China tomará o lugar dos EUA? A corrida para antecipar o mundo de amanhã

PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

Em plena crise, acontece uma queda de braço para entender o futuro e influenciá-lo. Alguns especialistas duvidam de uma mudança radical

 

Dois ciclistas no sábado em Piccadilly Circus, em Londres.

MARC BASSETS – 20/04/20 

Foto: Dois ciclistas no sábado em Piccadilly Circus, em Londres /Aaron Chowun / AP

A corrida das previsões já começou. Há semanas, Governos, instituições internacionais, economistas, laboratórios de ideias e gurus embarcaram em uma competição para explicar o mais rápido possível o mundo de amanhã.

 

Ainda não se sabe como terminará esta fase da crise da covid-19, a doença causada pelo vírus SARS-Cov-2 que em quatro meses se espalhou da China para o resto do planeta, matou mais de 155.000 pessoas e confinou metade da humanidade.

Não está claro como será a saída do confinamento nem quando uma vacina garantirá o retorno à normalidade. Ninguém sabe ao certo qual será a normalidade dentro de alguns meses. Mas o instinto humano de ir um passo à frente —e a necessidade prática de se preparar para o novo mundo e de influenciá-lo— é o motor que leva a uma superprodução de documentos para esclarecer durante a tempestade.

“É precisamente quando as coisas são complicadas e estão em movimento que é útil fazer previsões para enxergar com mais clareza”,

diz Bruno Tertrais, diretor-adjunto da Fundação para a Pesquisa Estratégica, think tank sediado em Paris, autor de O Ano do Rato – Consequências Estratégicas da Crise do Coronavírus, um relatório claro e conciso sobre o que está por vir.

 

Existem dois grupos na febre prospectiva.

Primeiro, o daqueles que acreditam que

  • “nada será igual”, “habitaremos um mundo diferente”, “é o fim do capitalismo e da globalização”. “É uma comoção antropológica profunda.
  • Paramos meio planeta para salvar vidas: não há precedentes em nossa história”,

disse o presidente francês, Emmanuel Macron.

O segundo grupo é o dos cautelosos.

  • São aqueles que, olhando a história, desconfiam das datas que transformam tudo.
  • E aqueles que argumentam que o coronavírus, mais do que marcar um corte na história, acentuará tendências em andamento.
  • Ou aqueles que inclusive alertam para a possibilidade de um retorno ao de sempre, ao business as usual, “à vida normal”, como diz Donald Trump.

Tertrais esboça várias tendências:

  • um retrocesso da globalização;
  • um declínio dos líderes populistas acompanhado pelo sucesso paradoxal das ideias de soberania e defesa das fronteiras;
  • o retorno do Estado protetor;
  • o auge das sociedades de vigilância;
  • o risco de ações oportunistas por parte de Estados e organizações: a tentação de pescar em rio revolto.

A última tendência, na contracorrente de uma previsão muito difundida, é que nenhuma potência –tampouco a China– sairá fortalecida.

Tertrais descreve o coronavírus como uma “surpresa estratégica”

Nem todas as “surpresas estratégicas” provocam as consequências esperadas:

  • em 2001, depois dos atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono, um colunista do The New York Times, previu a Terceira Guerra Mundial.
  • Em 2008, o presidente francês Nicolas Sarkozy acreditou que havia chegado o momento da “refundação do capitalismo”.
  • A hora atual talvez se assemelhe à queda do Muro: um acontecimento que se enquadrava no espectro do possível, embora ninguém o tenha previsto então; e um mundo às cegas durante meses

Tudo poderia sair muito bem ou muito mal. “Ninguém sabia o que ia acontecer”, recordou o historiador Pierre Grosser alguns meses atrás. “Pensávamos que a União Soviética iria implodir, mas não sabíamos se seria muito perigoso.”

Nathalie Tocci, diretora do Istituto Affari Internazionali em Roma,

  • fala de um possível “momento Suez” para os Estados Unidos,
  • em alusão à crise do canal de Suez em 1956 que precipitou o fim do Reino Unido como potência mundial.

“Não é que a China será o novo império, mas é um momento em que o poder global da China se consolida. Terá um poder de atração, um soft power, ou poder brando, que não é exercido de maneira coercitiva”, afirma.

