A pirralha e o energúmeno

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs  – 17/12/2019 – Imagens: Da internet/ Reprodução

De acordo com os repetidos impropérios e inverdades do presidente Jair M. Bolsonaro, a “pirralha” seria a ativista ambiental sueca Greta Tintin Eleonora Emman Thunberg, mais conhecida como Greta Thunberg.

 

Com apenas 16 anos de idade, tornou-se um ícone das lutas ambientalistas ao liderar o movimento Greve das escolas pelo clima. Desde então, tem sido uma referência internacional para o cuidado e preservação do meio ambiente, ameaçado em seu equilíbrio pela aceleração incontrolada das mudanças climáticas e suas consequências nefastas e irreversíveis.

A firmeza e persistência de Greta renderam-lhe o título de personalidade do ano, com direito a figurar na capa da revista estadunidense Time.

Ainda segundo os destemperos truculentos do presidente Bolsonato, o “energúmeno” seria o educador e filósofo brasileiro Paulo Reglus Neves Freire, ou simplesmente Paulo Freire.

Falecido em maio de 1997, é tido como um dos pensadores mais influentes da história da pedagogia mundial. A partir do contexto do Nordeste brasileiro,

  • criou um método crítico e interativo de alfabetização, o qual,
  • além de conduzir as pessoas ao mundo da leitura e da escrita,
  • constituía também uma via para um processo de conscientização, organização e mobilização popular.

Embora banido pela ditadura militar, segue considerado, o patrono da educação brasileira. Entre suas numerosas obras publicadas, podemos destacar

  • Pedagogia do oprimido (1968),
  • Educação como prática da liberdade (1965),
  • Os cristãos e a libertação dos oprimidos (1978),
  • Educação e mudança (1981),
  • Prática e educação (1985),
  • Por uma pedagogia da pergunta (1985),
  • A educação na cidade (1991) –
  • além de Cartas à Guiné Bissau (registros de uma experiência em processo)
  • e Política e educação (ensaios).

Cabe um olhar ao dicionário. A palavra “pirralha” significa criança ou jovem, em geral de pequena estatura. Já o termo “energúmeno”, de acordo com o dicionário Houaiss, tem três significados:

  • a) no cristianismo primitivo, indivíduo possuído pelo demônio; possesso, endemoniado;
  • b) pessoa que age com violência, de forma irracional, brutal;
  • c) indivíduo ignorante; boçal, imbecil.

Outros dicionários acrescentam um desfile de adjetivos com tonalidades marcadamente pejorativas: idiota, pateta, tonto, inepto, estúpido, tapado, besta, burro, estulto, abestado, desequilibrado, descontrolado, desatinado, desnorteado, fanático, furioso, exaltado, louco, arrebatado.

 

Poucos brasileiros (e cidadãos de outros países), com um mínimo de bom senso e escolaridade, ousariam utilizar um dos adjetivos acima para se referir ao grande educador que foi Paulo Freire. Reconhecido internacionalmente como um inovador no processo educativo, deixou-nos um legado que engradece o país e o mundo.

  • Após o golpe militar de 1964, foi preso durante 70 dias, exilando-se depois no Chile. Nesse país, ajudou em trabalhos de educação de adultos, bem como no Instituto Chileno para a Reforma Agrária.
  • No final da década de 1960, lecionou na Universidade de Harvard, situada em Cambridge, estado de Massachusetts, nos Estados Unidos.
  • Num período de dez anos, exerceu o cargo de consultor especial do Departamento de Educação do Conselho Municipal das Igrejas, em Genebra, na Suíça.
  • Na qualidade de consultor educacional, efetuou várias viagens pelos países do Terceiro Mundo.

Retornou ao Brasil com a anistia de 1980, tendo sido

  • professor da UNICAMP e da PUC,
  • bem como Secretário de Educação da prefeitura de São Paulo, no mandato da prefeita Luísa Erundina.

De igual modo,

  • poucos suecos (e cidadãos de outros países), com um mínimo de bom senso e escolaridade,
  • ousariam referir-se a Greta Thunberg como pirralha.

Não obstante a tenra idade, ela nos deixa a herança de um cuidado sóbrio e responsável com “nossa casa comum”, para usar a expressão do Papa Francisco, e com as futuras gerações. Lamentavelmente,

  • os governantes e autoridades das repetidas Conferências sobre mudanças climáticas, representantes de várias nações do planeta, continuam surdos ao grito da terra e da vida.
  • Da mesma forma que o governo e as autoridades do Brasil seguem míopes ou cegos às inovações corajosas e libertadoras da filosofia e pedagogia de Paulo Freire.

 

 

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs 

 

Fonte: Enviado pelo autor, via e-mail: mpe.alfredinho@scalabrini.org

 

 

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