O espírito de Jesus de Nazaré (1.2) – O espírito da igreja.

CONTINUAÇÃO:

O sacramento da Ordem Desde os tempos apostólicos a Igreja serviu-se de um rito que chamamos ordenação . Esse rito a teologia católica considera como um. - ppt carregar

 

Eduardo Hoornaert – 16/12/20 – Foto: Divulgação

O judaísmo do deserto (Aarão) e do Templo (Jerusalém) se vinga e inocula no cristianismo a saudade do Santuário, do Santo dos Santos, dos umos Sacerdotes, das Páscoas e dos Pentecostes, dos levitas e dos 19 mil sacerdotes a percorrer o mundo (esse foi o número de sacerdotes a percorrer a Palestina em tempos de Jesus). 

Hipólito trabalha com emoções, com gestos e liturgias, que, por sua vez, redundam numa nova disciplina eclesiástica e em novos dogmas.

Emerge a classe sacerdotal, enquanto o ‘povo de Deus’ é reduzido ao silêncio.

 

 

O espírito da igreja.

Aqui temos de dar uma parada e nos deter por uns instantes em acontecimentos de 17 séculos atrás, mas que redundaram em consequências que se fazem sentir até os dias de hoje: o progressivo distanciamento entre o espírito de Jesus e o espírito da igreja.

Como esse tema é delicado e atinge a emocionalidade das pessoas, temos de cuidar em não ferir inutilmente sentimentos de pessoas que amam a igreja e nela se empenham. Nesse sentido só apresento aqui considerações de tipo histórico, pois ‘contra fatos não há argumentos’.

Determinados fatos são inelutáveis, mesmo sendo praticados em tempos tão longínquos. Fatos que surtiram efeitos ‘de longa duração’, que perduram em mentes e corações por longos séculos.

É nesse sentido que leio as considerações de Moingt nas páginas 210-211 de referido livro:

  • o percurso do Espírito Santo, ao longo da história do cristianismo, não foi fácil.
  • A missão, a ele confiada por Jesus, de ser do Defensor e o Instrutor dos pequenos, teve de encontrar refúgio nos desertos ou nos mosteiros,
  • pois, por longos séculos, as cidades estavam ocupadas por bispos aliados à administração do Império Romano.
  • Nos mosteiros havia como contemplar a Deus, estudar suas Palavras, fortalecer a vontade de escapar à dominação do mundo.
  • As comunidades espalhadas pelo universo cristão cumpriam a mesma missão, uma ação lenta e secreta do Espírito.

Como entender a frase: as cidades estavam ocupadas por bispos aliados à administração do Império Romano? Desde quando? Como? Em que circunstâncias?

Mais uma vez, Moingt abre o caminho.

A partir da página 229 do citado livro, ele chama a atenção ao que acontece em Roma no início do século III e como aí, paulatinamente, um novo espírito toma conta da tradição cristã.

Um prenúncio vem de escritores com Tertuliano, que se inquietam com o que observam nas comunidades. Esse último escreve: há uma força poderosa que ‘expulsa a profecia, afugenta o espírito’ (prophetiam expullit, paracletum fugavit).

Na época, uma força poderosa emana de Roma, o centro do Império, onde reside o bispo Hipólito (170-236).

 

Hipólito de Roma - Tradição Apostólica - Liturgia e Catequese em Roma no Século III | Igreja Católica | EucaristiaFotos: Reprodução TH n°040 NAISSANCE D’UNE HIÉRARCHIE

Por volta dos anos 215-218, esse bispo edita um documento, chamado ‘Traditio Apostolica’, cujo texto original foi reconstituído graças a um trabalho lento e penoso por parte de historiadores (veja: Faivre, A., Naissance d’ une Hiérarchie, Les premières étapes du Cursus clérical, Beauchesne, Paris, 1977).

O texto trata de ordenamentos litúrgicos. Na introdução, Hipólito deixa transparecer que,

  • lendo os livros Êxodo e Levítico da Bíblia hebraica,
  • ele ficou impressionado com a figura de Aarão, irmão de Moisés, que se declara o primeiro ‘Sumo Sacerdote’ de Israel e reorganiza a liturgia a ser praticada pelo povo hebreu durante o longo percurso pelo deserto.

