“Quando começamos a viagem éramos 46, apenas seis chegamos vivos”

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– Giovanni Maria Mazzacani * – 15/04/2016

– Tradução: Orlando Almeida

– Foto: Ousman com seus pais, irmãos Dani e Oriol, sua irmã Eva e suas famílias  –  A incrível história de Ousman, o garoto ganense que, depois de uma viagem interminável através do Saara e do Mediterrâneo, chegou à Espanha. Foi adotado por uma família de Barcelona e agora, depois de alguns anos, lançou uma ONG que dá a 3.000 estudantes de Gana a possibilidade de ter um computador para acessar a internet e programas de educação on-line

“Nasci no Gana numa pequena aldeia que  sequer aparece no Google Maps, atravessei desertos, sofri fome, caí nas mãos de traficantes de seres humanos, fui jogado na prisão e depois de uma viagem infernal de 36 horas a bordo de uma barcaça cheguei finalmente à Europa”.

Um olhar que penetra no teu íntimo, que te deixa sem palavras, que rompe o silêncio das nossas consciências: é o olhar de Ousman Umar, 27anos, que chegou a Barcelona depois de uma odisseia que durou 9 anos. E é exatamente em Barcelona que as nossas vidas se cruzam. Uma conversa longa, intensa, numa mistura de Inglês e Espanhol (também fala perfeitamente o Catalão!).

“Aos 9 anos deixei a minha aldeia natal para ir trabalhar na pequena oficina mecânica que meu tio tinha numa cidade chamada Ghana Techiman. A comida era escassa, as condições de vida eram terríveis”.

«Partiti in 46, solo in 6 siamo arrivati vivi». Dall’Africa all’Europa con Ousman

O autor com Ousman

De repente Ousman estende a mão e me mostra uma grande cicatriz em sua mão direita. “Aqui está a prova: enquanto eu consertava os carros”.  Não ficou mais de seis meses com seu tio. Decidiu partir para Accra, a capital de Ghana. Ali, ficou três anos a consertar caminhões na zona portuária. Passava as noites dormindo em contêineres cheios de mosquitos ou nos caminhões que estava consertando.

“Um dia levantei os olhos e vi um avião voando alto no céu. E eu, o que estou esperando – disse para mim mesmo – para fazer alguma coisa de grande pelos meus filhos? Eu tenho que dar a eles um futuro melhor. Poucos dias depois, decidi partir para a Europa: Eu tinha apenas 12 anos”.

Atravessou Ghana e Burkina Faso escondido na carroceria de um caminhão que transportava sal. Quando chegou ao Níger juntou-se a um grupo de 46 pessoas provenientes de vários países da África que como ele queriam tentar a travessia rumo à Europa.

A odisseia de 9 anos de Ousman

“Passei 21 dias de inferno atravessando a pé ou por meios improvisados o deserto do Saara. Passamos pela Argélia e depois entrámos na Líbia, sempre tentando evitar os pontos de bloqueio nas fronteiras. Durante o dia, o calor era sufocante, a água que tínhamos trazido terminou rapidamente e vários dos meus companheiros morreram um após o outro na travessia. Durante a noite, devido ao frio eu tinha de enterrar-me na areia usando-a como cobertor.

Apenas 6 chegámos vivos a Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia, depois de Trípoli. Ninguém queria dar-nos sequer um copo de água. Eu não podia acreditar. E no entanto éramos da mesma religião. Ali comecei imediatamente a trabalhar como soldador. Finalmente na minha frente estava o Mar Mediterrâneo. Mas antes eu tinha que ganhar todo aquele dinheiro que permitiria atravessá-lo”.

Ousman ficou na Líbia durante quatro anos levando sempre consigo o dinheiro que ia ganhando pouco a pouco. “Costurava-o – disse-me ao perceber o meu olhar um pouco incrédulo – no único par de calças que eu tinha! Quando juntei 1.700 dólares paguei uma máfia de traficantes que me levaria à tão esperada Europa.

O objetivo era chegar à costa oeste de Marrocos para depois alcançar as Ilhas Canárias (Espanha). Atravessar o Mediterrâneo entre a Líbia e a Itália seria muito arriscado. Depois de 3 meses de viagem pelos desertos da Líbia e da Argélia, eis-nos finalmente na costa marroquina prontos para o último trecho: a vida ou a morte. A noite estava escura, o mar tempestuoso.

