‘A autoridade na Vida Religiosa Apostólica deve estar a serviço da missão’

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Por Rosinha Martins – CRB – 09.09.2015

Para o jesuíta e escritor, padre Carlos Palácio, a Vida Religiosa Apostólica, pelo seu próprio modo de vida, tem que se organizar em função da missão, uma especificidade e uma dinâmica diferente da Vida Monástica e Contemplativa. Portanto, o modo de exercer a autoridade também deve ser diferente, embora a Vida Religiosa Apostólica carregue ainda hoje as marcas do modelo monástico.

Isto, segundo ele, requer uma mudança de paradigma. “A passagem da vida apostólica pelo modelo monástico deixou marcas indeléveis, que ainda não estão absorvidas e saradas também. Isto faz parte do processo que nós estamos vivendo”, afirmou Palácio por ocasião do Encontro Internacional das Missionárias Scalabrinianas, realizado em na cidade de Porto Alegre (Estado do Rio Grande do Sul), nos dias 28 a 31 de agosto.

Segundo Palácio, a perspectiva jurídica na maneira de entender a autoridade continua e é ainda hoje predominante; isto afeta a maneira de entender a nova linguagem da liderança, de que tanto se fala hoje. A autoridade para governar é conferida a alguém por um ato jurídico (nomeação ou equivalente); a nomeação jurídica dá o direito de governar, mas não transmite o ‘carisma’. Já a liderança escapa ao controle jurídico.

Ela é algo conatural à pessoa. Por isso a liderança não pode ser ‘conferida’, só pode ser reconhecida: ou existe ou não existe. A visão jurídica é cada vez mais, claramente, uma visão unilateral e insuficiente e ela só pode ser corrigida na medida em que percebermos que a função da autoridade na Vida Religiosa Apostólica só pode ser o horizonte da missão. “Quer dizer, autoridade não é para dar ordens e tomar decisões”, enfatiza.

Confira a entrevista.

Padre Carlos Palácio, o tema do Encontro foi ‘Liderança como serviço’. Que caminhos o senhor pretende fazer nesta reflexão com as religiosas scalabrinianas?

Pretendo refletir, primeiro, sobre o lugar e a função da autoridade e do governo na Vida Religiosa apostólica, ou seja, que sentido tem esta estrutura e qual é a finalidade dela, antes da gente pensar nas formas mais adequadas que deveria ter, hoje, essa função.

A questão da liderança está relacionada com isso, evidentemente, mas é como uma variante no mesmo tema, porque opera um deslocamento de perspectivas, que se faz visível na metamorfose da linguagem. Digamos assim, a linguagem vai se deslocando em diversos sentidos e assumindo expressões novas, que tratam, muitas vezes, de responder a impasses que, hoje, se vive, por exemplo.

Alguns anos atrás, se falava ou se deixou de falar de superior e superiora (vejo isso mais entre as Irmãs), e se falava em coordenadora, evitando certas expressões e, então, algo semelhante acontece com o termo liderança.

As Congregações, hoje, tendem a uma troca da expressão de ‘superiora’, para ‘liderança’, ‘coordenadora’. Faz sentido, tem algum resultado prático essa mudança de nomenclatura?

Hoje, se fala mais em liderança que em superior ou superiora. Por quê? Não que a troca de nome resolva os problemas que existem, mas é porque se percebe que, neste momento, a VR [Vida Religiosa] precisa ter à frente pessoas capazes de terem um horizonte aberto e dilatado, universal; pessoas que intuam e vislumbrem caminhos novos e respostas aos problemas atuais.

É um tipo de serviço que não se encontra unicamente a partir de uma estrutura jurídica. Por exemplo, um líder não é algo que possa ser nomeado, não posso nomear um líder. Ou uma pessoa tem liderança ou não a tem. É um dom, uma coisa inata na pessoa. Posso nomear um superior, uma superiora, porque, por um ato jurídico, eu posso instituir uma pessoa numa função, mas eu não posso fazer o mesmo com um líder.

pomO que pode significar isso para a Vida Consagrada, padre?

Isto significa que a Vida Religiosa e, em geral, a sociedade, hoje, estão carentes de lideres, isto é, pessoas capazes de apontarem caminhos novos para o futuro, capazes de animarem as pessoas, suscitarem vontade de resolver os problemas, e assim por diante.

