O caso McCarrick

 

rapporto mccarrick

Gianni Criveller – 8 de dezembro de 2020 / Foto: Daqui

Após a leitura do relatório, fico com a dolorosa impressão de um personagem inquietante, que se move num mundo inquietante. Nesta história, parecem ter marcado encontro os piores males da igreja: clericalismo, machismo, paternalismo, abusos de poder, abusos sexuais, abusos infantis, corrupção, mentira, perjúrio, carreirismo, ambição, hipocrisia, encobrimento, irresponsabilidade, desleixo … e assim por diante, causando desgraças.

 

Durante algumas noites, quase sem dormir, li as 449 páginas e 1.410 notas (o diabo, como dizem, está nos detalhes) do relatório do Vaticano sobre o (ex) cardeal McCarrick.

  • Alguém me perguntou por que dedicar tempo a uma leitura cujo desfecho deprimente é óbvio desde o início.
  • Acho que devemos ler até sobre as piores circunstâncias da época em que vivemos, para carregarmos o seu peso e sentirmos a responsabilidade por elas.
  • Depois alguém me perguntou o que eu gostaria de obter com o texto que estou compartilhando.

Escrevi-o  por uma exigência interior,

  • movido pela urgência de que a igreja, a partir dos seus responsáveis,
  • tome consciência de que não se pode esperar mais.

Ou se promovem mudanças estruturais (além das da consciência, como é óbvio), ou não se superará esta crise que afasta tantos da vida eclesial e da prática da fé.

Quando tudo é inquietante

Li o relatório McCarrick também porque tinha uma curiosidade direta. Lembro-me bem de meu encontro com ele em 1998 em Hong Kong, após uma sua importante viagem à China em nome do presidente Clinton (isto é mencionado no relatório). O bispo auxiliar de Hong Kong, John Tong, incluiu-me entre os convidados de um jantar num bom restaurante da cidade.

Estavam lá também dois missionários americanos meus colegas no Holy Spirit Study Center (o centro da igreja de Hong Kong para a China, onde eu trabalhava como pesquisador) e um presbítero que acompanhava McCarrick. Este último era então bispo de Newark e já bastante conhecido. Ele contou-nos extensamente sobre a viagem.

As habilidades de McCarrick eram indiscutíveis. Ele conseguiu ter a seu favor os políticos americanos mais poderosos e a cúpula do Vaticano.

Após a leitura do relatório, fico com a dolorosa impressão de um personagem inquietante, que se move num mundo inquietante.

Nesta história, parecem ter marcado encontro os piores males da igreja:

  • clericalismo, machismo, paternalismo,
  • abusos de poder, abusos sexuais, abusos infantis,
  • corrupção, mentira, perjúrio, carreirismo,
  • ambição, hipocrisia, encobrimento,
  • irresponsabilidade, desleixo

… e assim por diante, causando desgraças.

No fim nem sequer fiquei surpreso, e digo isso com pesar. Quem quer que  estivesse  suficientemente informado, mesmo sem conhecer detalhadamente  os acontecimentos, poderia muito bem antecipar o que tinha acontecido, o mecanismo por trás disso…

Mas isso não muda a amargura, a tristeza, a decepção e a sensação de impotência… Acho que estas histórias, que dizem respeito aos mais altos vértices da igreja, são realmente insuportáveis.

 

Testemunhas

Fiquei comovido com o testemunho da Mãe 1 (pp. 37-46): mãe com filhos numerosos, ela é uma mulher esmagada pela difusão de uma Igreja machista e hiperinvasora.

Ela e o marido, muito devotos, acolhem o jovem bispo na sua casa como um membro da família.

  • Em pouco tempo, com os olhos de mãe, ela percebe tudo que o Vaticano levou 40 anos para perceber.
  • A mãe percebe que a McCarrick as filhas não interessam mesmo. Portanto, não é a caridade pastoral que o move. Ele tem olhos, entusiasmo e iniciativas apenas para os filhos homens e envolve-os de maneira invasiva.

E depois ela vê o que não teria querido ver. Não consegue acreditar no que vê, não sabe com quem falar. Ela teme a retaliação dele, que é poderoso. A mãe não sabe como agir num clube de machos, como lhe deve ter parecido ser a igreja.

Utiliza um meio inadequado, a denúncia anônima.

Ela não sabe mais o que fazer,  convencida de que ninguém a iria realmente escutar.

O que há de evangélico numa igreja que, aos olhos de tantos e de tantas, nada mais é que um clube só para homens que se encobrem uns aos outros? 

O que deve ainda acontecer para que seja enfrentada, de maneira verdadeiramente séria, a questão de que o povo de Deus é composto por mulheres e homens, e que todos os batizados participam responsavelmente e com igual dignidade na vida da igreja?

