Os lugares do Papa no Iraque: uma viagem de regresso, reencontro e reafirmação de fraternidade

A quase totalidade dos lugares da visita papal reenvia para o chão histórico da aventura humana avançada, que se desenvolveu na Mesopotâmia desde há mais de cinco mil anos. 

 

Pormenor da Porta de Ishtar, atualmente no Museu Pérgamo, em Berlim. Foto © Francisco Anzola/Wikimedia Commons

 6 Mar 21

Foto: Pormenor da Porta de Ishtar, atualmente no Museu Pérgamo, em Berlim. Foto © Francisco Anzola/Wikimedia Commons

Os lugares da viagem do Papa ao Iraque erguem memórias que abarcam desde o berço da civilização nas planícies do sul da Mesopotâmia e de toda a sua história até ao berço da expansão judaico-cristã, nos vales e montanhas entre a Assíria e a vizinha Arménia. Ali começou a viagem de Abraão, ali Francisco regressa numa visita que traduz o reencontro e a reafirmação da fraternidade. Um percurso pelos lugares da viagem, ao encontro da memória desses lugares.

 

 

Para acompanhar a histórica viagem do Papa Francisco ao Iraque, procuramos prestar atenção ao significado com que cada um dos lugares visitados pode contribuir.

Decorrendo esta viagem em regiões tão representativas da história e da atualidade do Médio Oriente, faz sentido iluminar a própria ideia de lugar com o significado que lhe vem da filologia semítica.

Parecendo tão banal, o termo que, em hebraico, designa um “lugar” (maqom) é um substantivo que deriva do verbo “erguer”(qum).

  • Seria assim um sítio onde foram erguidos monumentos, memórias, altares…
  • Sítios, enfim, de denso significado funcional e simbólico.
  • Conteúdos profundos como estes podem andar escondidos nas nossas palavras de usos mais prosaicos.

O conteúdo das memórias que sobem das profundezas deste Oriente traz consigo muito das memórias e vivências do mundo judaico-cristão das origens.

  • O mundo da Mesopotâmia, representado agora pelo Iraque,
  • foi realmente um espaço onde judaísmo e cristianismo deram alguns dos primeiros passos na difusão para fora da Palestina
  • e onde por mais tempo conservaram entre si as cumplicidades da origem.

Formas mistas de judaísmo e cristianismo, como os restos do movimento batista e os mandeus, mantiveram-se ali vivos durante séculos e são visíveis ainda nos dias de hoje.

  • As igrejas cristãs siro-mesopotâmicas e o judaísmo ganharam, entretanto, outras cumplicidades com as raízes culturais do fundo mesopotâmico
  • e acolheram novas sensibilidades no contexto do islamismo,
  • até pelo facto de entre si falarem o árabe.

Na prática, a presença do cristianismo por todo este Oriente, nele incluindo o próprio caso de Israel atual, tem sido um contínuo exercício sofrido, paciente e sempre sob ameaça de extinção.

Há que redescobrir

  • sentimentos de tolerância e solidariedade, de vida e de consciência, entre seres humanos
  • que não têm outra possibilidade senão a de se assumirem como sendo iguais e irmãos,
  • libertando-se da ganga discursiva de doutrinas e estratégias superficialmente religiosas.

A realidade histórica ali vivida desde há largos milénios

  • é feita de contínuas misturas de povos, sumérios, semitas, asiânicos autóctones e indo-europeus,
  • organizando-se em sucessivos impérios: Suméria, Acádia, Babilónia, Assíria, Pérsia e ainda os Selêucidas, Romanos, Partas ou Arsácidas e Sassânidas e Otomanos,
  • prolongando-se praticamente até à conquista árabe islâmica em meados do séc. VII d.C.

Ora, a quase totalidade dos lugares da visita papal

  • reenvia para o chão histórico da aventura humana avançada, que se desenvolveu na Mesopotâmia desde há mais de cinco mil anos.
  • Também estes ficaram como conteúdo erguido e profundo em cada lugar da visita.

Os três dias da visita espelham o horizonte de três regiões e três épocas clássicas da Mesopotâmia.

 

No horizonte da Babilónia

Relevo de um palácio assírio de Dur-Sharrukin, possivelmente representando Gilgamesh, Iraque

Relevo de um palácio assírio (713-706 a.C.) de Dur-Sharrukin, possivelmente representando Gilgamesh como Mestre dos Animais, escultura agora no Museu do Louvre. Foto Jastrow/Wikimedia Commons.

