“O mundo ficou dividido entre dois modelos em disputa”. Entrevista com Esteban Actis

 A China e os Estados Unidos transitam a pandemia de forma divergente. Enquanto o gigante asiático desacelerou seu crescimento econômico e se posicionou como provedor de recursos e ajudas sanitárias, os Estados Unidos sofreram de cheio o impacto do coronavírus e teve um caminho de governo, em plena pandemia, que o obriga a definir seu rumo no novo cenário internacional. Nesta situação, a pergunta pela disputa global entre as potências se torna impostergável.

Para respondê-la, entrevistou-se EstebanActis, doutor pela Faculdade de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Nacional de Rosário, professor e pesquisador nas universidades de RosárioBuenos AiresLa Plata e Católica de Córdoba, e coautor do livro La disputa por el poder global.

A entrevista é de Martín Canziani, publicada por Página/12, 18-03-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

Esteban Actis (@actis_esteban) | Twitter

Esteban Actis – Foto: Twitter

A pandemia mudou o rumo das relações entre a China e os Estados Unidos ou acelerou algo que já estava acontecendo?

Veio acelerar um conjunto de tendências profundas que já estavam presentes no cenário internacional, e a mais significativa é a disputa entre os Estados Unidos e a China.

O que mudou é que este evento global demonstrou um conjunto de aspectos, onde os mais relevantes são

  • a dificuldade na cooperação entre os dois Estados mais importantes do cenário internacional,
  • a crise de liderança que o mundo vive
  • e a vontade da China de ocupar esse papel, apesar da desconfiança da comunidade internacional e as limitações próprias.

A liderança global dos Estados Unidos está comprometida?

A crise de liderança que o mundo atravessa

  • tem como manifestação a incapacidade dos Estados Unidos em oferecer bens públicos globais e de que sejam aceitos.
  • Trata-se da capacidade de prover as construções que em um sistema anárquico, onde não há um governo acima dos Estados,
  • quem deve prover estabilidade econômica, financeira e militar global é aquele que precisa arcar com gastos para sustentar a estabilidade.

Também precisa

  • fornecer certa narrativa ou ideias que determinem uma hegemonia através de sua cultura e do modelo de desenvolvimento,
  • algo que os Estados Unidos vêm fazendo durante os últimos 100 anos.
  • No entanto, nos últimos tempos, os Estados Unidos perderam essa capacidade e a pandemia é uma clara demonstração disso.

A China é o país que hoje conta com maiores recursos duros e materiais de poder.

Aí estão inseridos

  • seus bancos multilaterais de desenvolvimento,
  • a rota da seda e as facilidades de financiamento produtivo que a potência asiática oferece,
  • mas não é o necessário para preencher a lacuna que a faça ocupar o lugar dos Estados Unidos.

 

As democracias do ocidente podem competir com o regime de partido único chinês?

A experiência chinesa

  • colocou em tensão uma ideia que estava muito enraizada na economia internacional:
  • só há progresso sustentável através de uma democracia liberal de mercado.

China,

  • com um capitalismo de Estado e um regime político que não é uma democracia,
  • teve êxitos econômicos tangíveis, em um contexto onde as democracias ocidentais se estagnaram em seu desenvolvimento.

Sem entrar em juízos de valor em relação ao modelo,

  • China demonstrou que não é necessário ter uma democracia de mercado conforme a considerada no Ocidente
  • para alcançar o desenvolvimento.

Neste sentido, o mundo ficou dividido em dois modelos em disputa:

  • um com um capitalismo onde a transformação produtiva é sustentada pelo setor privado,  onde o Estado é importante, mas o motor do desenvolvimento está nas mãos privadas,
  • e um capitalismo de base estatal
  • onde, embora a China dê protagonismo ao mercado e aos incentivos privados,
  • a condução do Estado nos delineamentos e planejamento do modelo de desenvolvimento é muito clara.

A economia global também faz parte das tensões entre as potências?

O que estamos vendo é que

  • globalização, até há alguns anos, estava centrada nos custos.
  • As empresas multinacionais se movimentavam em torno desta variável que consideravam central.

O que aconteceu nos últimos tempos,

  • com uma geopolítica muito mais convulsionada pela tensa relação entre a China e os Estados Unidos, a presidência de Trump e inclusive o Brexit,
  • é que as empresas precisam se movimentar no risco.

Não há uma desglobalização ou retrocesso da globalização como alguns vaticinaram, no início da pandemia. O que vemos é um processo muito mais delicado, em que as empresas precisam avaliar os custos econômicos, mas também estratégicos de suas decisões.

Esta ideia tão enraizada de que

  • as empresas multinacionais norte-americanas e a política exterior caminhavam de mãos dadas não está se cumprindo.
  • E isto é produto da tensão pelo volume do mercado chinês e sua dinâmica de crescimento.

 

Que lugar a América Latina pode ocupar dentro desta disputa?

A América Latina

  • está em uma situação muito delicada
  • porque a região tem uma maior irrelevância sistêmica ou menor peso gravitacional do que outras regiões do mundo.

Os indicadores nos mostram que estamos fora das cadeias globais de valor,

  • com pouca capacidade de investimento na indústria 4.0,
  • pouca participação na governança global
  • e uma fragmentação regional inédita que traz uma incapacidade de diálogo para coordenar cenários futuros.

A partir deste cenário regional, que em decorrência da pandemia caiu em termos econômicos, ocorre uma maior relevância estratégica por parte dos atores externos.

China e os Estados Unidos começam a ter maiores interesses em todo o mundo e a América Latina não é a exceção.

Nesse sentido,

  • as pressões da potência hemisférica sobre o que considera o seu quintal aumentaram
  • e a China começa a pressionar países têm suas exportações comprometidas com o gigante asiático.

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Martín Canziani

Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/607672-o-mundo-ficou-dividido-entre-dois-modelos-em-disputa-entrevista-com-esteban-actis

 

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