Natal: Deus sem máscara

Anselmo Borges – 19/12/20 – Foto: Daqui

Como faz falta vermo-nos cara a cara, falar cara a cara, tocarmo-nos, sorrir, rir, colocar os sentidos todos alerta na presença viva dos outros. Passámos a vida a dizer às crianças: “Dá um beijo ao avô, um beijo à avó, um beijo à tia…”.

1. Ia eu na rua e uma jovem interpelou-me:
– “Já não se lembra de mim? Até me baptizou…”. E eu:
“Puxa um pouquinho a máscara”, e ela puxou.
– “Continuas linda, Susana!…”.
Se eu algum dia imaginei que havíamos todos de andar de máscara! Antes também havia muita gente mascarada, mas as máscaras eram outras…
Agora, impomo-nos o uso da máscara a nós próprios, por causa de nós e dos outros:
  • para nos protegermos a todos, ao mesmo tempo que nos desprotegemos,
  • porque ficamos sem a presença dos outros.

Como faz falta vermo-nos cara a cara, falar cara a cara, tocarmo-nos, sorrir, rir, colocar os sentidos todos alerta na presença viva dos outros. Passámos a vida a dizer às crianças: “Dá um beijo ao avô, um beijo à avó, um beijo à tia…”.

Agora, de repente, é tudo ao contrário, como se os outros fossem inimigos, pois até viramos as costas… Apertávamos as mãos, porque apertar as mãos é um gesto de encontro na paz: as mãos livres de armas vão ao encontro do outro, sem medo. Abraçávamo-nos de alegria pelo reencontro ou chorando pelo luto ou antecipando a saudade pela despedida.

  • Agora, não há proximidade, até nos mandam, e bem, manter a distância (e até se dizia: “a distância social”,
  • mas eu espero que seja só a distância física, espero que a outra — a espiritual, a afectiva — se mantenha e aprofunde).
Foi precisa a pandemia para que se nos tornasse inválida a afirmação de Sartre: “O inferno são os outros”. Afinal, é o contrário: a falta dos outros é que é o inferno, a solidão é um inferno.

2. Não é só, mas também, pela ausência ou pela perda que tomamos verdadeira consciência do valor das coisas e das pessoas. A falta que nos fazem os outros! Só quando alguém se nos morre é que verdadeiramente nos apercebemos da importância e valor dessa pessoa na nossa vida. A falta que nos faz o Natal, o Natal que dizemos normal! Mas essa falta também pode e deve ser uma oportunidade para um Natal melhor, mais verdadeiro, mais autêntico, mais íntimo, mais solidário. Afinal, esfalfávamo-nos na correria ditatorial das compras e esquecíamo-nos do essencial!

E o que é o essencial? Talvez já tivéssemos esquecido,
  • mas o Natal é, antes de mais, a celebração deste acontecimento determinante da História:
  • o nascimento de Jesus, o nascimento do ser humano bom, verdadeiro.

Seja como for, não há figura histórica mais estudada (ainda há dias o especialista em cristianismo primitivo, que é agnóstico, Antonio Piñero, lembrava que continuam a ser publicados anualmente uns mil novos livros sobre Jesus) nem mais amada.

O que há neste homem, nascido há mais de dois mil anos, para arrastar multidões e ser uma referência determinante para a Humanidade?
  • Segundo o ateu Ernst Bloch, Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”,
  • e Umberto Eco, que se dizia agnóstico, escreveu que, se fosse um viajante proveniente de galáxias longínquas, ao encontrar-se frente a uma Humanidade que soube propor o modelo de Cristo, com o amor universal, o perdão dos inimigos, a vida oferecida em holocausto pela salvação dos outros, “consideraria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, redimida pelo simples facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto é a Verdade”.
  • Eduardo Lourenço, recentemente falecido, disse: “Não há nada superior a Jesus”.
  • Até Nietzsche reconheceu, no seu O Anticristo, que no fundo só houve um cristão, mas esse morreu na cruz, e acrescentou:

“Só uma vida como a daquele que morreu na cruz é cristã”.

Que vida foi essa? Porque é que o mataram? 
  • Foi morto como blasfemo. Ergueu-se contra o Templo e a religião oficial que, em vez de libertarem o Homem, o esmagavam.
  • Levantou-se contra o Sábado.

“O Sábado é para o Homem e não o Homem para o Sábado” constitui talvez a afirmação mais revolucionária da história da consciência humana, pois coloca como critério último dos mandamentos do próprio Deus a realização e o bem-estar do ser humano.

Não era um asceta, e foi apelidado de “comilão e beberrão”: a salvação e a alegria são desde já e aqui, para todos.
Foi morto como subversivo sócio-político.
Os seres humanos têm todos igualdade radical na dignidade inviolável, porque divina: já não há
  • judeu nem grego
  • nem homem nem mulher
  • nem branco nem negro
  • nem adulto nem criança
  • nem livre nem escravo
  • nem religioso nem ateu.

Rebeldemente livre,

  • Jesus não prestou culto nem a César nem ao Dinheiro,
  • e o Deus a quem tratava terna e filialmente por Pai (também pode ser tratado por Mãe) não quer sacrifícios, mas misericórdia,
  • e não se adora nem em Jerusalém nem em Guerizim, mas em espírito e verdade.

A sua Boa Nova é o Reino de Deus da filadélfia, um Reino de amigos e irmãos. 

A história das revoluções que têm Jesus na sua base está ainda por escrever. A maior delas é a revolução da ideia de Deus
  • Quereríamos um Deus-Poder que justificasse o nosso poderio de mando e subordinação.
  • Mas o Deus de Jesus não se confunde com o Poder da dominação,
  • Ele é omnipotente, não no sentido de dominar, mas como Força infinita de criar e promover.

Por isso, no Natal, não veio em poder e glória, mas humilde, revelou-se num rosto de criança, que chora, que ri, que se pode tocar. Um Deus que não está longe, mas próximo dos homens e das mulheres, dos jovens e das crianças, um Deus bom, amigo, amável e misericordioso para todos.

Para os cristãos, a Transcendência divina tem um rosto reconhecível, sem máscara: o homem Jesus, confessado como o Cristo e Filho de Deus. 

Bom Natal!

Anselmo Borges

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