 

As deslocações da visita têm como plataforma estratégica a região central da Mesopotâmia, onde fica a capital atual perto do sítio onde se situava a cidade da Babilónia.

Não sendo a mais antiga, esta cidade acabou por vir a representar toda a Mesopotâmia e a sua história comum. O efeito que teve sobre a memória bíblica é algo negativo,

  • desde a ironia da torre de Babel (Génesis 11)
  • até à memória da destruição de Jerusalém em 587 a.C. (Salmo 137),
  • memória tão trágica que se funde com a de Roma (Apocalipse 17-18) que destruiu Jerusalém e o templo no ano 70 d.C.

O país dá atualmente pelo nome de Iraque, cuja origem pode remeter para o nome da cidade de Uruk, que na Bíblia se diz Erec, situada mais a sul, na Suméria, e que é vista como o berço mundial da escrita e da civilização com que vivemos.

Ali, o herói Gilgamesh foi o rei celebrado numa epopeia que se difundiu por todo o antigo Oriente.

  • Bagdad é capital a partir do período islâmico.
  • Desde há mais de um milénio, com efeito, o Iraque é um espaço de hegemonia muçulmana.
  • A missa de sábado à tarde é na catedral católica S. José, nesta cidade.

 

No horizonte da Suméria

Ur, Iraque, Abraao, José Manuel Rosendo

Ur, que a tradição considera como lugar de origem da família de Abraão, foi capital da terceira dinastia de Ur, o último império mesopotâmico na mão dos sumérios. Foto © José Manuel Rosendo.

 

Os lugares significativos do segundo dia da viagem remetem-nos para a região onde se acentua a memória dos sumérios.

  • Najaf é a terceira cidade santa do Islão xiita.
  • Ali se venera o túmulo-santuário de Ali, genro e primo de Maomé e segunda personagem na galeria do mundo islâmico,
  • cujo nome preside à vertente espiritual do islão xiita, num país que tradicionalmente se tem assumido como sunita.

Esta dualidade é fonte de densidade e de tensões, no Iraque e no próprio Islão.

  • Ali se encontra um dos principais centros de estudo teológico xiita.
  • O encontro do Papa é com o ayatollah Al-Sistani, que preside ao instituto Al-Khoei,
  • o qual, com o estudo das diferentes religiões, se propõe educar para o diálogo entre elas.

Na região,

  • existe um cemitério onde os piedosos judeus esperavam o juízo final, tal como acontece em Jerusalém, no vale de Josafat e por toda a encosta do Monte das Oliveiras.
  • Ali existe igualmente o maior cemitério cristão do Iraque, anterior à fundação do próprio santuário muçulmano.
  • Para túmulo de Ali, este lugar apresentava credenciais importantes, vindas da era pré-islâmica.

Nas proximidades fica Kerala, outra cidade santa xiita com mesquita-túmulo dedicada os filhos de Ali.

 

Mais alargado e comunitário é o encontro deste segundo dia com os líderes religiosos do Iraque.

Para este foi escolhida a antiga cidade suméria de Ur, que a tradição considera como lugar de origem da família de Abraão e que foi capital da terceira dinastia de Ur, o último império mesopotâmico na mão dos sumérios.

Este encontro religioso acontece junto do grande zigurate de Ur, santuário associado ao deus Nana, representado pela lua, símbolo com que o Médio Oriente ainda hoje se identifica.

Este zigurate foi construído por volta de 2100 a.C. por Urnamu, fundador da terceira dinastia de Ur. O recinto forma um quadrilátero com cerca de mil metros de lado. 

  • Presentes estarão os adeptos das religiões que se inspiram na figura de Abraão:
  • cristãos, mandeus, sabeus, yazidis, muçulmanos.
  • A representação de judeus, provavelmente ausentes por razões políticas, ficará certamente implícita na presença dos grupos afins de origem judaico-cristã.

 

No horizonte da Assíria

Cópia de A porta de Ishtar de Arbela, na Assíria, Iraque

A porta de Ishtar de Arbela, na Assíria, dava entrada no santuário da deusa que concentrava em feminino o imaginário religioso da Mesopotâmia. Foto: Direitos reservados.

 

O terceiro dia da visita decorrerá no norte do Iraque, que na antiguidade é conhecido pelo nome de Assíria. 

