O maniqueísmo é o ópio dos tolos

O Brasil encontra-se dividido entre as pessoas que pensam como nós (os bons, inteligentes e honestos) e as que pensam diferente de nós (os maus, burros e corruptos)
 
Foto: Ricardo Moraes Reuters – Tensão entre manifestantes contrários e a favor ao Governo Dilma, em Brasília, no dia 17 de março. 
“O dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues definiu certa vez o Brasil como a “pátria de chuteiras”. … O país mudou, o futebol entrou em decadência, e transferimos e aprofundamos nosso ardor para a política.  Envergando a toga da intolerância e sentados na cadeira das certezas absolutas, avaliamos implacáveis uns aos outros, condenando, cegos pelo ódio e pelo ressentimento, todo aquele que de nós ousar divergir, mesmo que minimamente.”

A frase que encima essa coluna é de Iacyr Anderson Freitas, um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos. Ela revela bem o estranho e perigoso momento que estamos vivendo, no qual posicionarmo-nos em relação a todo e qualquer assunto, dos mais singelos aos mais polêmicos, tornou-se um exercício complexo.

A sociedade brasileira encontra-se dividida em duas porções, a das pessoas que pensam como nós (os bons, inteligentes e honestos) e a das que pensam diferente de nós (os maus, burros e corruptos). A partir desse dualismo primário temos redefinido nossas amizades, amores e visão de mundo. Aceitar isso, no entanto, é trilhar o caminho pantanoso da mediocridade.

Recentemente, voltando de uma viagem de trabalho a Macau, ouvi, no trecho entre Dubai e São Paulo, um homem de seus trinta anos explicando à jovem argentina que regressava a Buenos Aires após o intercâmbio de um ano na Austrália, que a principal característica dos brasileiros era a tolerância.
Decerto, ele buscava impressionar a moça com uma conversa mais intelectualizada e evocava a favor de seus argumentos todos aqueles estereótipos autocomplacentes que usamos para absolver as nossas mazelas,
  • a “democracia racial”,
  • a “alegria”,
  • a “liberdade sexual”,
  • a “diversidade da composição étnica”, etc.
Se pudesse interferir na conversa deles – o que não fiz – teria perguntado se podemos classificar de tolerante uma sociedade
  • racista (que discrimina os descendentes de africanos e os índios),
  • machista (cerca de cinco mil mulheres mortas por ano, o quinto maior índice de feminicídio do planeta),
  • homofóbica (líder mundial de assassinatos de homossexuais),
  • xenófoba (no caso, nossa intransigência é seletiva, apenas contra imigrantes pobres), e também, descobrimos há não muito tempo
  • fascista. Porque é uma atitude autoritária tentar impor nossas opiniões ao outro, e, quando frustrados, procurarmos desclassificar agressivamente nosso interlocutor.

O totalitarismo não tem lado – ceifa à esquerda e à direita com a mesma intensidade

O dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues definiu certa vez o Brasil como a “pátria de chuteiras”. Dizia-se, na década de 1970, auge do futebol nacional, que éramos 90 milhões de técnicos, tal a paixão despertada pelo chamado esporte bretão. O país mudou, o futebol entrou em decadência, e transferimos e aprofundamos nosso ardor para a política.

É no campo de batalha da internet que exercitamos hoje o papel de julgadores de nossos adversários, tornados de maneira sumária nossos inimigos. Envergando a toga da intolerância e sentados na cadeira das certezas absolutas, avaliamos implacáveis uns aos outros, condenando, cegos pelo ódio e pelo ressentimento, todo aquele que de nós ousar divergir, mesmo que minimamente.

O presidente Getúlio Vargas, que chegou ao poder por meio de um golpe de estado em 1930, renovado em 1937 com a instituição de uma ditadura, implementou sob seu governo uma legislação trabalhista e introduziu o Brasil na era industrial, criando as bases da nossa modernidade. O cognominado “pai dos pobres” administrou o país com mão de ferro, perseguindo os opositores – principalmente os comunistas – e entupindo as cadeias de presos políticos. Vargas tinha como lema “aos amigos, tudo, aos inimigos o rigor implacável da lei”, prática que parece revivida nos tempos que correm.

Quando crianças, ainda despidos de uma bagagem emocional e intelectual mais sofisticada, tendemos a separar as coisas do mundo em pares antagônicos para melhor entendê-lo:

  • o dia e a noite,
  • o doce e o salgado,
  • o frio e o quente,
  • o mocinho e o bandido.

Trata-se de uma visão egocêntrica e rudimentar, que entretanto se transforma e diversifica à medida em que nos tornamos adultos. O problema é que nós, os brasileiros, por algum motivo, permanecemos confinados a essa visão infantilizada e binária que nos impede de enxergar algo que até a autora de best-seller erótico Erika Leonard James já descobriu: entre o preto e o branco há pelo menos 50 tons de cinza…

Comecei esse artigo evocando um poeta, termino citando o escritor Jeferson Tenório, que em artigo no jornal Zero Hora, sentenciou: “Em tempos de ódio, parece que nossa melhor saída é a transgressão pelo afeto”.

 

foto da notícia

Luis Ruffato

Fonte:   http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/30/opinion/1459339584_372231.html

 

 

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