Fátima dá para tudo (3)

Frei Bento Domingues, O.P. – 5/03/17

Foto: internet – Lúcia, Francisco e Jacinta, os três videntes, em 1917.

Dos acontecimentos de 1917 sabemos o que é atribuído aos pastorinhos de Aljustrel. Só a Lúcia escreveu as suas memórias, tardias, em relação aos acontecimentos.

Nada de especial. É sempre assim. O que espanta é a mediocridade das hermenêuticas desse fenómeno. Cansam. Quando pretendem teologizar ainda aumentam mais o aborrecimento.

1. Fátima pode dar para tudo, mas não dá para todos! Mesmo a preços loucos, já é impossível arranjar onde dormir de 12 para 13, do próximo mês de Maio. Um antigo colega da Escola Apostólica telefonou-me indignado com esse tipo de observações: um verdadeiro peregrino não vai a Fátima para dormir. Vai para se sacrificar e rezar. Penitência e oração é o programa que os pastorinhos transmitiram, como pedidos de Nossa Senhora. Lembrou-me ainda como também ele e eu, pelos finais dos anos 40 do século passado, aguentamos várias vezes, ao relento, com um cobertor, a noite fria de 12 para 13. Quem é capaz de fazer centenas de quilômetros a pé também pode substituir alguns por uma noite ao relento.

 Agora, comercializada e aburguesada, tem de seguir a prática da lei da oferta e da procura. O turismo religioso é um negócio muito antigo no qual o substantivo e o adjectivo se ajudam numa tensão fecunda. É sabido que Jesus Cristo não gostava nada desse comércio. Os quatro evangelistas narram, por esse motivo, a sua indignação no átrio do Templo de Jerusalém:

“Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; aos que vendiam pombas, disse-lhes: Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira [1].

Numa das últimas passagens por Fátima repetia-me: o fenómeno da Cova da Iria é radicalmente antimarxista. Ali, a superestrutura criou todas as infraestruturas. Foi a crença, a ideologia religiosa, que criou uma cidade próspera, não só pela abundância de presenças religiosas permanentes, mas também com uma rede hoteleira importante no centro do país. Acolhe o religioso e o profano para congressos, reuniões, celebrações de todo o género. Para lá se dirigem, todos os anos, milhões de crentes e curiosos, vindos de todo o mundo.

 

 Vista aérea do Santuário de Fátima: em 1º plano antiga basílica; no fundo a nova, com cerca de 8000 assentos

Foto in: http://2.bp.blogspot.com/-8COoDmKi_Xg/T6uRB4yZaQI/AAAAAAAAF-g/CpXkRbWurAE/s1600/Santu%25C3%25A1rio%2Bde%2BF%25C3%25A1tima.JPG

2. Dos acontecimentos de 1917 sabemos o que é atribuído aos pastorinhos de Aljustrel. Só a Lúcia escreveu as suas memórias, tardias, em relação aos acontecimentos. Nada de especial. É sempre assim. O que espanta é a mediocridade das hermenêuticas desse fenómeno. Cansam. Quando pretendem teologizar ainda aumentam mais o aborrecimento.

António Marujo e Rui Paulo da Cruz deram-se ao trabalho de elaborar uma obra diferente. Poderia chamar-lhe os heterónimos de Fátima[2]. Porquê? Recolhem testemunhos

  • dos documentos das aparições,
  • estudos sobre o contexto dos conflitos entre a República e católicos,
  • a pluralidade de leituras na Igreja Católica,
  • diversas leituras da antropologia e da sociologia religiosa,
  • voltam ao fenómeno das aparições e à beatificação dos pastorinhos,
  • interrogam-se sobre a actualidade de Fátima, 100 anos depois.

Tudo isto poderiam ser, apenas, capítulos de um livro bem planeado.

Seria mais ou menos do mesmo. Mas não.

  • Todos os temas são a várias vozes,
  • bem identificadas,
  • sem contaminações,
  • mas também não são, apenas, vozes justapostas, de costas umas para as outras.

A Senhora de Maio espera cumprir o que a escritora Lídia Jorge nela descobriu:

“Oxalá este livro […] possa abrir o capítulo de uma discussão

  • que convém ser serena na forma,
  • mas não poderá evitar a contradição, o debate e o confronto aberto das ideias em face da crença.

Debate que sempre ultrapassa os níveis da razão e da ciência – mas não os ignora -, esse patamar de confronto delicado tão difícil de alcançar em Portugal[3]”.

Não posso saber como os entrevistados e os leitores vão reagir à reunião de tantas vozes tão diferentes. Pelo meu lado, só posso agradecer aos autores a fidelidade com que reproduziram o meu longo depoimento, Fátima a várias dimensões, de Janeiro de 2000. É, ainda hoje, o texto em que me reconheço plenamente.

 

3. Como já aqui escrevi, não pretendo saber o que o Papa Francisco virá dizer a Fátima. Importa, porém, estar atento às últimas disposições deste peregrino. Referindo-se às religiosas e religiosos – tão inflacionados em Fátima – pediu-lhes para não cederem à tentação da sobrevivência da vida consagrada e das suas instituições. A cedência a essa tentação torna-os

  • estéreis,
  • reaccionários,
  • fechados lenta e silenciosamente, nas suas casas e nos seus esquemas.

A tentação da sobrevivência faz-lhes esquecer a graça e transforma-os

  • em profissionais do sagrado,
  • mas não em pais, mães e irmãos da esperança a que fomos chamados, a profetizar[4].

Bergoglio, por ocasião do número 4000 da revista Civiltà Cattolica, recebeu os padres jesuítas que nela trabalham e fez-lhes recomendações bem estimulantes. Quis sublinhar três palavras para irem em frente:

  • desassossego,
  • incompletude,
  • imaginação.

Não podendo explicitar a mensagem de cada uma delas, destaco, como ele próprio diz: a primeira palavra é Desassossego. Faço-vos uma pergunta: o vosso coração conservou o desassossego da busca? Só o desassossego dá paz ao coração de um jesuíta. Sem desassossego somos estéreis. Se quiserdes habitar pontes e fronteiras deveis ter uma mente e um coração desassossegados. Por vezes confunde-se a segurança da doutrina com a suspeita pela busca. Não seja assim para vós. Os valores e as tradições cristãs não são peças raras para fechar nos cofres de um museu. A certeza da fé seja, ao contrário, o motor da vossa busca[5].

Isto não é só para os jesuítas.

 

Notas:

[1] João 2, 14-16

[2] A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima. Temas e Debates, Lisboa, 2017.

[3] Cf. Prefácio

[4] Cf L’Osservatore Romano, 09.02.17

 

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