O Natal de Jesus e o nosso Natal sob o Covid-19. Artigo de Leonardo Boff

O Natal de Jesus e o nosso Natal sob o Covid-19. Artigo de Leonardo Boff - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Leonardo Boff – 18 Dezembro 2020 – Foto: Pixabay

“O sentido mais profundo do Natal é este: a nossa humanidade, um dia assumida pelo Verbo da vida, pertence a Deus. E Deus, por piores que sejamos, sabe que viemos do pó e nos tem uma misericórdia infinita”, escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

Eis o artigo.

 

Natal do ano 2020 seja talvez o mais próximo do verdadeiro Natal de Jesus sob o imperador romano César Augusto.

Este imperador ordenara um recenseamento de todo o império. A intenção não era apenas como entre nós, de levantar quantos habitantes havia. Era isso, mas o propósito era cobrar de

 cada habitante um imposto, cuja soma com aquele de todas as províncias se destinava a manter a pira de fogo permanentemente acesa e sustentar os sacrifícios de animais ao imperador que se apresentava e assim era venerado como deus. Tal imposição a todos do Império provocou revoltas entre os judeus.

Esse fato, mais tarde, foi usado pelos fariseus como uma armadilha a Jesus: devia pagar ou não o imposto a César? Não se tratava do imposto comum, mas aquele que cada pessoa do império devia pagar para alimentar os sacrifícios ao imperador-deus.

Para os judeus significava um escândalo pois adoravam um único Deus, Javé, como poderiam pagar um imposto para venerar um falso deus, o imperador de Roma? Jesus logo entendeu a cilada.

  • Se aceitasse pagar o imposto seria cúmplice da adoração a um deus humano e falso, o imperador.
  • Se o negasse se indisporia com as autoridades imperiais negando-se a pagar o tributo em homenagem ao imperador-deus.

Jesus deu uma resposta sábia:Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Em outras palavras, dai a César, um homem mortal e falso deus o que é de César: o imposto para os sacrifícios e a Deus, o único verdadeiro, o que é de Deus: a adoração.

  • Não se trata da separação entre a Igreja e o Estado como comumente se interpreta.
  • A questão é outra: qual é o verdadeiro Deus, aquele falso de Roma ou aquele verdadeiro de Jerusalém?
  • Jesus, no fundo, responde: só há um Deus verdadeiro e deem a ele o que lhe cabe, a adoração. Dai a César, o falso deus, o que é de César: a moeda do imposto. Não misturem deus com Deus.

Mas voltemos ao tema: o Natal de 2020, como nunca na história, se assemelh

a ao Natal de Jesus.

  • A família de José e de Maria grávida são filhos da pobreza como a maioria de nosso povo.
  • As hospedarias estavam cheias, como aqui os hospitais estão cheios de contaminados pelo vírus.
  • Como pobres, Jesus e Maria, talvez nem pudessem pagar as despesas como, entre nós, quem não é atendido pelo SUS não tem como bancar os custos de um hospital particular.

Maria estava na iminência de dar à luz.

  • Sobrou ao casal, refugiar-se numa estrebaria de animais.
  • Semelhantemente como fazem tantos pobres que não têm onde dormir e o fazem sob as marquises ou, num canto qualquer da cidade.

Jesus nasceu fora da comunidade humana, entre animais, como tantos de nossos irmãos e irmãs menores nascem nas periferias das cidades, fora dos hospitais e em suas pobres casas.

Logo depois de seu nascimento, o Menino já foi ameaçado de morte.

  • Um genocida, o rei Herodes, mandou matar a todos os meninos abaixo de dois anos.
  • Quantas crianças, no nosso contexto, são mortas pelos novos Herodes vestidos de policiais que matam crianças sentadas na porta da casa? O choro das mães são eco do choro de Raquel, num dos textos mais comovedores de todas as Escrituras:
  • “Na Baixada (em Ramá) se ouviu uma voz, muito choro e gemido: a mãe chora os filhos mortos e não quer ser consolada porque ela os perdeu para sempre” (cf.Mt 2,18).

Do temor de ser descoberto e morto, José tomou Maria e o menino Jesus, atravessam o deserto e se refugiam no Egito.

Quantos hoje sob ameaça de morte pelas guerras e pela fome, tentam entrar na Europa e nos EUA.

  • Muitos morrem afogados, a maioria é rejeitada, como na catolicíssima Polônia, e é discriminada;
  • até crianças são arrancadas dos pais e engaioladas como pequenos animais.
  • Quem lhes enxugará as lágrimas?
  • Quem lhes mata a saudade dos pais queridos?

Nossa cultura se mostra cruel contra os inocentes e contra os imigrantes forçados.

