Como a China fez Bolsonaro comer em sua mão

COLUNA TROPICONOMIA

 

Bolsonaro presenteia casaco do Flamengo ao presidente da China, Xi Jinping, em outubro de 2019

Alexander Busch – 03.02.2021

Foto: Bolsonaro presenteia casaco do Flamengo ao presidente da China, Xi Jinping, em outubro de 2019/ Agência Brazil / Palácio do Planalto

É uma arte diplomática como Pequim conseguiu, durante a pandemia, impôr seus interesses perante o Brasil. Bolsonaro caiu cegamente na armadilha. E agora sua sobrevivência política depende também dos chineses.

 

Até uns meses atrás, o presidente Jair Bolsonaro era contra qualquer tipo de vacinação contra o coronavírus. Especialmente se a vacina fosse da China.

  • Seu governo, disse ele categoricamente em outubro, não compraria a Coronavac.
  • Bolsonaro chegou a suspender temporariamente o processo de registro do imunizante junto à Anvisa.
  • Repetidamente, seu filho Eduardo e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, se revezaram para atacar a China como o culpado por trás da pandemia.

Mas agora está tudo calmo. Bolsonaro e sua claque interromperam suas investidas contra Pequim e a vacina chinesa. A razão:

  • as entregas de insumos por parte da China para a produção da vacina no Instituto Butantan, em São Paulo, não se materializaram.
  • A produção, que havia acabado de começar, corria o risco de parar.
  • E isso se tornou um problema existencial para o presidente populista de direita.

Porque,

  • por um lado, seus índices de aprovação caíram abruptamente com o fim do auxílio emergencial.
  • Por outro, cada vez mais brasileiros querem ser vacinados.

As condições catastróficas em Manaus e a fraca gestão da crise por parte do ministro da Saúde podem ter contribuído para isso. O Brasil é hoje um dos países com o menor número de pessoas que se declaram antivacina do mundo.

Tudo isso parece ter causado uma mudança de sentido em Bolsonaro.

  • Agora o governo está se esforçando para obter vacinas.
  • Mas isso é complicado quando você já destruiu pontes, como com a China.
  • Oficialmente, o presidente recorreu ao governo em Pequim para obter novos ingredientes de vacinas.
  • Quando as autoridades chinesas anunciaram novos suprimentos, Bolsonaro lhes agradeceu gentilmente pela boa cooperação.

Mas tudo isso não saiu de graça. Nos bastidores, o ministro das Comunicações, Fabio Faria, teve que mexer os pauzinhos. Pois

  • não há dúvidas sobre o que a China espera em troca de entregas rápidas de vacinas:
  • o acesso irrestrito da Huawei na licitação da rede G5.

O governo brasileiro tem até agora se recusado a admitir a empresa estatal chinesa, assim como muitos outros países ocidentais, especialmente os Estados Unidos. A acusação é de que que a China usaria a tecnologia para fins de espionagem.

Mas, desde o final da semana passada, isso parece não ser mais um problema. A Anatel, órgão regulador das telecomunicações, declarou, de repente, unanimemente que não havia objeções ao envolvimento da Huawei.

  • E no caso de o governo Bolsonaro mudar sua política em relação à Huawei, como já fez algumas vezes, foram tomadas providências:
  • os suprimentos semanais da China para a produção da vacina provavelmente ainda serão existencialmente importantes até o fim do ano, para que a campanha de vacinação não pare.

Os leilões para a rede móvel devem ser realizados em paralelo, o mais tardar na metade do ano. É difícil pensar em uma moeda de troca diplomática melhor para fazer com que outro governo cumpra sua parte.

No futuro, é provável que as escolas diplomáticas em todo o mundo analisem em detalhes a estratégia da China em relação ao Brasil nos últimos meses.

  • É uma jogada de mestre como Pequim, a partir de uma posição de fraqueza, domina agora as relações com o Brasil.
  • Afinal, a pandemia começou sua propagação global na China.
  • E a China é dependente das commodities agrícolas do Brasil.

Mas agora a influência política chinesa no Brasil é maior do que nunca. Bolsonaro caiu na armadilha. Pequim agora também decide sobre sua sobrevivência política.

 

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Alexander Busch

É  correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil. Clique aqui para ler suas colunas.

Fonte:  https://www.dw.com/pt-br/como-a-china-fez-bolsonaro-comer-em-sua-m%C3%A3o/a-56426911

 

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