Ele não se refere ao que, consciente ou inconscientemente, se opera em sua mente ao contemplar a organização da religião romana hegemônica, em seu redor. Apenas recorda que o Sumo Sacerdote Aarão, durante a longa travessia dos hebreus pelo deserto do Sinai,

  • manda construir uma ‘Tenda de Ihwh’, um Tabernáculo portátil a acompanhar os hebreus ao longo de quarenta anos.
  • As prescrições rituais são extremamente minuciosas e anotadas com cuidado nos referidos livros bíblicos:
  • a Tenda de Ihwh só é acessível a sacerdotes e só o Sumo Sacerdote tem licença de penetrar no Santo dos Santos.

 

Eis, segundo Hipólito, o que convém realizar no cristianismo. Ele mesmo se apresenta como o primeiro sacerdote cristão, o primeiro de gerações e mais gerações de sacerdotes.

  • Ele manda que se coloque um altar no centro das igrejas, só acessível ao bispo, seu diácono, seus presbíteros e membros de seu conselho, devidamente ordenados.
  • Os proclamadores da Palavra, espalhados pelo universo cristão, que já atuam 150 anos, conforme indicam as Cartas de São Paulo, não têm acesso a esse altar.
  • A mesa eucarística comunitária das origens, doravante, se realiza nesse um altar
  • e, desse modo, a tradicional ceia fraterna se transforma numa ‘missa’ em que os fiéis dizem ‘amém’ quando convidados pelo bispo-sacerdote, conforme o ritual.

No final, eles ouvem as palavras ‘Ite, missa est’, e se retiram para suas casas.

Os ordenamentos litúrgicos de Hipólito estão em flagrante oposição com o que se lê no Novo Testamento, que proclama que os tempos do sacerdócio ‘aarânico’ e levítico passaram.

A Carta aos Hebreus deixa claro que

  • o culto organizado por Aarão foi provisório e que Jesus o aboliu ‘uma vez por todas’.
  • Doravante não há mais sacerdócio, já que ‘todos são sacerdotes’. Dispensa-se a mediação sacerdotal entre Deus e os homens.

Encontramos a mesma firme afirmação na primeira Carta de Pedro, com uma abundância de citações bíblicas

  • (1 Pedro 2, 4-9): doravante, a comunidade forma a ‘nação santa, a raça eleita, o sacerdócio real, o povo de Deus’.
  • O sacerdócio levítico passou, o povo reunido em comunidade constitui o ‘clero’ de Deus (5, 3).
  • Derruba-se o antigo muro, não se tolera mais nenhum tipo de intermediação entre Deus e seu povo.

Essas ideias, muito avançadas, não penetram facilmente no emergente movimento de Jesus.

  • Não sai de uma hora para outra a imagem ancestral e arquetípica do sacerdote,
  • que emana de um enraizado imaginário religioso em torno de figuras intermediárias entre Deus e os homens,
  • criador de templos, santuários, lugares sagrados e sacerdócios.

Decerto,

  • um antídoto contra esse poder imaginado era vivenciado, na época de Jesus, nas sinagogas.
  • Mas a sinagoga foi logo abandonada pelo movimento cristão,
  • que desse modo não encontrou suficiente força para reagir contra o ressurgimento do imaginário sacerdotal,
  • principalmente quando esse encontrou apoio na leitura da antiga história de Israel e do funcionamento do sacerdócio aarânico e levítico,
  • como no caso de Hipólito, que pode ser compreendido como uma vingança diante da ousadia de Jesus e de seu movimento.

O judaísmo do deserto (Aarão) e do Templo (Jerusalém) se vinga e inocula no cristianismo a saudade

  • do Santuário,
  • do Santo dos Santos,
  • do
  • umos Sacerdotes,
  • das Páscoas e dos Pentecostes,
  • dos levitas e dos 19 mil sacerdotes a percorrer o mundo (esse foi o número de sacerdotes a percorrer a Palestina em tempos de Jesus).

Hipólito trabalha com emoções, com gestos e liturgias, que, por sua vez, redundam numa nova disciplina eclesiástica e em novos dogmas. Emerge a classe sacerdotal, enquanto o ‘povo de Deus’ é reduzido ao silêncio.