Os traficantes acordaram-nos de repente. Estava na hora de zarpar sem que ninguém nos visse. Lançámos ao mar as duas embarcações que nós mesmos tínhamos sido obrigados a construir. Nenhum de nós sabia nadar. Os traficantes gritavam, empurravam-nos. Lembro-me do olhar perdido de uma criancinha, nascida alguns dias antes, nos braços da mãe. Bastaram as primeiras ondas para emborcar uma das duas embarcações. Dez pessoas morreram afogadas. Nós apavorados voltámos à costa. Aquela menina, não a vi mais.

Um mês depois tentámos novamente. Na escuridão total da noite perdemos de vista o outro barco e pouco depois percebemos que as ondas o tinham virado. Nenhum deles sobreviveu. Os meus amigos, não os vi mais. A água também estava entrando no nosso barco. Comecei a rezar. Sabia que a minha vida tinha chegado ao fim. Voltei-me para Deus: “Se é o meu fim, que seja. Se não é o meu  fim, por favor, salva-me”. Depois de 36 horas chegámos exaustos às costas das Ilhas Canárias. A salvação”.

 

Era o dia 25 de fevereiro de 2005. Uma data que Ousman não esquecerá nunca. Depois de um mês passado no centro de acolhimento das Ilhas Canárias, chegou a Barcelona. Enquanto caminhava aturdido pelas ruas da cidade parou para pedir ajuda a uma senhora que lhe deixou um bilhete com o seu número de telefone para o caso de precisar de ajuda.

“Fiquei impressionado com a gentileza com que me acolheram na Espanha. Mas ainda mais pela disponibilidade com que esta senhora desconhecida se preocupou comigo. Depois de passar um mês andando sem rumo por Barcelona lembrei-me daquele bilhetinho. Peguei o telefone e liguei para ela. Você não vai acreditar: Montse e Armand me acolheram como a um filho. Na verdade, eles me adotaram! “

Ousman não pára de me surpreender e continua: “Todos os dias, das 8 às 15 horas, conserto bicicletas da Probike no centro de Barcelona, depois vou para a universidade e fico lá, entre aulas e estudo, até às 22. Estou prestes a me formar em Marketing e Relações Públicas”.

Mas não é tudo. O sonho de Ousman é dar um futuro aos jovens de Ghana de maneira que eles não precisem vir para a Europa.

“Os nossos jovens não precisam de um prato de arroz, eles precisam da educação que eu infelizmente nunca recebi quando estava em Ghana. A educação te dá poder, porque ninguém pode mais te explorar. Se vais à escola tens na mão a tua vida, podes ser tu mesmo o arquiteto do teu futuro”.

E assim Ousman, alguns anos atrás, fundou a ONG NASCO que, atualmente, possibilita a 3.000 estudantes de Ghana ter um computador para acessar a internet e programas de educação on-line.

“Sabes que com o primeiro dinheiro que ganhei em Barcelona paguei a universidade para o meu irmão ganense? Banasco formou-se recentemente em Ciências Políticas e hoje é o representante de todos os alunos do Ghana! “

Levantamo-nos da mesa, despedimo-nos e de repente Ousman diz-me: “Lembras o que dizia Nelson Mandela? ‘A educação é a arma mais poderosa que podes usar para mudar o mundo’”.

E acrescenta com convicção: “A África, vamos mudá-la assim. Não, já a estamos mudando!”

 

Giovanni Maria Mazzacani

Giovanni Maria Mazzacani

* Pesquisador do IESE Business School

Fonte: http://www.lastampa.it/2016/04/15/vaticaninsider/ita/documenti/abbiamo-iniziato-il-viaggio-in-solo-in-sei-siamo-arrivati-vivi-Jh8ujj98sndJYTRAtWzsGI/pagina.html

1 comment to “Quando começamos a viagem éramos 46, apenas seis chegamos vivos”

  • Eguimar Chaveiro

    História como essas devemos lê-la para nos encorajarmos.

    Eguimar

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