Órgão do Vaticano admite que silêncio sobre filhos de padres foi um erro

(Dreamstime / Udra11)

por Elisabeth Auvillain – 01/02/2021 – Foto: Dreamstime / Udra11 / Daqui

Um órgão do Vaticano reconheceu que a Igreja Católica cometeu um erro nas décadas anteriores ao pedir a seus membros que se mantivessem em silêncio quando ouviram sobre padres que são pais de filhos.

“Antes dos nossos tempos, a Igreja fez como a maioria das instituições e evitava abordar publicamente os assuntos relativos ao comportamento dos seus membros, sobre os quais se mantinha em silêncio”,

disse o pe. Bernard Ardura, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, em um documento publicado na semana passada.

 

Vincent Doyle, filho de um padre e líder da Coping International, uma campanha global pelo reconhecimento dos filhos dos padres (Foto fornecida)

Foto: Vincent Doyle, filho de um padre e líder da Coping International, uma campanha global pelo reconhecimento dos filhos dos padres (Foto fornecida)

 

“Foi um erro, que pode ser explicado pelo contexto, mas continua a ser um erro”, disse Ardura.

O sacerdote, cujo órgão  é responsável por promover a cooperação entre o Vaticano e historiadores externos, estava escrevendo uma carta a Vincent Doyle, filho de um padre na Irlanda e líder da Coping International, uma campanha global pelo reconhecimento dos filhos de padres. A organização de Doyle publicou a carta , escrita em francês, no seu site.

“Eu enviei as perguntas ao Pontifício Comitê de Ciências Históricas principalmente porque… é especialmente importante reconhecer oficialmente os crimes das instituições no passado, crimes que duraram e continuaram por séculos”,

disse Doyle em uma entrevista ao NCR.

Reconhecer este erro é o primeiro passo para corrigi-lo, disse Doyle.

“Quando, pela primeira vez em seus 2.000 anos de história, a Igreja examina esta questão, está cumprindo a sua missão, que não é apenas uma missão de caridade, mas também uma missão de justiça”, disse ele. 

“Assim, este reconhecimento feito pelo Vaticano não é apenas histórico, mas, mais importante, é a coisa certa a fazer; na verdade, é a coisa Católica a fazer”.

 

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Pe. Bernard Ardura – Foto:  Romasette.it

Ardura disse ao NCR, numa breve entrevista, que decidiu responder a Doyle por uma questão de princípio, querendo responder a uma pessoa que lhe fazia perguntas.

“Neste caso, está em jogo muito sofrimento e muitas feridas demoram um longo tempo a sarar”, disse o sacerdote. 

“Considero isso prioritário para expressar a minha proximidade de forma concreta, ao mesmo tempo em que tento compreender de um ponto de vista histórico como e por que a instituição assumiu a sua [anterior] posição”.

“Temos que aceitar a nossa história em todos os seus aspectos e nem sempre é fácil“, disse Ardura.

Em resposta a uma das perguntas de Doyle,

  • Ardura admitiu na sua carta que
  • o silêncio em torno dos filhos dos padres teve consequências nocivas.
  • Ele ressaltou, entretanto, que, em nível local, muitas dioceses e congregações religiosas ajudaram as crianças financeiramente ou de outras maneiras.

“Infelizmente, isso não lhes tira o sofrimento, mas mostra verdadeira compaixão”, disse o padre.

Questionado sobre o que permitiu à Igreja ignorar a realidade dos padres que geraram filhos por tanto tempo, Ardura respondeu que essa escolha foi

“guiada pela convicção de que o escândalo deveria ser evitado o mais possível, temendo que ele fosse desgastar a confiança em relação aos membros do clero”.

“Hoje, reconhecemos com o Papa Francisco que isso foi certamente um erro, considerando os nossos critérios atuais, baseados na verdade e numa certa exigência de comunicar a verdade”, disse Ardura.

Esta declaração é um primeiro passo para resolver esta questão do destino destas crianças?

“A igreja tem que enfrentar esta questão, uma vez que ela não vai desaparecer”, disse Doyle. “Sempre vai haver filhos de padres, em todo o mundo”.

“Todos eles precisam de reconhecimento, respeito e amor, como qualquer outra criatura de Deus”, disse ele.

Segundo os últimos números do Vaticano,

  • há cerca de 414.000 padres católicos em todo o mundo.
  • Embora não haja um dado seguro para o número de filhos de padres,
  • Doyle disse anteriormente que o seu grupo conta com cerca de 50.000 membros em 175 países.

Então, qual é o próximo passo?

O papa  precisa reconhecer publicamente a existência destes filhos”,

disse Doyle.

“Um papa deve dizer estas palavras: ‘Os filhos dos ordenados devem ser respeitados, amados, cuidados, não negligenciados de forma alguma'”, disse Doyle.

“Eu estou desafiando o papa”, disse Doyle. “Se eu não acreditasse nele, não lhe faria este desafio, com respeito e humildade”.

“Precisamos desesperadamente de um papa em exercício que tenha a coragem espiritual de nos reconhecer… assim como ele reconheceu tantos outros grupos marginalizados”, disse ele. 

“Este silêncio de 2.000 anos criou uma solidão que penetra no coração de cada criança concebida”.

Doyle, um católico praticante, enfatiza que tem fé em Francisco, que conheceu pessoalmente em Roma em junho de 2014.

 

Our Fatheres – Foto: Daqui

Mas Doyle não acha que,

  • uma vez que um padre admite ser pai de uma criança,
  • ele deva ser automaticamente laicizado,
  • especialmente se isso significa que ele, a criança e a mãe irão viver na pobreza.

Ele sugere que o Vaticano crie uma comissão dedicada à questão dos filhos de padres e que cada caso receba a devida atenção e uma resposta única.

No seu novo livro, intitulado Our Fathers, Doyle argumenta que

  • abolir o celibato sacerdotal não é necessariamente a resposta certa.
  • A ideia de ordenar “viri probati”, homens casados ​​que podem já ter filhos, é provavelmente a solução, diz ele.

 

Elisabeth Auvillain

é uma escritora freelance francesa que vive em Paris, onde nasceu e foi criada.  Trabalhou principalmente como correspondente do diário católico francês La Croix e da Radio France Internationale . Ela é casada com o jornalista americano e colaborador da NCR Tom Heneghan. 

Fonte: https://www.ncronline.org/news/accountability/vatican-office-admits-silence-about-

 

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