  • s S

É de se admirar

  • que uma reforma (litúrgica, disciplinar, doutrinária) tão destoante do espírito de Jesus tenha vigorado durante tantos séculos
  • e nem hoje esteja submetida a uma crítica que consiga se firmar na igreja atual.

Ainda precisamos de pessoas como Joseph Moingt e outros, a nos abrir os olhos diante de um fato patente:

  • o espírito da igreja, que se manifesta na liturgia e nos dogmas,
  • destoa do espírito de Jesus de Nazaré.

Hipólito é o primeiro sacerdote na história do cristianismo, o precursor de gerações de sacerdotes que se sucedem por mais de 17 séculos. Mesmo tendo sido, como nos informam os historiadores a partir de documentos disponíveis, uma figura intrigante e polêmica, usurpadora do poder hegemônico na igreja de seu tempo,

  • Hipólito consegue formar um arcabouço litúrgico
  • que conta com o apoio dos administradores do Império Romano
  • e desse modo se firma na tradição.

Com ele se abre virtualmente um amplo leque de imagens de esplendor, luz, glória, louvor, hinos e cânticos, vestimentas esplendorosas.

Enfim, com Hipólito retorna o ancestral universo de sonhos religiosos.

Ele

  • cria um clima religioso, evoca antigas saudades, anseios, antes imaginados que explicitados, no sentido de sair do acanhamento e da modéstia de liturgias domésticas para alçar voos altos de prestígio e realização de vaidades.
  • Ressuscita uma ‘saudade levítica’, sempre presente nas religiões, evoca memórias do Templo e de suas esplêndidas e fascinantes cerimônias,
  • realça a figura do bispo, antes modesta e serviçal, a um patamar nunca dantes imaginado,
  • silencia os intelectuais, marginaliza os críticos, confere uma importância dantes inexistente a ‘ordenações’ e ‘imposições das mãos’,
  • ativa a vaidade clerical, faz com que os ‘doutores’ e ‘profetas’, antes altamente prestigiados, percam sua independência na igreja,
  • reserva a função de ensinar à hierarquia.

No século V, o Papa Leão Magno (440-461) completa a evolução ao decretar:

 Ut praeter sacerdotes nullus audeat praedicare, sive monachus, sive laicus, cuiuslibet scientiae nomine glorietur (Epistula 210, 6: ‘que ninguém se atreva a pregar, além dos sacerdotes, seja ele monge, leigo ou versado em qualquer ciência’).

Em outras palavras,

  • o poder executivo engole a profecia,
  • os pastores engolem os doutores.

Uma apropriação, para dizer a verdade, sempre contestada.

No século XIII,

  • Santo Tomás ainda coloca o doutor ao lado do bispo,
  • numa relação horizontal.
  • Para ele, a igreja funciona bem quando a Cathedra magistralis (Cátedra magistral NdR) fica ao lado da Cathedra pastoralis (Cátedra Pastoral – NdR) (Quodlibet 1ª, 14).

Mas isso funciona na cabeça de teólogos e intelectuais. Na vida cotidiana, a hierarquia sempre leva vantagem, a corte episcopal se fecha, a sacerdotalização dos quadros eclesiásticos prossegue seu curso.

A sacerdotalização da imagem do bispo vem de mãos dadas com a passagem

  • da ‘auctoritas scripti’ (a autoridade do escrito, mantida por ‘mestres’ ou ‘profetas’)
  • à ‘auctoritas episcopi’ (a autoridade do bispo).

Adolf von Harnack, grande especialista nos estudos dos primeiros séculos cristãos, escreve:

‘Na segunda parte do século III não era mais suficiente – a não ser em comunidades afastadas – guardar a fé; era também preciso obedecer a um bispo’.

A ideia de um elo que liga todas as comunidades através da fé retrocede paulatinamente diante da ideia da interligação através de regras disciplinares, já que os bispos se invocam o papel de ‘sucessores dos apóstolos’.

Vitória da burocracia sobre o espírito, supremacia da instância administrativa sobre a vida concreta do corpo social.

A expressão ‘Tradição apostólica’, na realidade, tem um sentido irônico, pois no decreto de Hipólito se trata de substituir a tradição apostólica pelo que se pode chamar de ‘tradição da conveniência’.

