A MORTE NÃO PODE SER A ÚLTIMA PALAVRA

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Frei Bento Domingues, O.P. – 12/04/2020

Não vale a pena repetir que o ser humano não tem conserto. Estamos sempre a tempo, em qualquer idade, de nascer de novo. Jesus Cristo não é apenas nosso contemporâneo. É a interrogação mais radical à nossa contemporaneidade, interrogação que se procurou e procura abafar dentro e fora das Igrejas.

Não acredito que a morte seja a última palavra da nossa vida.

 

 

1. Não há liturgia cristã que suspenda as leituras do Antigo e do Novo Testamentos, por vezes acompanhadas pela grande música e integradas numa celebração ritual.

Na Semana Santa são, por regra, muito mais abundantes. Exigem o auxílio de uma boa cultura bíblica, bastante ausente da maioria das assembleias. Não se deve confundir uma celebração litúrgica com uma imaginária reconstituição do passado, do mundo que já não existe.

É certo que algumas homilias tentam situá-las no presente mediante considerações e aplicações, muitas vezes de pendor pietista e moralizante que amortecem a imaginação em vez de a incendiar. Existem e sempre existiram belas excepções.

O mundo desses textos, a história turbulenta e dilacerada da Cristandade em que foram acolhidos, pensados, celebrados, traídos e retomados como fonte de luz, não fazem do Cristianismo uma religião do Livro como acontece, por exemplo, com o Islão.

  • Não pode haver culto da Sagrada Escritura.
  • Sagrado é Aquele de quem elas testemunham, Aquele que se fez “carne”, isto é, fragilidade humana.
  • O Verbo de Deus não se fez Livro.

Tudo quanto se escreveu no âmbito da fé cristã, bebido em muitas fontes culturais, não foi para encher bibliotecas de erudição ou para alimentar escolas esotéricas.

  • Foi para mostrar algo de absolutamente extraordinário que nenhum livro pode conter,
  • mas apontar e testemunhar por uma vida feita dom.

Jesus Cristo não é apenas nosso contemporâneo.

  • É a interrogação mais radical à nossa contemporaneidade,
  • interrogação que se procurou e procura abafar dentro e fora das Igrejas.

Como não sei usar o seu estilo criativo das parábolas, vou supor e imaginar, de forma tosca, algumas interrogações como esta:

  • porque continuais a fazer do dinheiro, de tudo o que ele representa, o vosso deus?
  • Ainda não reparastes que o actual modelo de sociedade e de globalização não vos pode salvar?
  • Trabalhais admiravelmente no desenvolvimento das ciências e das tecnologias com resultados espantosos, mas para quê?
  • Que mundo procurais e que elas podem ajudar a construir?

Não vos dais conta que

  • se continuardes a ceder às tentações da dominação económica, política e religiosa, a nível local e global,
  • não estais a construir sociedades abertas, democráticas,
  • mas a fortalecer e a fechar as pessoas no egoísmo, o grande vírus do presente e do futuro?

Não vale a pena repetir que o ser humano não tem conserto.

Estamos sempre a tempo, em qualquer idade, de nascer de novo.

Como esta crise monstruosa está a revelar,

  • existem incontáveis pessoas que ganham nova vida gastando-se a dar consolo e esperança.
  • São muitas as que acordam com a pergunta: em que posso ajudar pelo desenvolvimento dos meus talentos, das minhas capacidades?

Sempre conheci santos e santas que orientavam e orientam o seu percurso humano pela máxima antiga e sempre nova: o bem é para fazer e o mal para evitar.

O resto pode transformar-se em conversa pretensiosa, farisaica, para evitar nascer de novo.

Seja como for, a presença misteriosa, divina, em todo o ser humano, não substitui a sua criatividade nem atenta contra a sua autonomia e liberdade.

 

2. Segundo os Actos dos Apóstolos, o próprio S. Paulo, para introduzir a sua fé na ressurreição de Cristo, recorre à literatura gentia que, tacteando, confessava que Deus não está longe de nós, pois Nele vivemos, nos movemos e existimos. Somos da sua raça [1].

