Guaracema Tupinambá: “Para falar de ministérios teríamos que nos despir dos modelos que nós temos, fechados nos sacramentos”

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Por Luis Miguel Modino  –Foto: Portal das CEBs

Mas, além de tudo, o mais importante é desenvolver uma metodologia que leve a escutar de verdade, a “ouvir com o coração… e ouvir os clamores do povo”.

O Sínodo da Amazônia é considerado pela irmã Guaracema Tupinambá como “o jeito da Igreja ouvir a voz dos povos da região, os povos nativos, as populações mais vulneráveis”. Mas, além de tudo, o mais importante é desenvolver uma metodologia que leve a escutar de verdade, a “ouvir com o coração… e ouvir os clamores do povo”.

A provincial das Cônegas de Santo Agostinho, reconhece que na Amazônia a gente encontra uma “vida ameaçada em todos os sentidos”. O domínio do “mercado que transforma tudo em mercadoria e em dinheiro, sem dar oportunidade para que essas populações consigam viver da sua maneira, com seus valores, com suas culturas, com suas místicas, com sua religiosidade, com seu jeito de ser”, é nos dias de hoje um dos grandes perigos que enfrenta a região, o que tem como consequência a “violação do direito à vida”.

Nesse sentido, a religiosa reconhece que os povos amazônicos têm sido forçados a assumir “uma outra dinâmica de vida”, o que provoca que “as pessoas vão transformando seu querer, seu viver, suas expectativas, seus desejos, até o ponto de dar “valor a outras coisas”, pois esse é “o único modo que elas encontram de conviver, de ter uma possibilidade de sobrevivência dentro dessa roda-viva do capital”.

Como indígena nascida na Amazônia e que tem trabalhado pastoralmente na região ao longo de muitos anos, quando ela reflete sobre os ministérios reconhece que não se trata de levar ministérios às comunidades, e sim

“de uma troca muito respeitosa e essa troca é um processo muito lento de reflexão e de abertura de todas as partes. Se faz necessário, segundo a religiosa, “nos despir dos modelos que nós temos”, aprender com experiências que tem promovido uma convivência desde o respeito e a vontade de aprender uns com os outros. Também de chegar a todos, especialmente às ovelhas que “estão à margem do rebanho, que não foram incluídas no rebanho”.

A entrevista é de Luis Miguel Modino, publicada por CEBs do Brasil, 18-07-2018.

 

Eis a entrevista.

A senhora é alguém que nasceu na Amazônia e tem trabalhado muito tempo na região. Desde essa perspectiva, o que significa o Sínodo da Amazônia?

Eu não tenho muitas expectativas em relação a isso, mas eu creio que é o jeito de a Igreja

  • ouvir a voz dos povos da região,
  • os povos nativos, as populações mais vulneráveis,
  • fazer esse eco, ressoar de um modo mais largo,
  • ter mais abrangência desse eco.

Eu penso que é muito simples.

Pensa que podem se concretizar esses novos caminhos que a temática do Sínodo quer fazer realidade ou pode ficar numa coisa mais teórica?

Eu penso que depende muito da metodologia e das escutas que vai se fazer. Se as escutas

  • não forem elaboradas de outras formas,
  • se não forem filtradas,
  • se não forem interpretadas dentro de um padrão que é o padrão que a Igreja institucional quer ouvir,

isso pode se transformar

  • em novos caminhos,
  • em novos horizontes para essas populações
  • e para todas as pessoas que vivem aqui e são solidárias com essas populações.

Se a gente, de fato, tivesse a disposição de ouvir do jeito que se fala, do jeito que se expressa e ouvir com o coração.

Mas a Igreja está preparada para escutar e acolher aquilo que o povo fala, do jeito que o povo fala?

Eu tenho dificuldade de falar da Igreja, pois eu penso que nós

  • temos a Igreja institucional, hierárquica
  • e temos uma Igreja que é o Povo de Deus em marcha, a caminho,
  • que marcha em diferentes ritmos, em diferentes rumos, às vezes.

Se a gente fala da Igreja institucional, hierárquica, eu acredito que há uma parte que está preparada e há uma parte que não quer ouvir.

Agora, a Igreja Povo de Deus a caminho

  • que é solidária,
  • que segue o Evangelho de Jesus Cristo,
  • que busca os seus caminhos nos dias de hoje,

aí eu creio que é uma necessidade dos tempos de hoje a Igreja, nós como Igreja, nos fazermos ouvir e ouvir os clamores do povo.

E quais são esses clamores do povo na Amazônia?

Vida ameaçada em todos os sentidos.

  • Pela sua cultura, sendo devastada,
  • pelo mercado que transforma tudo em mercadoria e em dinheiro,
  • sem dar oportunidade para que essas populações consigam viver da sua maneira,
  • com seus valores, com suas culturas, com suas místicas, com sua religiosidade, com seu jeito de ser.

A principal violação é a violação do direito de vida e de vida em abundância, que significa

  • cortar suas árvores,
  • tudo para transformar em dinheiro,
  • envenenar seus rios,
  • acabar com as matas, com a terra,
  • acabar com a possibilidade de viver num espaço que é um espaço mais largo do que uma moradia apertada numa periferia de uma grande cidade.

AMAZÔNIA – Wikipedia Commons

Infelizmente, esse pensamento também está penetrando na vida dos povos da Amazônia, que perderam valores tradicionalmente conservados e hoje assumiram valores do mundo capitalista ocidental. O que deveria ser feito por parte da Igreja, da vida religiosa, para que o povo possa retomar esses valores tradicionais e entender que isso é semente de vida plena?

