Um ano após primeira morte, Brasil vê covid-19 fora de controle

BRASIL

    Unidade de terapia intensiva em hospital de Porto Alegre:

Thomas Milz – 12/03/2021  

Foto: Unidade de terapia intensiva em hospital de Porto Alegre: lotação atinge clínicas públicas e privadas

Infecções e mortes aumentam em ritmo acelerado, e especialistas temem que país supere recordes dos EUA, chegando a 5 mil mortes pelo coronavírus por dia nas próximas semanas.

 

A situação da crise de coronavírus no Brasil está piorando dramaticamente.

Nesta quinta-feira (11/03),

  • 2.233 mortes em decorrência da covid-19 foram registradas em 24 horas,
  • após o recorde de 2.286 mortes no dia anterior.
  • Foram as primeiras vezes que mais de 2 mil pessoas morrem em um dia.

A mídia veicula 24 horas por dia imagens de pessoas desesperadas que temem pela vida de seus entes queridos.

“É extremamente grave e trágico”,

é como o médico e neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis classifica o que está ocorrendo.

“É o pior momento do Brasil em toda a pandemia.”

  • O recente aumento no número de mortes e infecções (mais de 75 mil novos casos na quinta-feira) não deve ser interrompido por enquanto,
  • afirma Nicolelis em entrevista à Deutsche Welle.

O cientista conquistou recentemente o reconhecimento nacional com suas previsões precisas. Sobretudo por suas previsões feitas há algumas semanas de quase 3 mil mortes por dia. Mas ele estava errado.

“Essa minha previsão era para o final de março e, infelizmente, é muito provável que a gente atinja esse número na semana que vem, em meados da semana que vem – ou até mais rápido.”

Três mil mortos nos próximos dias

Agora se torna realidade algo para o qual cientistas vinham alertando incansavelmente há um ano.

  • “É uma pandemia fora de controle, e é muito difícil de contabilizar, pois vários estados estão tendo um colapso do seu sistema de saúde.
  • E isso pode acarretar uma aceleração nas mortes pela ausência de leitos de enfermaria e leitos de UTI.”

Ele ressalta ser difícil fazer uma previsão exata.

“Mas podemos bater os recordes dos americanos de mortes diárias nas próximas semanas.”

Isso significaria até 5 mil mortos por covid-19 em um dia.

  • De muitas regiões, chegam más notícias sobre hospitais superlotados.
  • Mesmo caras clínicas privadas estão superlotadas.
  • No estado mais populoso, São Paulo, alguns hospitais registraram aumentos de mais de 300% nas admissões em unidades de terapia intensiva em uma semana.
  • Já na próxima semana, existe a ameaça de colapso.

 

Funcionários de hospital com roupa de proteção deslocam maca com pacienteEspecialistas temem o colapso do sistema de saúde em várias regiões

 

  • O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, não está nem aí.
  • “Não colapsou nem vai colapsar”, disse o general, que tem perdido credibilidade nos últimos tempos.

Atualmente,

  • ele é alvo de investigações por causa do colapso do fornecimento de oxigênio nos hospitais de Manaus em meados de janeiro.
  • Ele teria tido conhecimento antecipado sobre o assunto, mas não tomou nenhuma providência.
  • Em vez de oxigênio, ele enviou cloroquina para os hospitais.

Atualmente, Pazuello também tem que corrigir diariamente para baixo o número de doses de vacina previstas para o país.

 

Efeito Lula: demissão de Pazuello ganha força e já se fala em possíveis substitutos | Exame

   Eduardo Pazuello, o general-ministro       da Saúde, “especialista em logística”, que desconhecia o SUS e desdiz hoje e que disse ontem / Exame

Por muito tempo, o governo confiou apenas na chamada vacina de Oxford, da fabricante sueco-britânica de vacinas AstraZeneca, que, no entanto, tem problemas de entrega.

