Jesus e a Igreja. 1

SUPRIMENTO INVISÍVEL: JESUS NÃO FUNDOU NENHUMA IGREJA - JOEL GOLDSMITH

 Anselmo Borges – 10/04/2021 – Foto: DAQUI

Jesus não fundou nem quis fundar uma Igreja (Jesus é o fundamento da Igreja, mas não o seu fundador, dizia o grande teólogo Karl Rahner) e, assim, muito menos pensou numa determinada constituição para ela”.

 

1. Será preciso começar pela pergunta: Jesus fundou a Igreja, concretamente com a constituição com que hoje se apresenta?

A resposta é inequívoca: “Não”.

De facto, por exemplo, na obra com o título em português A Igreja Católica ainda tem futuro? Em defesa de uma nova Constituição para a Igreja Católica, na sequência de outras,

  • o famoso exegeta Herbert Haag, da Universidade de Tubinga, com quem tive o privilégio de privar,
  • renovou a tese segundo a qual é um dado seguro da nova investigação teológica e histórica que Jesus não fundou nem quis fundar uma Igreja (Jesus é o fundamento da Igreja, mas não o seu fundador, dizia o grande teólogo Karl Rahner)
  • e, assim, muito menos pensou numa determinada constituição para ela.

Também o Cardeal Walter Kasper, quando era professor da Universidade de Tubinga, perguntava nos exames aos estudantes se Jesus tinha fundado a Igreja, esperando uma resposta negativa.

Jesus não pregou a Igreja; anunciou o Reino de Deus.

É bem conhecida a afirmação célebre de Alfred Loisy, em O Evangelho e a Igreja (1902), talvez a obra de teologia que mais polémica levantou no século XX: “Jesus anunciava o Reino e o que veio foi a Igreja”.

Com a morte de Jesus na Cruz, o suplício próprio de escravos,

  • os discípulos confusos fugiram, dispersaram-se,
  • voltaram às suas tarefas normais, pois aparentemente tudo tinha terminado.

Assim, o que é espantoso — o enigma do Cristianismo, mesmo de um ponto de vista histórico, é precisamente esse — é que pouco tempo depois começaram a dizer que o tinham “visto”, que Ele está vivo.

Se tudo tivesse terminado na morte, o destino de Jesus teria sido o esquecimento.

  • Os discípulos reuniram-se, pois, outra vez e formaram comunidades (ekklesiai)
  • congregadas pela fé em que esse Jesus, o Messias de Deus, voltaria em breve para instaurar o Reino de Deus em plenitude.

Portanto, também as primeiras comunidades cristãs viveram dessa profecia, dessa fé e dessa esperança da chegada iminente do Reino de Deus. Neste sentido, basta ler a Primeira Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses 4, 15-17:

“Nós os que estamos vivos, quando vier o Senhor, não teremos preferência sobre os que morreram.”

Não há dúvida de que as comunidades de São Paulo se legitimaram democrático-carismaticamente.

Como é um facto que

  • as primeiras comunidades se reuniam em casas particulares e celebravam a Eucaristia — o banquete do amor e testemunho da verdade até ao fim —,
  • recordando a última Ceia e as várias refeições de Jesus.
  • Quem presidia era o dono ou a dona da casa.

Isto significa que

  • todos os ministérios da Igreja actual, nomeadamente o ministério episcopal e o ministério sacerdotal,
  • não foram criados por Jesus, mas pela Igreja.

Como escreve Hans Küng,

  • dado o adiamento da segunda vinda de Jesus,
  • foi por motivos práticos que se impôs mais tarde uma “hierarquia”,
  • uma “hierarquia ministerial”, composta por bispos, presbíteros e diáconos.

Mas, a partir dos documentos do Novo Testamento, não se pode falar de uma “instituição” desta hierarquia ministerial e ordenada por Cristo ou os Apóstolos.

Por isso,

  • “apesar de toda a ideologia eclesiástica”, também não se pode afirmar que seja “imutável”.
  • Ela é “o resultado” — talvez quase inevitável — de “um desenvolvimento histórico”,
  • de tal modo que, embora a Igreja possa ser assim organizada,“não tem que sê-lo”.

Portanto,

  • a Igreja dispõe dos ministérios livremente.
  • Pode mantê-los, aboli-los, mudá-los.

Nisto, o princípio tem de ser:

  • não é a comunidade que tem de orientar-se pelas necessidades do ministério,
  • mas o ministério pelas necessidades da comunidade.

Os ministérios existem para a comunidade, não a comunidade para os ministérios.

Assim, mesmo para presidir à Eucaristia,

  • o pressuposto não tem que ser uma ordenação sacra (Weihe),
  • pois trata-se de um encargo, uma função, uma missão (Auftrag), que poderá ser temporária, por algum tempo, conferida a um homem ou a uma mulher, casados ou não.

Onde é que está, no Novo Testamento, que Jesus ordenou alguém como sacerdote na Última Ceia?

A ordenação sacra sacerdotal levou, contra a vontade de Jesus, a duas patologias: o clericalismo e o patriarcalismo.

A Igreja constituiu-se como nova sociedade composta por duas classes: hierarquia e povo, “clero” e “leigos”, sublinha Herbert Haag.

Deste modo, estabeleceu-se aquele equívoco corrente:

  • sempre que alguém se refere à Igreja, entende-se a hierarquia e não as discípulas e os discípulos de Jesus,
  • isto é, esquecendo mais de noventa e nove por cento da Igreja, tem-se em mente menos de um por cento.

Mas Jesus tinha dito: “Sois todos irmãos.”

Um dos nós do problema começou com a concepção da Eucaristia como sacrifício.

  • Com a perspectivação cultual- sacrificial, apareceu o sacerdote,
  • e, com a celebração diária da Eucaristia, a obrigação do celibato, pois o sacerdote está separado, à parte:
  • tocando no Corpo do Senhor não pode tocar a profanidade impura do corpo da mulher, que ficou excluída da ordenação sacerdotal.

Aparecem então várias contradições na Igreja.

Há uma que se torna gritante, concretamente em tempos de confinamento:

  • os padres e os bispos podem celebrar a Eucaristia, centro da vida cristã, mesmo sozinhos;
  • as comunidades cristãs, não.

A outra:

  • o cristianismo está na base da emancipação feminina, cada vez mais presente nas sociedades,
  • mas a Igreja continua a discriminar as mulheres, não lhes reconhecendo igualdade com os homens.
  • Por isso, sentem-se humilhadas na Igreja, que, muitas, vão abandonando.

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/jesus-e-a-igreja-1-13551638.html

 

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