O Domingo é dedicado à celebração semanal da Páscoa para reconhecer, na partilha do pão, a presença transformante de Cristo no quotidiano de toda a semana. Está na origem da grande celebração anual.

Odo Casel (1886-1949) [2], monge beneditino, fez um grande esforço para mostrar que a liturgia é a presença actual do mistério pascal. Reencontrou-se com a autêntica cristologia de Tomás de Aquino que defendia que

  • a actividade histórica de Jesus não ficou no passado,
  • mas atinge presencialmente todos os tempos e lugares,
  • por ser obra de Deus na intervenção humana de Cristo [3].

Esta presença actuante é acolhida quando hoje o nosso agir se identifica com o sentido do itinerário histórico de Cristo que passou fazendo o bem [4].

Jesus não escreveu nada. Não pediu aos seus discípulos que escrevessem a sua mensagem, mas que testemunhassem com a vida o seu Testemunho.

O facto é que, passados alguns anos, surgiram muitos escritos sobre a pessoa de Jesus, sobre a sua actividade e sobre a sua mensagem. A Primeira Carta aos Tessalonicenses é considerada o escrito mais antigo, geralmente datado do ano 50. Mais tarde, surgiram os outros textos do Novo Testamento, no seio de comunidades que viviam ligadas pela fé a Jesus ressuscitado, sem texto.

Com o tempo, às primeiras comunidades de discípulos, não bastou viver da fé em Jesus ressuscitado e das narrativas orais que partilhavam com aqueles que tinham andado com Jesus. Dessa situação nasceram os 4 Evangelhos, em lugares diversos e de comunidades com problemáticas diferentes. Tinham fontes comuns e fontes próprias.

Estamos no Domingo de Páscoa.

As narrativas pascais [5] deixam muitos fiéis perplexos. O Ressuscitado aparece, nuns casos na Galileia, noutros em Jerusalém e nos seus arredores. Na primeira versão do Evangelho de Marcos, o Ressuscitado não aparece a ninguém. Foi-lhe depois acrescentado um final que já integra o de outras narrativas. Há, no entanto, um traço comum:

  • a ressurreição é inesperada,
  • não se pode descrever,
  • não é de ordem histórica, mas é real,
  • porque o real não se limita ao que a história pode documentar.

A linguagem das narrativas das aparições de Jesus é muito divertida pelos seus contrastes, pois está diante de uma grande dificuldade:

  • como mostrar que é o mesmo antes e depois da ressurreição,
  • mas não é nada da mesma maneira?

Usa um artifício para mostrar a continuidade e a ruptura. Não vou entrar nessa apresentação que exigiria explicações que não cabem nas dimensões desta crónica.

Não acredito que a morte seja a última palavra da nossa vida.

No cemitério de Castro Daire, foi fixado um poema de Frei José Augusto Mourão (1947-2011) que é cantado em todos os funerais. No convento de S. Domingos, pertence à liturgia de Sexta-Feira Santa.

Só a Páscoa de sempre celebra a sua memória:

Não pode a morte reter-me na cruz.

Não pode o mundo arrancar-me à raiz

Ao pé de Deus hei-de sempre viver

Com Deus cheguei e com Ele vou partir

A tua vida me toma e transporta

Teu sangue inunda meu corpo de paz

Vejo as mãos do Senhor glorioso

Nas minhas mãos a memória de Deus

A Ti, Senhor, meus desejos regressam

Findo o andar, disponíveis as mãos

Abre meu corpo ao devir que não sei

Eu chamo a esperança pelo nome de Deus.

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

Fonte: https://www.publico.pt/2020/04/12/sociedade/opiniao/morte-nao-ultima-palavra-1911814

 

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Notas:

[1] Act 17, 28-29

[2] O Mistério do Culto Cristão, Secretariado Nacional de Liturgia, 2019

[3] S. T. 3, q. 58, a. 1

[4] Act 10, 38-39

[5] Mc 16; Mt 28; Lc 24; Jo 20–21

 

in Público, 12.04.2020

https://www.publico.pt/2020/04/12/sociedade/opiniao/morte-nao-ultima-palavra-1911814

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