Eu não diria que o povo perdeu, acho que lhes foi tirado essas possibilidades de ter uma outra dinâmica de vida, e isso vai entrando de uma forma muito sutil e as pessoas vão transformando

  • seu querer, seu viver, suas expectativas, seus desejos,
  • que não são seus,
  • que são impostos por um modelo de exploração,
  • de arrancar todas riquezas,
  • de transformar todos num padrão mundial de consumo.

Eu acredito que essas populações que estão valorizando outras coisas não é nada mais do que o único modo que elas encontram de conviver, de ter uma possibilidade de sobrevivência dentro dessa roda-viva do capital.

Uma das grandes discussões que já está começando a surgir em volta do Sínodo é o tema dos ministérios, com uma cobrança para que esses ministérios sejam assumidos pelas populações locais, homens e mulheres. Realmente a senhora pensa que pode se chegar nesse ponto?

Primeiro a gente teria que refletir, discutir sobre os conceitos de ministérios.

  • Se nós entendemos ministério como serviço da vida, serviço para a vida,
  • nós compreenderemos que não é o sentido de levar os ministérios ou de reinterpreta-los,
  • mas é no sentido de compreender quais são os ministérios existentes nessas populações

e como nós podemos compartilhar com eles os nossos ministérios e acolher deles os ministérios que existem entre eles.

Esse ministério padrão que a Igreja tem, eu acho muito complicado a gente ter uma resposta simples para achar que a gente vai encontrar de imediato alguns caminhos. Não significa

  • apenas ordenar pessoas ou formar pessoas,
  • porque nós temos que discutir que formação é essa,
  • formação para que.

Quando a gente vai numa comunidade indígena

  • que tem o pajé,
  • que tem o pulaka,
  • que tem seus ministros de diversas formas,

a gente se questiona o que é que nós temos que levar aos nossos ministérios, os ministérios que nós aprendemos com a Igreja ocidental.
Então, eu acredito que

  • há uma necessidade de uma troca muito respeitosa
  • e essa troca é um processo muito lento de reflexão e de abertura de todas as partes.

Eu acredito que é possível se fazer um diálogo e caminhar, mas não existe uma receita pronta para isso.

Nesse sentido, existem experiências de presença, sobretudo por parte da vida religiosa, no meio dos povos indígenas desde esse respeito, a presença das irmãzinhas com os tapirapé, Vicente Cañas, os consolatos em Roraima. Por que isso ainda não é uma realidade mais assumida, porque essa presença que acompanha e que junto descobre uma nova espiritualidade, onde tem elementos indígenas e elementos cristãos, porque essas experiências ainda não são valorizadas e muitas vezes fica como uma coisa exótica?

Penso que é uma questão de poder,

  • o que está em jogo
  • é um poder de dominar,
  • de você fazer quantos batizados, quantos casamentos, quantos sacramentos ministrados.

Essa é uma visão, em contraponto de uma outra visão que é a visão ministerial do serviço e que essas pessoas que podem ser consideradas por uma parte da Igreja, tanto leigos como clérigos, como fracassos,

  • eu acredito que esses são as grandes novidades da presença de Jesus Cristo no meio deles,
  • que faz com a gente se encontre de coração para coração, todos pela mesma causa,
  • pois a causa de Jesus era dar vida e vida em abundância a todos.

Então, acredito que essa é uma outra forma ministerial,

  • mas nós teríamos que nos despir dos modelos que nós temos,
  • fechados nos sacramentos.
  • Refletir o que é que é sacramento, o que é que é litúrgico.

Tudo isso está em discussão, há uma discussão, eu acho que muito rica, e as experiências existem, elas estão relatadas, elas estão registradas, de experiências que dão certo de respeito às populações autóctones. Eu creio que há necessidade de uma abertura. Eu conheci Dom Aldo e Dom Aldo foi um bispo que viveu em Roraima tantos anos e disse “nunca batizei um índio”.

Junto com isso, temos outro fato, que é essa visão numérica, capitalista, da Igreja, que muitas vezes impossibilita uma maior presença em comunidades mais distantes, onde se demora muito tempo a chegar e tem que se investir muitos meios para estar lá, e que a justificativa muitas vezes é que não vale a pena gastar tanto dinheiro e esforço para chegar numa comunidade onde a gente “colhe” poucos frutos. Como mudar essa mentalidade?

Eu não sei como muda a mentalidade, eu sei como que é que a gente busca ser o mais fiel possível, com todas nossas infidelidades, ao Evangelho de Jesus, que é ir aonde estão as ovelhas desgarradas,

  • e as ovelhas desgarradas não são aquelas que saíram do rebanho,
  • são aquelas que estão à margem do rebanho,
  • que não foram incluídas no rebanho.

E aí a visão numérica, capitalista, não pode contar, é contra o Evangelho, não dá para conciliar, eu não acredito que a gente possa fazer um acordo com isso, eu acho que a vida ela é uma totalidade, ainda que seja uma.

 

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Luis Miguel Modino

Fonte: http://portaldascebs.org.br/2018/07/19/guaracema-tupinamba-para-falar-de-ministerios-teriamos-que-nos-despir-dos-modelos-que-nos-temos-fechados-nos-sacramentos/#respond

 

 

 

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