  • Doravante, fica inconveniente ter mulheres na liderança de comunidades cristãs.
  • Não convém que elas dirijam reuniões da comunidade.
  • Na administração do batismo, a mulher pode ajudar as mulheres a descer dentro da água e a subir do rio, mas é sempre um homem que pronuncia as palavras.

Esse tipo de ordenamento faz com que se passe a preferir uma liturgia mais ‘ordenada’, com programações preparadas de antemão. As improvisações, frequentemente inconvenientes, são afastadas. Ninguém interfere na hora da leitura. O modelo profético, doutoral, sinagogal, rabínico e plural entra em conflito com o modelo pastoral, episcopal, unitário, ortodoxo. A tradicional ‘didascalia’ cede diante de novas regras. Na liturgia aparecem, pela primeira vez, fórmulas fixas nos ritos de batismo, eucaristia, bênçãos e orações. O bispo aparece com um livro na mão, o Ritual.

O ordenamento da liturgia acarreta consigo uma nova arrumação dos ministérios.

Três ministérios se sobressaem: episcopado, presbiterado e diaconato.

Os demais ministérios da tradição anterior, como os de

  • ‘confessores’,
  • ‘viúvas’,
  • leitores,
  • virgens,
  • subdiáconos
  • e terapeutas

ficam ‘arrumados’ na base do novo organograma.

Nem sempre resulta fácil enquadrar ministérios existentes no novo esquema hierárquico.

Assim

  • fica difícil colocar os ‘confessores’, ou seja, os que professam a fé em situações de perseguição, abaixo de bispos, presbíteros e diáconos,
  • pois gozam de imenso prestígio junto às comunidades.

Por séculos, os ‘confessores’ constituem uma espécie de ministério à parte, ou seja, conservam um caráter pré-hierárquico por séculos.

Algo parecido acontece com os ministérios ligados à cura.

  • Os terapeutas são carismáticos por excelência: não se ‘transmite’ o dom de curar por meio de ritos e ordenações.
  • Esse ministério desaparece aos poucos do organograma hierárquico
  • e se refugia no cristianismo anônimo do povo.

O realmente novo na ‘Traditio Apostolica’ é, pois,

  • o princípio hierárquico, ou seja, o estabelecimento de uma escala de superioridade-inferioridade entre os diversos ministérios.
  • Na lógica desse novo princípio, uma série de inovações ocorre no seio do corpo social cristão num lapso relativamente curto de tempo.
  • Assim a imposição das mãos, que tradicionalmente indicava o carisma, passa a conferir o ‘poder’ de exercer certas funções litúrgicas e administrativas.

Da mesma forma o bispo tem o ‘poder’ de oferecer a eucaristia, perdoar os pecados, ensinar e distribuir os demais cargos eclesiásticos.

No novo organograma

  • se verifica um deslizamento gradual do conceito de diaconia,
  • ou seja, da ideia que os carismas se destinam a servir a comunidade.
  • Aparece a ideia do mando e do governo, do poder da instituição.

Esse deslizamento deve muito à influência do ambiente, pois o modelo das organizações na sociedade greco-romana era pronunciadamente hierarquizado. Nesse modelo, não há mais espaço para os tradicionais exorcistas (expulsadores de demônios – NdR).

Eles, que tinham ocupado um lugar central nos inícios, ficam relegados ao plano de encarregados de um exorcismo cerimonial na hora do batismo. Aos poucos ocupam um lugar inferior e puramente formal na hierarquia de serviços eclesiásticos. Representam uma memória quase desaparecida de uma época em que eram os ministros mais importantes na expansão do cristianismo.

Eis o que me parece importante considerar nos dias de hoje, entre cristãos. Não é pouca coisa.

Por vezes tenho a impressão que a luta pela recuperação do espírito de Jesus por meio de uma revisão global de ordenamentos do passado, em vigor até hoje em igrejas cristãs, está apenas no começo.

 

SEGUE…

.

Eduardo Hoornaert

Padre casado, belga, há mais de 50 anos no Brasil, professor, historiador, com mais de 20 livros publicados.

Dedica-se nestes últimos anos, à pesquisa sobre os Inícios do Cristianismo e sobre o Movimento de Jesus

Fonte:  http://eduardohoornaert.blogspot.com/2020/12/o-espirito-de-jesus-de-nazare-1.html

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>