Por outro lado,

  • Bolsonaro tentou sabotar, por motivos políticos, a iniciativa do estado de São Paulo de importar a vacina CoronaVac independentemente da China.
  • A CoronaVac é atualmente a única vacina disponível em grandes quantidades no Brasil.

No final de 2020,

  • Bolsonaro, que até poucos dias atrás ainda era categoricamente contra a vacinação,
  • recusou uma oferta da Pfizer-Biontech de mais de 70 milhões de doses de vacina.

“Este país não tem governo”

Na quarta-feira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao cenário político com críticas mordazes à gestão de pandemia de Bolsonaro.

“Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República e do ministro da Saúde, tome a vacina”,

aconselhou. Ele

  • pediu aos brasileiros que se vacinem
  • e atribuiu a culpa pelas mais de 270 mil mortes a Bolsonaro, que se recusou a formar uma equipe de crise, de acordo com o ex-líder sindical.
  • “Este país não tem governo.”

Pouco depois, Bolsonaro apareceu em público usando máscara, item que ele já havia rejeitado categoricamente. Observadores acreditam que a pressão pública pelas críticas de Lula o fez ceder.

O sociólogo Demétrio Magnoli contradiz essa versão.

“Estão superestimando os efeitos do discurso do Lula”,

pondera, em entrevista à DW. Para Magnoli, Bolsonaro mudou sua política há cerca de duas semanas em decorrência da aceleração da segunda onda de coronavírus.

 

Carro levando féretro em enterro de vítima da covid-19Brasil pode ter até 3 mil mortes diárias já nos próximos dias / Ueslei Marcelino / Reuters

Os assessores de Bolsonaro constataram na época, segundo o analista, um declínio da popularidade do presidente.

Além disso, os governadores e o Congresso também sugeriram uma iniciativa conjunta e independente do governo para comprar vacinas.

  • “Bolsonaro teme não só pelas eleições de 2022,
  • mas pela estabilidade do seu governo”, avalia Magnoli.

O governo está com água até o pescoço, na opinião do especialista.

“A água está subindo, e a água pode afogar o governo”,

diz. Até porque atualmente quase não há vacinas para se comprar no mercado mundial.

Especialistas pedem lockdown

Devido à escassez de imunizantes, especialistas estão pedindo um lockdown rigoroso em todo o país.

“Não tem mais solução se não adotar um lockdown nacional”,

diz Nicolelis. Além disso, devido à rápida disseminação da variante P.1 de Manaus, mais contagiosa, o país teria que ser isolado.

“O Brasil é neste momento o maior laboratório a céu aberto para que o vírus tenha chance de sofrer mutações”,

afirma.

Diante do perigo para o mundo todo, a comunidade internacional deveria fornecer vacinas ao Brasil, acredita Nicolelis.

  • Um lockdown severo e de vários meses baseado no modelo europeu
  • não pode ser feito no Brasil, na avaliação do sociólogo Magnoli.
  • Ele argumenta que não há consenso político necessário nem polícia suficiente para fazer cumprir as restrições nas gigantescas áreas pobres.
  • E, de fato, um número significativamente menor de pessoas nas periferias das grandes cidades aderem a determinações como uso de máscara.

O presidente Bolsonaro serve de mau exemplo para muitas pessoas.

  • Na quinta-feira, ele descreveu o toque de recolher noturno imposto por prefeitos e governadores como um “estado de sítio”.
  • Ele também afirma que os efeitos colaterais econômicos do lockdown também são mais prejudiciais do que o próprio coronavírus,
  • e que milhões de empregos foram perdidos. Segundo o presidente, as medidas restritivas mostram “como é fácil impor uma ditadura no Brasil”.

 

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Thomas Milz

Fonte:  https://www.dw.com/pt-br/um-ano-ap%C3%B3s-primeira-morte-brasil-v%C3%AA-covid-19-fora-de-controle/a-56850684

 

 

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