A devoção desta mulher e mãe fez-me pensar no meu pai, um crente extraordinário, pai de dez filhos, quatro dos quais entraram no seminário. Ele tinha uma veneração total pela dignidade do sacerdócio e uma confiança ilimitada nos padres e nos bispos. A ideia de que eles pudessem fazer mal a alguém nem sequer lhe  passava pela cabeça. Em poucas décadas, esse patrimônio, que compartilhei, foi perdido.

  • Agora padres e bispos têm uma reputação igual a zero em várias sociedades e nações, entre a maioria dos jovens e até mesmo nos ambientes eclesiais.
  • Eu vi isso, de maneira dramática, na Irlanda (agora ex-católica) no verão de 2019;
  • o mesmo está acontecendo agora na Polônia.

 

Não à retórica

Afirmar – como se costuma fazer – que a Igreja é feita de santos e de pecadores

  • é uma fácil escapatória espiritualista para eludir a gravidade da situação,
  • pensando talvez que se tratou de um incidente isolado. Mas não é assim.
  • E estas palavras tranquilizadoras parecem-me uma superficialidade insuportável e um álibi fácil até demais.

A história demonstra-o: quando a Igreja não enfrentou com sinceridade, tempestividade e eficácia os problemas que se lhe deparavam, verificaram-se danos irreparáveis:

  • divisões irrecuperáveis,
  • nações inteiras perdidas para a fé católica,
  • cismas (declarados ou silenciosos),
  • afastamento de tantas pessoas da vida de fé.

O meu interesse direto nos casos de abuso começou em 2003, quando em Hong Kong  – na sequência dos escândalos  de Boston – estourou o clamor da mídia sobre os abusos dos padres. Fui chamado para escrever sobre isso e falar disso em várias transmissões televisivas. A Cúria de Hong Kong deu-me um maço de textos para eu ler e me preparar. Em poucos dias aprendi muita coisa.

Depois disso passaram-se 17 anos e agora sabe-se  ainda mais. Foi irritante ver clérigos – mesmo com altíssimas responsabilidades no Vaticano –

  • tratar estes temas com uma superficialidade temerária, sem realmente saber do que estão falando,
  • sem seriedade, sem perceber a gravidade:
  • a gravidade da dor das vítimas;
  • a gravidade do escândalo entre o povo de Deus.

Competências e formação

Como coordenador da comissão para a formação continuada no PIME, eu quis que o tema dos abusos fosse tratado de forma sistemática por pessoas competentes. Não sem tropeçar em pessoas que, indiferentes, nos diziam: “Já chega destes discursos!”

Como diretor da escola teológica do PIME, empenhei-me em fazê-lo mesmo assim. Agora nosso currículo acadêmico inclui (foi-nos dito que somos os primeiros na Itália) um seminário sobre a proteção de menores e adultos vulneráveis, ministrado pelos melhores especialistas disponíveis em Milão.

Introduzimos um curso sobre “Mulheres, bíblia e teologias” que tem – entre outras –

  • a ambição de desclericalizar a mentalidade
  • com a qual muitos se apresentam para o ministério ordenado.

Pelo mesmo motivo, aumentámos o número das professoras e dos professores leigos.

Os que apoiavam McCarrick

  • acreditavam na sua inocência,
  • apesar de estarem sabendo da sua prática ocasional de dormir com seminaristas e padres. Para eles era apenas imprudência!
  • Também admitiam que era evidente que o bispo tinha uma ambição sem  limites.  Mas para eles era um pecado venial.

Os comentaristas do relatório concordam que muitos de nós ficámos  calados e mentimos sobre McCarrick, incluindo bispos (cujos nomes foram mencionados), reitores de seminários, padres com funções importantes… para proteger as suas aspirações carreiristas. McCarrick era poderoso, não era conveniente criar-lhe obstáculos.

No entanto, Jesus não tolera a ambição aos primeiros lugares: ele opõe-se com grande severidade, à busca do poder, da fama, da glória e… dos títulos eclesiásticos (“a ninguém chameis   de  pai na terra” [Mt 23,9]).

Já há anos Bento XVI e Francisco vêm pregando contra o carreirismo e o clericalismo, mas com que resultados?

Ministério como carreira

  • Uma Igreja que está há séculos imersa na prática anti-evangélica das honras, das carreiras, dos títulos (santidade, eminência, excelência, monsenhor…) e todas as pompas conexas,
  • como pode ela imaginar que tem os anticorpos para rejeitar os maus costumes, o carreirismo, e continuar a ser a igreja segundo o coração de Jesus?

