Miguel Nicolelis: “Brasil pode cruzar a marca de 3.000 óbitos diários por covid-19 nas próximas semanas”

PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

O médico Miguel Nicolelis.
Cientista defende um ‘lockdown’ nacional para evitar colapso sanitário. “Vamos entrar numa situação de guerra explícita. Podemos ter a maior catástrofe humanitária do século XXI em nossas mãos”

Médico, neurocientista e professor catedrático da universidade Duke (EUA), Miguel Nicolelis coordenou ao longo da pandemia de coronavírus o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a covid-19.
Deixou o grupo no final de fevereiro após meses traçando previsões e orientando os governadores sobre quais medidas deveriam tomar para conter a curva de contágios e evitar o colapso de hospitais públicos e privados. Uma catástrofe que, afirma em entrevista ao EL PAÍS por telefone nesta quarta-feira, está prestes a ocorrer.
“Nós vamos entrar numa situação de guerra explícita. Nós podemos ter a maior catástrofe humanitária do século XXI em nossas mãos”,
  • Na conversa, ele afirma que, de acordo com seus cálculos, nos próximos dias o país começará a registrar 2.000 mortes diárias.
  • Horas depois, o Ministério da Saúde registrou 1.910 mortes por covid-19, mais um recorde.
“A possibilidade de cruzarmos 3.000 nas próximas semanas passou a ser real”, prevê.
Ele argumenta que
  • aumentar o número de leitos já não adianta
  • e que a única saída é decretar um lockdown nacional pelas próximas três semanas.

A ENTREVISTA:

Pergunta. O que esperar para as próximas semanas ou dias?

Resposta. Nós vamos entrar numa situação de guerra explícita. Nós podemos ter a maior catástrofe humanitária do século XXI em nossas mãos. A possibilidade de cruzar 2.000 óbitos diários nos próximos dias é absolutamente real.

  • A possibilidade de cruzarmos 3.000 mortes diárias nas próximas semanas passou a ser real.
  • Se você tiver 2.000 óbitos por dia em 90 dias, ou 3.000 óbitos por 90 dias, estamos falando de 180.000 a 270.000 pessoas mortas em três meses.
  • Nós dobraríamos o número de óbitos.

Isso já é um genocídio, só que ninguém ainda usou a palavra. O que são 250.000 mortes sendo que a vasta maioria poderia ter sido evitada?

P. São Paulo voltou para a fase vermelha e fechou comércios e serviços não essenciais. O que pode acontecer com o Estado?

R. Acho que São Paulo vai colapsar. Campias já colapsou. Rio Preto colapsou. Ribeirão Preto está no mesmo caminho. A cidade de São Paulo não vai aguentar. O Hospital Emilio Ribas já está 100% e com fila de espera. O Hospital das Clínicas, que tem um dos maiores números de leitos de UTI do Brasil, está com 80% de ocupação e vai colapsar.

 

P. Estados têm apostado na abertura de novos leitos. Abrir novos leitos adianta?

R. Não tem mais médico, não tem mais enfermeiro. Todo mundo sabe, e os políticos sabem também, que a velocidade de crescimento do vírus é exponencialmente mais veloz que a capacidade de criar, equipar e por gente no leito de UTI.

Não tem como combater isso criando mais vagas nos hospitais. É a típica estratégia de maquiagem. Aumenta os leitos, mas os leitos às vezes nem funcionais estão, mas vão para a conta e diminui a taxa de ocupação.

 

P.O que fazer então? Os governadores e secretários da Saúde pressionaram nesta semana o presidente Jair Bolsonaro por medidas.

R. É preciso decretar lockdown de pelo menos 21 dias e pagar um auxílio financeiro para que as pessoas fiquem em casa. Os governadores sabem que o Governo Federal não vai fazer nada, estão querendo empurrar a responsabilidade. Estou sugerindo desde de novembro

  • de criar uma Comissão Nacional com a sociedade civil, governadores e Supremo,
  • que precisa decretar uma tutela judicial no Ministério da Saúde. Uma intervenção.
  • E essa Comissão Nacional ficaria responsável

 

P. Mas a população já não respeita as medidas de restrição. Acataria um lockdown?

R. A população nunca teve uma mensagem correta da gravidade da pandemia porque não temos nenhum estadista no país. As pessoas estão falando de sucessão presidencial em 2022 quando o país está morrendo na pandemia.

  • Faltou decisão política e visão estratégica.
  • Faltou as pessoas eleitas pensarem não nos lobbys econômicos e políticos que as sustentam, mas nos cidadãos como prioridade.
  • É preciso bancar uma decisão.