Neste sentido, também a Vida Religiosa vive neste contexto e experimenta esta necessidade.

Uma vez que liderança é um dom, os critérios para nomear alguém para essa função na Vida Consagrada não deveriam ser outros?

Claro. Com certeza. Porque, se eu escolho uma pessoa como liderança, é porque estou esperando que ela conduza o grupo numa certa direção, que ela, como líder, é capaz de fazer. Coisa que não se dá, necessariamente, por um ato jurídico. Quando eu nomeio uma pessoa juridicamente como diretor ou diretora de um colégio, de uma obra, superior ou superiora de uma província, superior ou superiora de uma comunidade, este ato jurídico dá à pessoa autoridade para tomar decisões, medidas, etc.

Mas não dá carisma de liderança. São coisas diferentes. É por isso que a liderança, hoje em dia, está muito em função do que se espera da Vida Religiosa ou do que seria o desejo e os caminhos pelos quais deveria enveredar a Vida Religiosa para o futuro.

Para isso, a gente tem que escolher as pessoas. Se eu quero ter esse tipo de líderes, isto não pode ser criado por um ato jurídico. Tenho que ver onde eles estão e captá-los, para ver se são capazes, porque nem toda liderança tem o mesmo valor e a mesma orientação.

O senhor quer dizer que existem lideranças negativas, destrutivas, é isso?

Há lideranças negativas, também, evidentemente, e mesmo lideranças loucas. Por exemplo, o caso de Hitler que a si mesmo se chamava de Führer, ou seja líder. Uma pessoa, por exemplo, que tem incidência sobre outros, que tem capacidade de agrupar as pessoas, mas não no sentido de somar, de construir, mas no sentido negativo de criticar e destruir, não de inventar o futuro, mas quase de voltar ao passado. Isto também pode acontecer e é outro tipo de liderança.

A Vida Consagrada parece viver uma crise no campo das lideranças, da autoridade. Um dos grandes desafios da vida em comum parece ser o de uma gestão mais participativa, horizontal, em detrimento do autoritarismo. O senhor concorda?

Sim. Hoje, se fala muito em liderança na Vida Religiosa Apostólica, mas a passagem de uma concepção de governo para outra não se faz por um golpe mágico. Não basta utilizar outra linguagem; é preciso mudar de mentalidade, trocar de paradigma. Senão a prática continuará a ser a mesma. E, desse ponto de vista, nós estamos apenas engatinhando. É uma mudança muito grande passar de um paradigma para outro.

Trata-se de passar de um paradigma para outro. O antigo paradigma, quando é vivido por uma pessoa que também, além de ser juridicamente nomeada, tem liderança, pode ser exercida de uma forma muito diferente, libertadora, se for uma liderança de quem abre caminhos, de quem cria coisas novas, está voltada para o futuro.

Mas isso não é uma coisa que se possa esperar de todos, e não é uma coisa automática. Essa mudança de paradigma supõe uma aprendizagem que a Vida Religiosa ainda não tem e levará um tempo para fazer a transposição das categorias de autoridade e governo para outra estrutura mais dialogante, participativa, que envolva a todos.

O problema da liderança mais importante não é, digamos, o modo de exercer, porque, mesmo numa estrutura tradicional nas empresas, hoje em dia, a participação e o envolvimento das pessoas são muito maiores, e na Vida Religiosa também há muito mais diálogo, estrutura de participação, mesmo que haja ainda muito risco de pessoas exercerem essas funções de uma maneira muito autoritária, muito impositiva.

O mais importante não é o modo, embora isso tenha que mudar, também, mas o fundamental é acertar com pessoas que sejam verdadeiramente inspiradoras do novo e capazes de animarem as pessoas a buscarem e a caminharem na direção do novo.

É o que precisa, hoje, a Vida Religiosa. Evidentemente, que, para mim, o problema fundamental da autoridade na Vida Religiosa é que a mudança de paradigma a que me referi antes supõe não só uma mudança de mentalidade, mas uma prática diferente; coisas que chocam com a perspectiva dominante, que é ainda jurídica.

pomEssa visão jurídica de autoridade, então, não cabe mais na Vida Consagrada?

