“Eu, imame, defendo os cristãos perseguidos”

Imame

ANDREA TORNIELLI – 20/09/2016

ENVIADO A ASSIS

Entrevista com Muhammad Abdul Khabir Azad, guia da Mesquita Badshahi de Lahore, no Paquistão, que se encontra em Assis para o encontro promovido pela comunidade de Santo Egídio. “O terrorismo pode ser detido se não apenas os líderes religiosos, mas também os Estados decidirem em conjunto combatê-lo”

“Quando os cristãos são atacados eu levo conforto e procuro deter a violência. O terrorismo, que mata cristãos e muçulmanos, pode ser detido se não apenas os líderes religiosos mas também os Estados decidirem em conjunto combatê-lo”. Muhammad Abdul Khabir Azad é o grande imame da mesquita Badshahi, a mesquita “imperial” de Lahore, no Paquistão, a quinta maior do mundo.

Amigo do ministro católico paquistanês Shahbaz Bhatti, assassinado pelos fundamentalistas, e promotor do diálogo entre as religiões, sempre esteve presente nos lugares dos atentados para chorar com as vítimas e pedir justiça. Mas também para repetir que quem mata trai “o verdadeiro Islã”. Foi ameaçado muitas vezes devido a este seu compromisso. O imame está em Assis para o encontro promovido pela Comunidade de Santo Egídio, e esta manhã, o dia da chegada do Papa, vai participar de uma mesa redonda. Fizemos uma entrevista com ele.

 

 Eis a Entrevista

 Em 2013 foi atacada a favela cristã denominada ‘Joseph Colony’. O que aconteceu e por que o senhor foi lá?

“Dois amigos, um cristão e um muçulmano, encontravam-se frequentemente para beber juntos. Começou uma discussão e o muçulmano acusou o cristão de blasfêmia. Um grupo de fanáticos muçulmanos atacou a favela cristã. A polícia não conseguia controlar a multidão enfurecida: 178 casas de cristãos foram queimadas. Cheguei lá no meio da multidão. Eles estavam alegres porque pensavam que eu os guiaria no ataque a outros lugares cristãos. Em vez disso expliquei que estavam fazendo era absolutamente contrário ao Alcorão. Rezamos, e depois pedi a todos que voltassem para casa”.

Por que decidiu ajudar os cristãos perseguidos?

“Aprendi isso em casa. Meu pai, que durante trinta anos foi o grande imame da mesquita Badshahi, toda a vez que havia problemas entre cristãos e muçulmanos procurava resolvê-los. Quando esses ataques ocorrem, ficamos envergonhados e nos sentimos culpados”.

Porque os terroristas islâmicos matam cristãos mas também outros muçulmanos em nome de Deus?

“O papa disse palavras muito positivas: todas as religiões querem a paz, mas em todas as religiões existem pessoas problemáticas. O Islã condena estes atos: no Alcorão há um versículo que diz: matar um único homem é como matar toda a humanidade.

Nos meus sermões repito sempre que não é permitido a um muçulmano tornar-se terrorista. Algumas pessoas interpretam o Islã à sua maneira declarando infiéis todos os que não concordam com eles. Por isso matam outros muçulmanos. No atentado que aconteceu na Páscoa em Lahore morreram mais muçulmanos do que cristãos. Foi uma reação Plano de Ação Nacional do governo contra o terrorismo”.

No Ocidente há medo. Pela primeira vez na Europa um padre católico foi degolado dentro de uma igreja …

“Um ato absolutamente condenável. Devemos perguntar-nos quais são as causas e como podemos parar tudo isto”.

E o senhor como responde?

“Infelizmente, a mídia social pode envenenar as mentes dos jovens, fazendo-os acreditar que certas ações são um caminho para o paraíso. Nós, líderes religiosos, podemos fazer muito. Mas seria importante que a ONU, a União Europeia e a conferência dos Países islâmicos a trabalhassem juntos  para erradicar o terrorismo e resolver o que está acontecendo na Síria, no Iraque e na Líbia. Se estes problemas continuarem no Islã, toda a humanidade sofrerá as consequências disso. Mas eu gostaria de falar sobre uma outra situação …. ”

Qual?

“A situação da Caxemira, onde, há noventa dias, está em vigor um toque de recolher, e as pessoas não têm acesso aos meios de subsistência. A comunidade internacional não está levando em consideração o que está acontecendo lá. Acontecem crueldades. Gostaria de trazer à luz esta situação. O terrorismo, todas as formas de terrorismo, seja em nível de Estado, seja de pessoas e de comunidades, nós o condenamos”.

O que o senhor acha da lei do Paquistão contra a blasfêmia?

“De per si, a lei é justa porque exige respeito por todos os profetas, religiões e livros sagrados. O problema é a sua aplicação e os abusos que ocorreram e que temos dificuldade de parar”.

Quando visita os cristãos perseguidos, o senhor tem medo?

“Eu rezo a Alá e sinto-me protegido. Sei que qualquer coisa que me aconteça, é o meu destino. Recebi muitas ameaças e quando os responsáveis foram presos, a polícia verificou que eu era realmente um alvo. Mas vê-se que o meu salvador era mais forte que os assassinos”.

 

Andrea Tornielli 1

Andrea Tornielli

http://www.lastampa.it/2016/09/20/vaticaninsider/ita/inchieste-e-interviste/io-imam-difendo-i-cristiani-perseguitati-bvCzK0iAKZevw72BxHp7IO/pagina

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>