –  17 Abril 2021 –Foto: Daqui

 A história ensina que há limites para os sacrifícios sociais impostos às massas populares em qualquer nação., escreve Valério Arcary, professor aposentado do IFSP, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 15-04-2021.  Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).

 

Ensina uma sabedoria antiga que Zeus enviou Pandora para castigar Prometeu, que tinha roubado o fogo para oferecer a vida aos seres humanos. Tendo por isso contrariado os desígnios dos Deuses e desafiado as teias do destino, fora condenado, a sofrer todas as maldições mais atrozes, até que Zeus, tomado de piedade, decidiu fechar a caixa de Pandora, quando no seu interior só restava a última, porém a mais terrível das maldições.
A Humanidade foi assim poupada do pior dos males, o mais invisível e o mais pertubador, a perda da esperança. Há coisas que não se podem perder”

 

Eis o artigo.

O Brasil se transformou em março de 2021 no epicentro mundial da pandemia, quando consideramos indicadores como

  • a variação média de contágios e óbitos diários por milhão,
  • as taxas de ocupação de leitos e UTI’s,
  • ou a ocorrência de novas cepas do vírus.

Caminhamos para 400.000 mil mortos até o final de abril: um cataclismo sem precedentes na história social do país. A catástrofe sanitária e a tragédia social de empobrecimento vertiginoso desde janeiro constitui um trauma histórico?

 

Um trauma histórico é uma fratura no tempo político que estabelece um antes e um depois.

  • Na Rússia de 1917, na Alemanha e Hungria de 1918 o trauma foi a derrota dos Impérios na I Guerra Mundial.
  • Na EspanhaFrança e na Europa Central foi o impacto da depressão depois da crise de 1929.
  • Na França e na Itália em 1944/45 foram as sequelas da ocupação nazista.

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Não haveria um maio de 1968 sem a derrota na guerra da Argélia, nem a revolução dos cravos em Portugal em 1974 sem a derrota militar nas colônias africanas.

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A história ensina que há limites para os sacrifícios sociais impostos às massas populares em qualquer nação.

  • Assim como as pessoas têm limites na experiência da dor,
  • há momentos na história das sociedades contemporâneas em que os músculos e nervos da classe trabalhadora e da juventude
  • atingem um ponto máximo de frustração, esgotamento, exasperação com a ordem política.

Os terríveis sofrimentos materiais e psíquicos são suportados, silenciosamente, por um período que pode ser maior ou menor, em um terrível processo de embrutecimento.

Esses limites são variáveis em diferentes sociedades. Mas, embora a dinâmica da evolução da consciência das massas populares no Brasil tenha sido, dramaticamente, lenta, há limites.

  • Quando são atingidos pela colisão de uma tragédia que opera na mente de milhões como trovões e relâmpagos,
  • despertam uma onda, no início molecular, quase invisível, e depois torrencial de fúria e ira.

Devemos nos perguntar

  • até quando é possível a sociedade brasileira suportar uma hecatombe desta proporção
  • sem uma comoção política avassaladora.

Assim foi em 1983/84:

  • sem a experiência da superinflação, desemprego, e a arrogância e estupidez de Figueiredo
  • não teria sido possível a irrupção das Diretas Já com milhões nas ruas querendo derrubar a ditadura.

Assim foi em 1991/92:

  • sem a experiência da hiperinflação, desemprego e a soberba e obtusidade de Collor,
  • a centelha da juventude nas ruas não teria contagiado as massas populares e conquistado o impeachment.

É possível que estes limites estejam próximos, ou até já tenham sido atingidos. Já chegamos ao momento do trauma histórico?

  • Se o que aconteceu entre 2015/21 não foi uma derrota histórica da classe trabalhadora e seus aliados,
  • se não sofremos a desmoralização de uma geração,
  • o impacto desta hecatombe irá despertar, em algum momento, uma resposta colossal, gigantesca, imensa, maior do que tudo que vimos nos últimos vinte anos
  • contra o governo de extrema-direita e o neofascista Bolsonaro.

Há limites.

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Não será simples derrotar Bolsonaro e o perigo que representa um governo de extrema direita liderado por um neofascista que tem apoio de massas na pequena-burguesia.

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  • Os capitalistas brasileiros são a classe burguesa mais rica, poderosa, experiente e ardilosa do continente.
  • Nossa classe trabalhadora é um gigante social,
  • mas está longe de ser quem acumulou maior tradição de luta sindical
  • e enfrenta, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar, os desafios de uma situação reacionária.

Mas o contexto internacional não é simples para Bolsonaro depois da derrota de Trump, na sequência de uma explosão de fúria popular com o Black Lives Matter. Ela sinaliza a possibilidade de uma derrocada. Uma das características chaves do Brasil são os contrastes.

Insere-se no mundo como um híbrido de semicolônia privilegiada e submetrópole regional.

  • À luz da lei do desenvolvimento desigual e combinado
  • é possível elucidar o amálgama, a fusão, a mescla
  • que associa grandeza e pequeneza, riqueza e pobreza, uma união do obsoleto e do moderno, de formas arcaicas, ou até retrógadas
  • com as mais contemporâneas, em uma totalidade complexa.

Mas ainda que atrasada a sociedade brasileira não foi bestializada.

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Não é verdade que as massas trabalhadoras e a juventude estejam indiferentes à calamidade sanitária. Ante de agir é necessário que o choque das desgraças acelere a experiência prática, e transforme a consciência.

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O capitalismo brasileiro entrou em decadência histórica.