Essa visão jurídica é cada vez mais claramente uma visão unilateral e insuficiente, e ela só pode ser corrigida na medida em que percebermos que o que dá sentido à a função da autoridade na Vida Religiosa Apostólica só pode ser o horizonte da missão, quer dizer, autoridade não é para mandar e exercer despoticamente e tomar decisões.

Autoridade é para ajudar as pessoas a buscarem juntas qual é a missão que Deus pede de nós, num momento determinado.

Enquanto não se fizer essa mudança de horizonte, poderá haver reformas no modo de exercer autoridade, mas a concepção de fundo continuará a mesma. Essa mudança de paradigma jurídico para o horizonte da missão é fundamental nesse processo que estamos vivendo atualmente.

Tudo isso diz respeito ao modo de exercer autoridade no horizonte da Vida Apostólica. Então, no horizonte da Vida Monástica seria outra coisa?

Sim. É outra coisa porque o modelo é diferente, quer dizer, a Vida Contemplativa, a Vida Monástica é uma vida que se realiza em si mesma, dentro dos limites do mosteiro. Eles não têm propriamente uma missão ad extra, para fora, apostólica com outros. Poderão fazer, ajudar pessoas pela escuta, de outras formas, mas como Vida Religiosa, a vida se processa dentro desse quadro e tudo gira ao redor do movimento da comunidade.

Talvez, seja por isso que as nomenclaturas para a autoridade na Vida Monástica sejam diferentes, como Abade, prioresa?

Certamente. Não é à toa que, na Vida Monástica, o superior é chamado de abade, ou abadessa, prior ou prioressa. Abade vem de Abbá, que significa ‘pai’. A função dessa estrutura de governo na Vida Monástica é cuidar da casa, cuidar da família, como um pai de família ou uma mãe de família que cuida dos filhos, é o pai, a mãe espiritual, etc. Na Vida Apostólica, não é assim porque eu posso ter um pai espiritual, uma mãe espiritual que não é necessariamente o superior, a superiora.

A função do superior, da superiora está para a missão apostólica, não é para a minha vida pessoal ou para a vida da comunidade. Essa estrutura monástica exige uma estrutura de autoridade e de governo que é muito diferente e que está voltada para alimentar e fazer, digamos, fecunda essa vida em comunidade. A estrutura é outra, embora, chamemos de superiores também as abadessas e abades, mas o cuidado é sobre a casa, a família que lhes é concedida.

A gente compreende melhor isso quando a percebe a origem da Vida Religiosa. Primeiro, eram cristãos que viviam sozinhos, eremitas que viviam dispersos e sozinhos, e faziam sua vida evangélica como eram inspirados por Deus; depois, aos poucos, foram aparecendo figuras que chamavam a atenção, por exemplo, em tal lugar, vez ou outra, corria a notícia de que, em determinado lugar, havia uma mulher eremita, que era ótima conselheira, ou então algum ermitão de fama, etc.

E, com frequência, os/as eremitas iam à sua procura para serem orientados ou receberem algum conselho. Isto foi propiciando esta convivência em comum que, depois, se desenvolveu propriamente na Vida Monástica, mas sempre buscando ajuda de alguém como referencial para poder viver plenamente essa dedicação ao Evangelho.

Na Vida Religiosa Apostólica, o acento recai sobre a missão e não recai sobre a vida em comum, embora tenhamos também vida fraterna, mas é outra função. Nossa vida está para a missão e não para nos alimentarmos e nos sentirmos bem. Percebe a diferença?

Parece-me que há uma confusão entre esses horizontes. A Vida Religiosa Apostólica parece estar estabelecida na dinâmica de vida contemplativa. Certo?

Sim. É o que eu disse antes, a passagem da Vida Apostólica pelo modelo monástico deixou marcas indeléveis, que ainda não estão absorvidas e saradas também. Isso faz parte do processo que nós estamos vivendo.

 

Rosinha Martins

É consagrada há 20 anos, jornalista e atua como assessora executiva para a comunicação na CRB Nacional (Foto: arquivo pessoal) irma_rosinha.jpg

Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cat=82&cod=86445

 

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