No relatório A Ordem Internacional e o Projeto Europeu em Tempos da Covid-19, Tocci desenha dois cenários:

“Se você me perguntar qual dessas duas dinâmicas é mais forte, eu não sei”, diz Tocci. “Mas sei que há algo que fará a diferença: a liderança.hoje a liderança praticamente não existe. Sem liderança, temo que estejamos indo mais na direção da competição do que da cooperação.”

“Não sabemos o que acontecerá, mas vale a pena pensar nisso. Dependerá muito de como sairmos e com quais danos”,

diz Gregory Treverton, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência, a célula prospectiva da inteligência dos Estados Unidos. Seu trabalho consistia em imaginar cenários. E um dos que imaginou foi uma pandemia em 2023.

“Se você observar o que já estava acontecendo antes da crise, havia um aumento do nacionalismo, do protecionismo, da tensão entre os EUA e a China, da desconexão entre as pessoas e os Governos”, reflete.

“A pergunta é como a covid-19 afeta isso. A resposta é que, a curto prazo, o exacerbará.”

Warren Hatch, presidente da empresa de prognósticos Good Judgement, acredita que

  • uma previsão geopolítica —sobre a ascensão da China e o declínio dos Estados Unidos—
  • deveria ser delimitada e dividida em perguntas concretas e verificáveis:
  • sobre a evolução do PIB chinês ou a contribuição deste país às organizações internacionais.

À pergunta sobre se esta crise muda tudo, Hatch responde:

“Muito do que costumávamos fazer e que agora parece inimaginável, como ir a eventos esportivos, acredito que faremos novamente: inventaremos algo.

Por outro lado, há coisas que já estavam mudando e se acelerarão: 

Entre todas as previsões que circulam sobre o mundo que emergirá desta crise do coronavírus existe uma que pode ser avançada sem medo de erro:

  • será um mundo obcecado pelas pandemias.
  • Depois dos ataques de 2001, o terrorismo se tornou o centro de gravidade, o que não permitiu ver outras ameaças.

O mesmo poderia acontecer agora, com as pandemias no lugar do terrorismo. “Existe de fato um risco”, diz Tertrais, “de que nos próximos cinco anos a pandemia seja considerada o risco número um e que os outros sejam menos notados”.

Entre as ameaças, a mudança climática é citada. Ou mais pandemias.

  • “Este é um ensaio geral”, diz Treverton.
  • “Imagine uma pandemia tão letal quanto o ebola e tão transmissível quanto a covid-19. Não vejo outra ameaça semelhante.”

 

Uma “competição áspera”, segundo a visão francesa

“O mundo posterior às crises é preparado durante a crise, e não no final”, afirma um relatório do Centro de Análise, Previsão e Estratégia (CAPS) do Quai d’Orsay, uma espécie de think tank interno do Ministério das Relações Exteriores francês.

O relatório, revelado no final de março pelo jornal Le Monde,

  • não define a política oficial francesa,
  • mas aponta linhas de reflexão estratégica diante da “competição áspera”que se anuncia.

O ponto de partida é que o dia seguinte será conturbado e que os prolegômenos estão em jogo nestes momentos.

As ameaças são múltiplas: da estabilidade política à paz social.

O relatório alerta sobre “a narrativa chinesa”:

  • a possível atratividade futura de seu modelo, reforçada pela propaganda.
  • Por isso, é necessário “não apenas desenvolver uma contranarrativa, mas poder se apoiar em um equilíbrio eloquente e colocar em evidência as diferenças de método”.

E acrescenta:

“Porque, no fim das contas, a história é escrita pelos vencedores”.

Os vazios de poder e o aproveitamento que possam fazer potências como a China ou a Rússia podem levar a “uma aceleração da redistribuição das cartas”.

Os autores não intervêm no debate sobre

  • se estamos diante de uma mudança radical
  • ou de um retorno às inércias do passado.

“Uma crise de tal magnitude é sempre a ocasião para reorientações profundas”, diz o documento. “Mas não implica mecanicamente nenhuma dessas reorientações. No final, é a política que as impõe, ou a que não está à altura da ocasião.”

 

TLAXCALA: Adiós, adoquín; hola, chaleco

 

MARC BASSETS – El País

Fonte:  https://brasil.elpais.com/internacional/2020-04-19/china-tomara-o-lugar-dos-eua-a-corrida-para-antecipar-o-mundo-de-amanha.html

 

 

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