Não seria a hora de parar, de uma vez por todas, com este andaço vergonhoso? Por que não eliminar títulos, honras, procedimentos de carreira e de alianças espúrias que são a base do carreirismo e do clericalismo que se gostaria de eliminar?

Carreirismo e corrupção costumam andar juntas. Em 2000, o cardeal de Nova York John O’Connor tinha pedido ao papa que não promovesse McCarrick. Mas este perjurou que era inocente, enganando o papa com uma carta que foi endereçada, contrariando o protocolo, ao seu secretário pessoal.

McCarrick contava com uma relação amistosa e com outras correspondências, mencionadas na carta mentirosa, mas não entregues aos redatores do relatório. Há algo de sombrio nesta passagem crucial que teve consequências catastróficas. Há um perjúrio (Jesus diz para nunca jurar!) e uma ruptura do princípio da prudência.

Também somos informados de que, todos os anos no Natal,

  • McCarrick dava presentes a altos eclesiásticos do Vaticano, e que essa prática durou até 2017.
  • No relatório não se diz quem são. (Mas sabemos disso,  devido a  uma investigação do Washington Post de 27 de dezembro de 2019, que informa inclusive os valores transferidos).

Isso também é normal?

Eu não diria isso, visto que o caso McCarrick estava sobre várias mesas do Vaticano durante pelo menos duas décadas. É de se esperar que uma prática tão deletéria, que cheira a tentativa de corrupção, seja abolida de uma vez por todas.

Pode-se temer, creio eu, que McCarrick tenha podido corromper até mesmo os bispos americanos que deram falsas declarações a seu favor.

O relatório da Secretaria de Estado é uma novidade elogiável e representa um ponto de inflexão nas práticas do Vaticano.

  • Foi retirado, por exemplo, o segredo papal sobre material relevante.
  • Admite-se que há práticas e comportamentos desonrosos.

Mas eu evitaria triunfalismos que parecem aflorar aqui e ali:

  • que finalmente a limpeza foi feita,
  • que o papa expulsou os vilões,
  • que no fim a verdade triunfou.

Não é assim. Ainda há muitas coisas que não estão nada claras, até porque alguns protagonistas não disseram tudo. É preciso que este relatório seja o início de boas práticas de transparência.

 

Não é só McCarrick

Há muitas situações gravíssimas que enlameiam a credibilidade da Igreja Católica, que reclamam justiça e que nunca foram esclarecidas. Um escândalo entre todos – não o único, mas o mais grave – é o que diz respeito aos crimes terríveis e alucinantes do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel.

O que tenho eu a ver com o mexicano Maciel? Nada. A não ser que me lembro bem que

  • nos meses que passei no México em 2004 e 2005
  • quase todos os dias se liam testemunhos de iniquidades cometidas por Maciel,
  • testemunhos que se revelaram verdadeiros, e nem mesmo eram os mais infamantes.

Mas o Vaticano – e já idoso papa – defendiam-no, ou antes honravam-no. No entanto, face à enormidade das acusações, bastava aplicar, por parte de Roma, o princípio da prudência. Nós, simples cristãos, aprendemos esta virtude cardeal ainda quando crianças no catecismo.

Portanto, tal como McCarrick, também Maciel enganou João Paulo II. Por fé, quero acreditar na boa fé de um papa declarado santo.

No entanto, até à chegada de Bento XVI, ninguém deteve Maciel, que foi apoiado e encoberto por –  entre outros – os dois cardeais secretários: Stanisław Dziwisz e Angelo Sodano (este último, deixem-me dizer, responsável pela insuportável condescendência de João Paulo II para com o sanguinário ditador Augusto Pinochet).

Acho que por senso de justiça, e em honra de João Paulo II, os dois cardeais têm o dever de contar ao povo de Deus o que aconteceu, como pôde acontecer tanto estrago. O silêncio deles é inquietante, e os fiéis merecem realmente coisa melhor.

Não é verdade – como se diz com superficialidade – que a Igreja do passado era mais corrupta do que a atual. Os casos McCarrick e Maciel (não são os únicos, infelizmente) contam outra história. Uma investigação sobre Marcial Maciel, o escândalo dos escândalos, é um passo muito necessário para o bem da Igreja.

Reformas, atos de limpeza, transparência e justiça são ainda mais necessários diante do povo de Deus e para a credibilidade do anúncio do Evangelho.

 

Gianni Criveller, Autor em Editora Mundo e Missão

 

Gianni Criveller, missionário do PIME em Hong Kong e China desde 1991, é atualmente professor e diretor do Studio teologico missionario Internazionale do PIME de Monza.

 

http://www.settimananews.it/chiesa/il-caso-mccarrick-2/

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>