Natal: ser minoria não é castigo. Entrevista com Gianfranco Ravasi

Sabinia Baral – 05 Dezembro 2020 – Cardeal Ravasi,  presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, / Vatican Media

 O Advento é o tempo em que os fiéis são convidados a se preparar para a vinda do Senhor, um tempo alimentado pela espera e pela esperança. Com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sagrada, interrogamo-nos sobre o sentido dessa espera, para entender se ainda sabemos buscar a Deus no nosso cotidiano, trazendo no coração a urgência da vinda de Cristo.

A reportagem é de Sabinia Baral, publicada em Riforma.it, 04-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

 

A etimologia da palavra “esperar” [attendere] expressa uma “tensão para”, uma atitude ativa e não passiva por parte do fiel. Como pode ser mantido vivo o desejo ardente da fé?

O verbo “tender” [tendere] pode ter uma conotação positiva quando indica uma atitude criativa por parte do fiel, uma espécie de projeção para o horizonte, o exato oposto da indiferença que, com a sua mão gélida, se ramifica não só na sociedade, mas também na vida de quem crê. Da mesma forma, a tensão tem uma conotação negativa quando se torna um elemento de medo, preocupação, fechamento, como a Covid nos ensina.

A palavra “tendência” também é ambivalente:

  • pode indicar a busca constante de uma nova direção,
  • mas pode degenerar e se reduzir a uma simples orientação comum e social.

Há também o risco para a fé e sobretudo para a religião:

  • estas não devem ser apenas uma tendência, mera inscrição ideal em uma Igreja,
  • mas devem reencontrar a pureza e a força de uma tensão para o horizonte fundamental do crer.

 

A espera implica paciência. Ainda somos capazes de exercer essa virtude hoje?

As palavras são criaturas vivas, expressão de profundidade interior e devem ser ouvidas. A etimologia latina da palavra remete ao sofrimento, porque a paciência exige esforço, constância, mas também ética e moralidade, isto é, um compromisso pessoal e existencial. A sua irmã mais velha é a esperança que, por sua vez, é a irmã mais nova da fé e da caridade. Ao lado dessas virtudes, eu colocaria a mansidão, que Norberto Bobbio, testemunha secular, dizia que é a virtude mais impolítica. Nestes tempos de forte agressividade, reencontrar a paciência também significa recuperar a mansidão, aquele respeito pelo outro que é uma variante do amor.

 

Deus que vem à terra por meio de Cristo continua sendo um fato surpreendente. O senhor não acha que domesticamos esse evento, em vez de conservar o frêmito que surge de um evento tão desmedido?

A religião bíblica é substancialmente uma religião histórica e nos ensina que Deus atua por debaixo das pedras, por debaixo do solo da história. Basta pensar nos quadros de Chagall, em que os anjos saem das chaminés das casas, e os profetas se reencontram na praça: a cotidianidade é epifania, epifania oculta.

A Encarnação, o Verbo que se faz carne, é o ápice dessa historicidade, e a redescoberta dessa presença deve ser feita sempre. Uma presença que pode ser solene, mas que, na maioria das vezes, é uma presença secreta. Então, para encontrá-la, precisamos de estupor, aquele dom humano extraordinário que consegue encontrar o bulbo do divino dentro da história. O grande apelo que devemos dirigir, como fiéis, a esta sociedade é precisamente este: reencontrar o germe divino em uma história reduzida a mera nomenclatura de eventos.

 

O Natal encontra o cumprimento do seu sentido na Páscoa da ressurreição. Como cristãos, ainda estamos cientes disso e sabemos dizer isso ao mundo?

A narração do nascimento de Jesus que nos é oferecida nos Evangelhos de Lucas e Mateus já está manchada de sangue, basta pensar em Jesus como um refugiado. Na arte dos ícones russos, a “escola de Novgorod”, a partir do século XV-XVI, também representou o nascimento de Cristo não em um berço, mas em um sepulcro, o sepulcro da ressurreição.

Devemos reiterar a união profunda da cruz com o próprio nascimento, sem esquecer que logo aparece a luz da ressurreição.

Os magos não encontram mais Jesus em uma gruta, mas em uma espécie de sala do trono onde Ele já é o Cristo glorioso. Infelizmente, hoje,

  • as Igrejas entraram na história sem a capacidade de linguagem e de comunicação
  • que, por exemplo, o apóstolo Paulo teve ao retranscrever completamente a mensagem cristã por meio da língua e da cultura da época.

As Igrejas não são mais nem capazes de testemunhar e de ter consciência da sua própria minoria.

  • Ser minoria não é uma punição,
  • mas é ser semente, fermento, sal como dizia Jesus a respeito da massa.

E esse é um grande apelo para o Natal:

  • ser consciente de ser minoria,
  • mas saber reencontrar dentro de nós mesmos a energia do Reino de Deus,
  • aquela sementinha que pode crescer e se tornar a árvore gigantesca sobre a qual os pássaros do céu podem pousar.

 

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