  • É a região iraquiana autónoma do CurdistãoErbil, a que os gregos chamavam Arbela, é uma cidade conquistada na terceira dinastia de Ur e habitada desde o quinto milénio.
  • O santuário da deusa Ishtar de Arbela era, na Assíria, a divindade que concentrava em feminino o imaginário religioso da Mesopotâmia em todas as suas épocas.

Foi capital do reino de Adiabene,

  • cuja realeza se converteu ao judaísmo no séc. I da nossa era,
  • tendo a rainha Helena construído palácio e sepultura em Jerusalém, no tempo de Jesus.

Na atualidade, coexiste ali um grande número de religiões, incluindo cristianismo e yazidismo.

Na mesma região fica Edessa, importante centro espiritual nas origens do cristianismo. Ali terá sido escrito o Evangelho de Tomé.

Na planície alto-mesopotâmica, fica a última capital dos assírios, Nínive, emparceirando com a mais moderna cidade de Mossul, numa e noutra das margens do rio Tigre.

  • Nínive, tão destacada na história profética sobre Jonas, foi a nova capital de Senaquerib e, com os seus 750 hectares, é o maior sítio arqueológico de todo o Oriente.
  • Nela, a grande biblioteca de Assurbanipal serviu de modelo para a Biblioteca que Alexandre Magno sonhava para Alexandria.
  • Esta região mostrou sempre uma grande mistura de religiões, incluindo várias modalidades de cristianismo (assírios, nestorianos, caldeus e mandeus).

A ocupação por parte do autodenominado Estado Islâmico (EI) e as lutas pelo fim do mesmo deixaram Mossul em completa ruína.

  • Entretanto, a comunidade cristã da região que mais sofreu com o EI foi a de Qaraqosh, a cidade mais cristã do Iraque.
  • A missa de Francisco na Igreja da Imaculada Conceição será certamente marcada pela densidade e intimidade destas memórias e pelo dramatismo das vivências mais recentes.
  • É particularmente simbólico que o Papa lhes vá restituir, devidamente restaurado, o seu livro oficial de orações, o Sidra, que escapou à destruição nos ataques do Daesh.

Espírito e lema da viagem

7-Iraque 5-Logo da viagem do Papa ao Iraque

O logotipo da viagem do Papa: Os lugares da viagem erguem memórias que abarcam desde o berço da civilização nas planícies do sul da Mesopotâmia e de toda a sua história até ao berço da expansão judaico-cristã.

Envolvendo a bandeira do Iraque encimada pela pomba da paz, como em auréola, o programa oficial da visita exibe o lema da viagem: Todos vós sois irmãos.

  • Nos dois extremos está escrito em árabe e em curdo, duas línguas oficiais do Iraque,
  • e no centro superior, com grafismo que a própria escrita naturalmente destaca, vem a língua do cristianismo oriental, o siríaco, na sua modalidade de escrita oriental ou mesopotâmica, chamada estranguelo ou nestoriano.
  • Esta ocupa o centro, mesmo sem ser língua oficial.

A fraternidade entre cristãos e muçulmanos é particularmente sublinhada pelo facto histórico de a escrita árabe ter sido adaptada a partir da escrita cristã siríaca, na sua versão ocidental mais linear, que os comerciantes proto-árabes se tinham habituado a usar nas suas viagens e foi assumida para o árabe corânico.

Os lugares desta viagem erguem, portanto,

  • memórias que abarcam desde o berço da civilização nas planícies do sul da Mesopotâmia e de toda a sua história
  • até ao berço da expansão judaico-cristã, nos vales e montanhas entre a Assíria e a vizinha Arménia.
  • Foi nesta última que, segundo a literatura bíblica, a arca de Noé, no fim de um terrível cataclismo, encontrou finalmente chão firme para assentar e acolheu o regresso de uma pomba que trazia no bico um ramo de oliveira, sinal de que a catástrofe chegara ao fim (Génesis 8,12).

O símbolo da paz nasceu ali.

  • A viagem de Abraão começou dali e era de saída e origem como aprofundamento de identidade;
  • a viagem do Papa Francisco para ali é de regresso, reencontro e reafirmação de fraternidade,
  • em cumprimento da sua carta encíclica recente, Fratelli tutti.

José Augusto Ramos

é professor de História Oriental e Bíblica, da Universidade de Lisboa

Fonte: https://setemargens.com/os-lugares-do-papa-no-iraque-uma-viagem-de-regresso-reencontro-e-reafirmacao-de-fraternidade/

 

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