Depois que morreu o genocida HerodesJosé tomou Maria e o Menino e foram esconder-se num lugarejo tão insignificante, Nazaré, que sequer consta na Bíblia. Lá o Menino “crescia e se fortalecia cheio de sabedoria“(Lc 2,40).

Aprendeu a profissão do pai José, um fac-totum, construtor de telhados e coisas da casa, um carpinteiro. Era também um camponês que trabalhava o campo e aprendia a observar a natureza. Ficou lá escondido até completar 30 anos, foi quando sentiu o impulso de sair de casa e começar a pregação de uma revolução absoluta:

”O tempo da espera expirou. A grande reviravolta está chegando (Reino). Mudem de vida e acreditem nessa boa notícia”(cf.Mc 1,14):

uma transformação total de todas as relações entre os humanos e na própria natureza.

Conhecemos seu fim trágico.

Passou pelo mundo fazendo o bem (Mc 7,37; Atos 10,39),

  • curando uns,
  • devolvendo os olhos a cegos,
  • matando a fome de multidões
  • e sempre se compadecendo do povo pobre e sem rumo na vida.

Os religiosos articulados com os políticos o prenderam, torturaram e o assassinaram pela crucificação.

Saiamos destas “sombras densas” como diz o Papa Francisco na Fratelli tutti. Voltemos o olhar desanuviado para o Natal de Jesus. Ele nos mostra a forma como Deus quis entrar na nossa história: anônimo e escondido. A presença de Jesus não apareceu na crônica nem de Jerusalém e muito menos de Roma. Devemos aceitar esta forma escolhida por Deus. Realizou-se a lógica inversa da nossa:

“toda criança quer ser homem; todo homem quer ser grande; todo g

rande quer ser rei. Só Deus quis ser criança”. E assim aconteceu.

Aqui ecoam os belos versos do poeta português Fernando Pessoa:

“Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
É a criança tão humana que é divina”.

Tais pensamentos me trazem à memória uma pessoa de excepcional qualidade espiritual.

  • Foi ateu, marxista, da Legião Estrangeira. De repente sentiu uma comoção profunda e se converteu.
  • Escolheu o caminho de Jesus, no meio dos pobres. Fez-se Irmãozinho de Jesus. (Charles de Foucauld – NdR) 
  • Chegou a uma profunda intimidade com Deus, chamando-o sempre de “o Amigo”. Vivia a fé no código da encarnação e dizia:
  • “Se Deus se fez gente em Jesus, gente como nós, então fazia xixi, choramingava pedindo o peito, fazia biquinho por causa da fralda molhada”.

No começo teria gostado mais de Maria e mais grandinho mais de José, coisa que os psi

cólogos explicam no processo da realização humana.

Foi crescendo como nossas crianças, observava as formigas, jogava pedras nos burros e,

maroto, levantava o vestidinho das meninas para vê-las furiosas, como imaginou irreverentemente Fernando Pessoa em seu belo poema sobre o Jesus menino.

Esse homem, amigo do Amigo,

“imaginava Maria ninando Jesus, fazê-lo dormir porque de ta

nto brincar lá fora, ficava muito excitado e lhe custava fechar os olhos; lavava no tanque as fraldinhas; cozinhava o mingau para o Menino e comidas mais fortes para o trabalhador o bom José”.

Esse homem espiritual italiano que viveu, muitas vezes ameaçado de morte, em tantos países da América Latina e vários no Brasil, Arturo Paoli, se alegrava interiormente com tais matutações, porque as sentia e vivia na forma de comoção do coração, de pura espiritualidade. E chorava com frequência de alegria interior. Era amigo do Papa que o mandou buscar de carro na cidadezinha uns 70 km de Roma para passarem toda um tarde e falarem da libertação dos pobres e da misericórdia divina. Morreu com 103 anos como um sábio e santo.

Não esqueçamos a mensagem maior do Natal: Deus está entre nós, assumindo a nossa condition humaine, alegre e triste.

  • É uma criança que nos vai julgar e não um juiz severo.
  • E esta criança só quer brincar conosco e nunca nos rejeitar.

Finalmente, o sentido mais profundo do Natal é este: a nossa humanidade, um dia assumida pelo Verbo da vida, pertence a Deus.

E Deus, por piores que sejamos, sabe que viemos do pó e nos tem uma misericórdia infinita. Ele nunca pode perder, nem deixará que um filho seu ou filha sua se perderão.

Assim, apesar do Covid-19 podemos viver uma discreta alegria na celebração familiar. Que o Natal nos dê um pouco de felicidade e nos mantenha na esperança do triunfo da vida sobre o Covid-19.

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Leonardo Boff

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/605685-o-natal-de-jesus-e-o-nosso-natal-sob-o-covid-19-artigo-de-leonardo-boff

 

 

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