John Barry, o maior historiador norte-americano de pandemias, escreveu que, mesmo com a ciência moderna,

  • o que decide o destino de uma sociedade na pandemia é a decisão política, a opção política dos líderes de defender a população.
  • Por isso que você é eleito, para liderar mesmo nos momentos em que a coisa correta a ser feita é impopular.
  • É preciso convencer a população de que aquilo precisa ser feito.

 

PCaso não haja lockdown nacional, como tudo indica… O vírus não tem uma dinâmica própria, em que o contágio sobe muito, chega a um pico e depois começa a descer por causa da sazonalidade, entre outras questões?

R. Não quando se tem um vírus mutando fora de controle e se novas variantes são mais letais e mais contagiosas.

Cada variante tem sua dinâmica própria. Como você falou, cresce, chega ao pico e cai. Mas se você tem dezenas de variantes superpostas umas nas outras…

  • Acabaram de detectar a variante da Califórnia em Minas Gerais, porque alguém veio de avião dos Estados Unidos e trouxe ela.
  • Nós recomendamos fechar os aeroportos em agosto. Repetimos em setembro. E evidentemente a Infraero não deu bola.
  • Temos no Brasil a reunião de todas as variantes, inclusive as nossas próprias.
  • Essa é a bomba relógio.

 

P. Sendo assim, quem teve covid-19 meses trás pode acabar se reinfectando?

R. Se você foi contaminado com a variante inicial brasileira, os anticorpos que você desenvolveu são nove vezes menos eficientes para combater a nova variante amazônica.

  • Por que temos que tomar a vacina contra a Influenza a cada ano?
  • Porque as variantes surgem.
  • Mas o que estamos tendo de número de infecctados do coronavírus é muito grave, então a chance do vírus mutar é muito maior.

 

P. Você mencionou em outra entrevista a possibilidade de colapso funerário. Como isso pode se dar?

  • R. Porto Alegre já está entrando, um hospital teve de comprar containers para estocar os corpos porque não estava dando conta de manejá-los. Isso é Manaus.
  • A população cidade de São Paulo é nove vezes maior que a de Manaus. A Grande São Paulo é 20 vezes maior. Se a cidade São Paulo cai, todo o Estado de São Paulo cai.

É como uma guerra mesmo: quando um batalhão importante cai, todas as forças armadas são comprometidas. É um efeito cascata.

Minha metáfora é que somos Stalingrado, estamos cercados neste momento.

Imagem

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FELIPE BETIM

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-03-04/miguel-nicolelis-brasil-pode-cruzar-a-marca-de-3000-obitos-diarios-por-covid-19-nas-proximas-semanas.html

 

 

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1 comment to Miguel Nicolelis: “Brasil pode cruzar a marca de 3.000 óbitos diários por covid-19 nas próximas semanas”

  • Beto

    Logo no início do covide o Prefeito de Porto Feliz-SP,com aprox. 30.000 habitantes, distribuiu a toda a população um kit de preventivos, o Prefeito médico de S.Pedro dos Crentes- MA fez o mesmo e nestas 2 cidades tem apenas um e outro falecimento por causa do covide. Devem existir muitos outros exemplos neste Brasil que infelizmente não estão sendo publicados. Quem deve comandar no Brasil o problema da saúde é o Ministério da saúde e não o STF, os governadores e os Prefeitos que não entendem de saúde e a maioria deles já demonstrou que não estão nem aí pelo ser humano e sim pelo que conseguem desviar destes bilhões que o Governo Federal já enviou para eles. Se o sistema de saúde continua nas mãos do STF e dos governadores, aí o presente artigo tem razão que vai morrer ainda muita gente. A máscara continua sendo o símbolo do domínio, pois Göbbels, o chefe de propaganda do Hitler, declarou no Processo de Nürnberg: dominar um povo é simples, para isto não precisa ser nazista, apenas assustar o povo. Isto funciona em qualquer tipo de regime.- Amar o próximo é só possível levando a máxima do Filho do Homem a sério. Mas para a maioria dos governadores que a Hierarquia católica adora, acreditar no cristianismo é apenas um folclore. Mas o Filho do Homem já nos avisou: o chefe do mundo é o Satanás. Isto é folclore ou é bom tomar a sério e analisar bem o que está acontecendo? Existem bilhões de virus e justamente o corona paralizou o mundo inteiro, sem exceção. Não é uma obra prima danada quem o inventou?

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