Israel, país culturalmente aberto?

O soldado da foto pode ser gay. Isto torna a opressão menos brutal?
Ministério da Educação de Telaviv veta romance sobre caso de amor entre uma judia e palestino e abala crença na suposta liberalidade israelense. Em sentença claramente xenófoba, Dalia Fenig, o alto funcionário do ministério que anunciou o veto, afirmou que ele foi motivado pela necessidade de “preservar a identidade da nação”. Além disso, segundo o jornal britânico The Guardian, autoridades temem que a obra “estimule casamentos inter-raciais”… 
 – 01/01/2016

 Na tentativa de neutralizar a crítica internacional crescente contra a ocupação da Palestina e as atrocidades decorrentes, certos defensores das políticas de Telaviv têm apelado para um argumento moral.
  • Propõem que se observe a suposta liberdade de costumes em Israel, onde o exército admite homens, mulheres, gays e lésbicas.
  • Pedem que se compare esta abertura ao fundamentalismo de certas correntes islâmicas, que repelem as lutas feministas.
  • Sugerem que, num tempo de conservadorismo crescente, condenar Israel seria atacar uma ilha de tolerância, num mar de obscurantismo.
Este estranho raciocínio foi rebatido, entre outras, pela socióloga feminista Berenice Bento, em sua intervenção durante o I Seminário Queer, em São Paulo, em setembro.
Agora, porém, quando as tensões nos territórios ocupados se acentuam, as próprias autoridades de Telaviv parecem encarregar-se de desmentir o sofisma que as protegia.
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Nesta quinta-feira (30/12), o ministério de Educação de Israel confirmou que decidiu excluir, da lista de livros adotados no ensino médio, o romance Borderlife, publicado em 2014 e vencedor do prestigioso Prêmio Bernstein, que reconhece o trabalho literario de autores hebreus.
A obra, da escritora Dorit Rabinyan, imagina um romance entre uma judia e um palestino, que se encontram em Nova York.
Em sentença claramente xenófoba, Dalia Fenig, o alto funcionário do ministério que anunciou o veto, afirmou que ele foi motivado pela necessidade de “preservar a identidade da nação”. Além disso, segundo o jornal britânico The Guardian, autoridades temem que a obra “estimule casamentos inter-raciais”…
Entrevistada pela Rádio Israel, a autora colocou o dedo na ferida. Especulou que Telaviv não pode suportar, nem em ficção, um cenário em que judeus e árabes deixem de se hostilizar.
“Os dois protagonistas passam um verão longe de casa e conseguem conhecer a si mesmos em grande detalhe, algo que não poderia ocorrer nos territórios em disputa. Talvez esta capacidade seja vista pelo ministério da Educação como uma ameaça”.

O veto, pelo ministério, não significa censura ao livro. E o tiro pode ter saído pela culatra. As vendas de Borderlife dispararam, nos últimos dias. É mais um sinal de como é desonesto usar a liberalidade e abertura de boa parte da sociedade israelense como argumentos em favor da política de ocupação.

 

Antonio Martins

Fonte: http://outraspalavras.net/blog/2016/01/01/israel-pais-culturalmente-aberto/

 

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