Papa escreveu aos Arautos para que eles aceitem a investigação do Vaticano às acusações contra a organização

 

| 4 Fev 2020 |

Celebração na Semana Santa de 2010, na Igreja de San Benedetto in Piscinula, em Roma, entregue aos Arautos. Foto © Knight746/Wikimedia Commons

Em causa, estão

  • acusações de abusos sexuais sobre menores,
  • alienação parental,
  • abusos de consciência e de poder,
  • prática de exorcismos irregulares,
  • culto fanático ao fundador
  • e recolha de donativos sem autorização do bispo diocesano.

 

O Papa Francisco

  • escreveu uma carta ao presidente dos Arautos do Evangelho,
  • instando-os a aceitar a intervenção da Santa Sé naquela instituição, depois de o cardeal Raymundo Damasceno ter sido nomeado comissário pontifício, em nome da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica (CIVCSVA).

De acordo com uma notícia da revista espanhola Vida Nueva,

  • Francisco enviou a carta em meados de Janeiro, dirigida a Felipe Eugenio Lecaros Concha.
  • Nela, faz saber que apoia a intervenção da CIVCSVA em todos os ramos dos Arautos, acrescenta a Vida Nueva.

A Congregação para a Vida Consagrada

  • teve, neste caso, delegação de competências do dicastério para os Leigos
  • e esta foi a razão para que os Arautos não reconhecessem a autoridade do cardeal brasileiro.

O decreto da nomeação do cardeal brasileiro, recorda ainda a revista, falava dos Arautos como uma associação pública de fiéis quando, na realidade, são uma associação internacional de fiéis de direito pontifício, aprovada em 2001 pela Santa Sé.

O erro formal foi depois corrigido pelo Vaticano, que

  • recordava ter sido a nomeação do cardeal aprovada directamente pelo Papa que, com esta carta,
  • vem confirmar não só a nomeação como o seu apoio a Damasceno e aos seus assistentes.

O cardeal brasileiro começou o seu trabalho pelos dois ramos das sociedades de vida apostólica dos Arautos – o Virgo Flos Carmeli, masculino, e o Regina Virginum, feminino. Com a carta do Papa,

  • Damasceno pode intervir também na associação internacional
  • caso isso não acontecesse, os seus membros incorreriam em clara desobediência ao Papa.

Notados em cerimónias litúrgicas pelas vestes em tons de castanho e botas altas,

  • os Arautos estão desde 25 de setembro último sob a autoridade do cardeal Damasceno, arcebispo emérito de Aparecida (Brasil),
  • mas já desde 2017 que o Vaticano vem investigando a instituição:
  • há acusações de supostos delitos e irregularidades que teriam lugar no seu interior.

De acordo ainda com a Vida Nueva, estão na lista

  • possíveis casos de abusos sexuais sobre menores,
  • alienação parental,
  • abusos de consciência e de poder,
  • prática de exorcismos irregulares,
  • culto fanático ao fundador
  • e recolha de donativos sem autorização do bispo diocesano.

As acusações atingem, pelo menos indirectamente, o fundador da instituição, o padre brasileiro João Scognamiglio Clá Dias, nascido a 15 de Agosto de 1939. Durante quatro décadas, João Clá Dias integrou a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), fundada por Plínio Corrêa de Oliveira, como se recorda na página digital dos Arautos em português.

A TFP foi um dos movimentos que mais protagonizou a luta contra qualquer deriva de esquerda política no Brasil, alargando a sua acção a vários outros países.

“Quarenta anos de convívio fazem de Mons. João Sconamiglio Clá Dias, EP, a mais autorizada testemunha sobre a vida, a actuação, as virtudes e o pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira”,

lê-se na página, num anúncio da colecção de cinco volumes escritos por João Clá sobre o fundador da TFP.

“Observador atento e sistemático das acções de seu mestre, Mons. João oferece uma aula de teologia viva, personificada num varão virtuoso e providencial”,

acrescenta o texto, sobre a obra, curiosamente publicada pela Libreria Editrice Vaticana e pelos Arautos.

Imagem da página dos Arautos na internet, com o anúncio do livro do fundador sobre Plínio Corrêa de Oliveira, seu “mestre”.

 

  • A instituição tem negado desde o início as acusações,
  • mas outros antigos membros dos Arautos que terão sofrido vários daqueles delitos, ainda segundo a VN,
  • acusam a Santa Sé e a Justiça brasileira de não darem informação sobre o andamento das investigações.

Sob investigação do Vaticano, recorda a Vida Nueva, estão documentos como o manual Usos e Costumes, sobre a vida quotidiana dos membros e das crianças que estudam nos seus colégios. O manual chegará ao ponto de explicar

  • como se deve rezar ou fazer o sinal da cruz,
  • ou pormenores como dobrar um guardanapo, lavar as mãos ou lavar os dentes.

O manual inclui ainda inúmeras citações do fundador e de Corrêa de Oliveira e pretende,

“glorificar a Deus por meio da beleza de cada uma das acções” do dia-a-dia, de modo a cuidar “o cerimonial, a compostura e a disciplina”.

A Vida Nueva entrevistou ainda José Miguel Cuevas,

  • professor de Psicologia Social na Universidade de Málaga,
  • especialista em em abuso psicológico e fenómeno sectário.

Cuevas identifica várias práticas descritas por denunciantes como “claramente compatíveis com dinâmicas sectárias” – e que são explicadas com minúcia no texto referido – e que incluem o isolamento familiar e social dos membros da associação.

 

António Marujo

 

Fonte:  https://setemargens.com/papa-escreveu-aos-arautos-para-que-eles-aceitem-a-investigacao-do-vaticano-as-acusacoes-contra-a-organizacao/

 

 

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