UM DIACONATO RENOVADO COMPLETA A IGREJA


Rev. Arquidiácono John Chryssavgis*| 21/01/2o18

Os últimos séculos, o diaconato só teve um papel simbólico ou de transição na igreja. Os clérigos diocesanos eram ordenados sacerdotes depois de servir apenas brevemente como diáconos. É como se eles esperassem “seguir em frente!” ou “subir!”.  O diaconato foi reduzido a pouco mais do que uma preparação ou degrau para o sacerdócio ou para o episcopado.

 

Estas duas últimas etapas são muitas vezes consideradas mais importantes para o ministério ordenado, ao passo que o diaconato parece um tipo de sub-sacerdócio, raramente percebido como uma função duradoura ou permanente.

Mas isto nem sempre foi assim – perto do final do século I, os diáconos, junto com bispos e presbíteros, eram considerados por Inácio de Antioquia parte essencial da estrutura da igreja, que realiza a sua unidade – de forma mais completa e abrangente –  quando a comunidade  está “com o bispo e os presbíteros e os diáconos que estão com o bispo…  Sem isso” –  acrescenta Santo Ignácio – “[a comunidade] não pode ser chamada igreja “(Carta aos Tralianos).

São João Crisóstomo lembra-nos como a igreja primitiva considerava os diáconos quando ele observa: “até os bispos são chamados diáconos” (Homilias sobre a Carta aos Filipenses 1). De fato, no tempo dos apóstolos, não há implicação ou indicação de que os diáconos fossem uma condição ou requisito para a elevação ao sacerdócio.

É por isso que a minha convicção é de que não pode haver uma compreensão clara do sacerdócio – ou mesmo do episcopado – sem que primeiro apreendamos e apreciemos o diaconado em si e por si mesmo. Assim também, no início do século VII, Isidoro de Sevilha ousa afirmar que, sem o ministério dos diáconos, o sacerdote tem o nome mas não a função; o sacerdote consagra, reza e santifica; mas o diácono dispensa, recita e compartilha (De Ecclesciasticis Officiis).

Uma visão mais completa do ministério ordenado deveria reconhecer o papel do bispo como  vínculo da unidade e  porta-voz da igreja para a doutrina; de igual modo, ela deveria respeitar o papel do presbítero para celebrar a presença de Cristo na comunidade local. No entanto também deveria entender o papel do diácono como servidor que completa e complementa esse círculo de unidade e de comunidade na igreja local. O serviço dos diáconos vai além da liturgia e estende-se à comunidade com dons como administração, educação, orientação pastoral e espiritual e trabalho juvenil. E, na minha opinião, esses papéis podem ser facilmente cumpridos tanto por homens como por mulheres.

A nossa teologia do sacerdócio – vista atualmente como uma pirâmide com o episcopado no topo – deveria ser invertida, começando não de cima para baixo, mas partindo da noção elementar e essencial da diakonia, refletindo aquele que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida “(Marcos 10,45), sem cujo serviço e sacrifício nenhuma das ordens sacerdotais faz qualquer sentido. Qualquer revolução em nossa apreciação e aplicação do sacerdócio, em toda a sua amplitude e diversidade, virá em última análise, de baixo para cima, das raízes.

É aí que os nossos fiéis conhecem o que importa e o que funciona na igreja; é aí também que os nossos fiéis percebem as mais amplas dimensões e implicações do ministério pastoral. É por isso que é crucial que uma revitalização do diaconato ocorra, tanto para uma reorientação do nosso ministério ordenado como para um revigoramento do nosso ministério pastoral.

Agora, além de manter um sentido de simetria dentro do sacerdócio, o diaconato também mantém um equilíbrio de poder na igreja. E aqui, eu creio, é onde está o coração do problema. Pois a igreja resiste ferozmente a qualquer desafio à sua atual autoridade institucional.

Devemos aprender a buscar uma atitude de humildade e não de poder, a pôr em prática formas eclesiais impregnadas pela simplicidade e não pela cerimônia, a manter uma visão de transformação da igreja, de uma organização de hierarquia para uma comunidade de serviço, sem nostalgia do passado, mas com abertura para o reino.

Sem diáconos, uma paróquia torna-se progressivamente insular em vez de católica, cada vez mais paroquial em vez de global. Os diáconos asseguram a dimensão universal da igreja. De muitas maneiras, os diáconos são o elo que falta pra preservar a plenitude da doutrina da igreja ou, no mínimo, para prevenir uma forma de “monofisismo” na igreja institucional. Como é sabido, a igreja prega um Deus percebido como a Trindade e uma igreja concebida como conciliaridade e comunidade.

Se entendermos adequadamente o diaconato, então também entenderemos melhor as outras ordens do sacerdócio. Compreenderemos por que e como as mulheres podem muito naturalmente – quero dizer tradicionalmente e não excepcionalmente – participar no diaconato sem provocar temores de ordenação sacerdotal ou uma retomada da discussão teológica precedente sobre o sacerdócio masculino.

A conversa franca sobre o sacerdócio só pode enriquecer o nosso apreço pelo ministério ordenado e pelo sacerdócio real. E “se for ideia ou obra dos homens, falhará; mas se for de Deus, ninguém poderá eliminá-la “(Atos, 5.38-39).

Desta forma, o diaconato será expandido e aprimorado para refletir uma expressão ministerial moderna, mesmo estando enraizada na histórica experiência apostólica. Afinal, para além da administração e autoridade na igreja, há serviço e… servir. Além de observar a liturgia e os sacramentos, há o atendimento às pessoas como altares vivos no corpo de Cristo.

Talvez os diáconos despertem gradualmente outros, ministérios novos, não restritos aos papéis e expectativas tradicionais. Um renascimento criativo do diaconato para homens e mulheres na nossa época pode tornar-se a fonte da ressurreição para o ministério ordenado como um todo, desempenhando assim um papel crucial na missão mais ampla da igreja. A este respeito, a restauração do diaconato pode revelar-se ao mesmo tempo oportuna e vital.

 

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* John Chryssavgis, arquidiácono e consultor de assuntos ambientais do Patriarcado ecumênico de Costantinopola

https://publicorthodoxy.org/2017/12/01/a-renewed-diaconate-completes-the-church/

 

 

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