Mas, considerada, por exemplo, a paridade do poder de compra, um indicador que corrige as oscilações cambiais e, parcialmente, as distorções que resultam das condições de troca desfavoráveis,

  • o Brasil ainda era, em 2020, a oitava maior economia do planeta (com PIB estimado em US$ 3,15 trilhões).
  • Durante os últimos quarenta anos foi uma das dez maiores economias do mercado mundial,
  • segundo projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional).[1]

Paradoxalmente, se consideramos o PIB per capita, o valor do PIB dividido pela população, encontramos uma queda contínua.

  • Em 2020, a renda média regrediu ao nível de 2009.
  • No ano passado, o PIB per capita diminuiu 4,8%.

Baixas piores do que essa

  • havia ocorrido apenas em 1983 (recessão final da ditadura militar)
  • e 1990 (recessão do Plano Collor).

O consumo das famílias teve queda recorde de 5,5% em 2020.

  • O capitalismo periférico brasileiro teve durante meio século, entre 1930/80, uma forte dinâmica de crescimento,
  • mas mergulhou em uma tendência histórica de estagnação com viés regressivo.
  • Esta inflexão coincide com a etapa mais longa de vigência de liberdades democráticas e estabilidade do regime democrático-eleitoral.

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A chave para o entendimento da especificidade do capitalismo no Brasil é a extrema desigualdade social.

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  • É o maior parque industrial do hemisfério sul do planeta,
  • e uma das dez maiores economias do mundo, com vinte cidades com um milhão ou mais de habitantes,
  • e 85% da população economicamente ativa em centros urbanos.

Mas é atrasado, dramaticamente, em termos educacionais:

  • aqueles alfabetizados, plenamente, na língua e na matemática são somente 8%, menos de um em cada dez pessoas,
  • e os iletrados funcionais correspondem a 27% da população com 15 anos ou mais, ou seja, quase um em cada três.[2]

O Brasil foi e permanece, sobretudo, uma sociedade muito injusta.

  • A chave de uma interpretação marxista do Brasil é a resposta ao tema da principal peculiaridade nacional: a desigualdade social extrema.
  • Todas as nações capitalistas, no centro ou na periferia do sistema, são desiguais, e a desigualdade está aumentando desde a década de 1980.[3]
  • Mas o capitalismo brasileiro tem um tipo de desigualdade anacrônica.

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Se a chave de interpretação do Brasil deve ser a desigualdade social, a chave da compreensão da desigualdade é a escravidão. Sem compreender o significado histórico da escravidão é impossível decifrar a especificidade do Brasil.[4]

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O país será outro, quando as atuais condições extremas impostas pela pandemia sejam superadas.

O fracasso de conjunto da classe dominante em reduzir as sequelas impostas às classes populares terá consequências político-sociais.

Mais machucadas e amarguradas, mas, também, mais maduras e endurecidas as classes populares estão retirando conclusões. Enquanto não forem derrotadas irão lutar.

 

 

Valério Arcary

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/608462-a-historia-ensina-que-ha-limites-para-os-sacrificios-sociais-impostos-as-massas-populares-em-qualquer-nacao-artigo-de-valerio-arcary

Notas:

[1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/04/brasil-recua-no-ranking-global-dos-paises-com-maior-pib-per-capita-em-2020.shtml

[2] No Brasil, o ensino médio completo corresponde a 12 anos de escolaridade. Esta escolarização deveria corresponder ao nível “proficiente”, o mais avançado de alfabetismo funcional, que corresponde a uma plena alfabetização na língua e na matemática. Mas apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar, em 2015, foram consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Há cinco níveis de alfabetismo funcional, segundo o relatório “Alfabetismo e o Mundo do Trabalho”: analfabeto (4%), rudimentar (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%). O grupo de analfabeto mais o de rudimentar, ou 27%, são considerados analfabetos funcionais. Este estudo foi conduzido pela ONG Ação Educativa.

https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/02/29/no-brasil-apenas-8-escapam-do-analfabetismo-funcional.htm

[3] PIKKETY, Thomas. O Capital no século XXI. Intrínseca. Rio de Janeiro. 2014. O livro de Piketty, de inspiração econômica neokeynesiana, e política socialdemocrata, apresenta um extraordinário volume de dados sobre o papel da herança na perpetuação da riqueza ao longo dos últimos cem anos à escala mundial. As séries decenais confirmam, de maneira irrefutável que, a partir dos anos oitenta do século passado, a tendência de aumento da desigualdade social se aproxima do padrão anterior à I Guerra Mundial.

[4] O primeiro censo nacional foi realizado entre 1870/72. O questionário era de difícil transcrição e apuração. Embora tenha sido feito em condições, especialmente, precárias, sua importância como fonte não merece ser diminuída. Sobre uma população próxima a dez milhões ou, mais exatamente 9.930.478, a população escrava era ainda um pouco maior que um milhão e meio, ou, mais precisamente, de 1.510.806, sendo 805.170 homens e 705.636 mulheres. Estudos demográficos históricos são somente aproximações de grandeza. PUBLICAÇÃO CRÍTICA DO RECENSEAMENTO GERAL DO IMPÉRIO DO BRASIL DE 1872 do Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica – NPHED da UFMG. Disponível em: www.nphed.cedeplar.ufmg.br/…/Relatorio_preliminar_1872_site_nphed

 

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1 comment to No epicentro mundial da pandemia. Artigo de Valério Arcary

  • Valério Arcary nos aponta com lucidez analítica e fundamento crítico que a tragédia social brasileira caminha para um inevitável desfecho, que esperamos não se converta em mais sofrimento para a classe trabalhadora.

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