Apagão de dados sob Bolsonaro ocultou crise yanomami

Invasão de garimpeiros, falta de equipes médicas e de medicamentos, que levaram à crise humanitária  foram denunciadas há anos por lideranças indígenas, mas ignoradas por ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

Há anos tentando chamar a atenção para a crise humanitária causada pelo   garimpo na Terra Indígena (TI) Yanomami, as lideranças tinham dificuldade em precisar o número de mortes devido à atividade ilegal.

Os dados divulgados neste sábado (21/01) chocaram o país:

  • pelo menos 570 crianças morreram de desnutrição nos últimos quatro anos,
  • segundo a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, com base num levantamento do Ministério da Saúde.

“Os yanomami foram muito afetados pela desassistência, falta de medicamentos e invasões. A situação é caótica”

, disse à DW Brasil Junior Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Yek’wana (Condisi-YY) que percorre comunidades do vasto território com equipes dos ministérios.

A crise humanitária não era desconhecida do governo federal.

  • Durante a gestão de Jair Bolsonaro, lideranças indígenas como Dario Kopenawa Yanomami, da Hutukara Associação Yanomami,
  • foram até Brasília expor a situação e pedir a expulsão dos garimpeiros.

“Eles falavam há tempos sobre o cenário, mas não tinham os dados exatos. O acesso a essas informações estava difícil durante o governo Bolsonaro”,

afirma Priscilla Oliveira, pesquisadora e ativista da Survival International.

 

Visita do presidente Lula a comunidade yanomami em Roraima, em 21/01/2023
Visita do presidente Lula a comunidade yanomami em Roraima, em 21/01/2023Foto: Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto

Além da dificuldade de visitar as áreas mais remotas da TI, equipes independentes que se arriscavam, lidavam ainda com as ameaças dos invasores.

  • “Era difícil calcular esse número com um governo que não tinha a menor intenção em fazer esse acompanhamento e publicar esses dados.
  • Foi um apagão dos números”,adiciona Oliveira.

Para Joenia Wapichana, que assumiu a liderança da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a situação do povo yanomami, decretada como crise humanitária, ameaça a atual geração:

“Requer ação urgente para evitar mais mortes, principalmente das crianças.”

Em visita a Roraima antes de um compromisso internacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu a retirar os garimpeiros da TI Yanomami e criticou seu antecessor, Bolsonaro.

“Se ele, ao invés de fazer tanta motociata, tivesse vergonha e viesse aqui uma vez, quem  sabe esse povo não estivesse tão abandonado como está”,

declarou em entrevista coletiva na capital Boa Vista.

 

Sonia Guajajara, primeira a assumir o recém criado ministério, também falou sobre a herança recebida do ex-presidente.

  • “Precisamos também responsabilizar a gestão anterior por ter permitido que essa situação se agravasse
  • ao ponto de chegar aqui e encontrar adultos com peso de criança e criança numa situação de pele e osso.”

Doenças e violência trazidas pelos invasores

Para Priscilla Oliveira, a atual crise vai além da falta de Unidades Básicas de Saúde nas comunidades, de medicamentos e equipes médicas:

“É uma consequência da presença massiva dos garimpeiros ilegais.”

A Hutukara estima que

  • atualmente mais de 20 mil invasores estejam no território revirando o fundo dos rios e florestas em busca de ouro.
  • Esse levantamento feito pelos indígenas era tratado como “exagerado”pelo governo Bolsonaro, como afirmou o então vice-presidente, Hamilton Mourão, durante uma conversa com jornalistas estrangeiros da qual a DW participou.

 

“A atuação dos garimpeiros não causa só impacto ambiental, de desmatamento, de revirar solo.

  • Há problemas de contaminação de rio com mercúrio, dos peixes, da água usada de diversas formas pelos indígenas.
  • A presença dos garimpeiros espalha malárias, covid e outras doenças”,

explica a ativista da Survival International.

Só em 2022 foram registrados 11.530 casos de malária no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, distribuídos entre 37 polos.

O destaque foi para os casos na faixa etária de maiores de 50 anos, seguida pela dos 18 a 49 anos, e a dos cinco aos 11 anos de idade.

Numa carta enviada ao presidente Lula em dezembro de 2022, mulheres yanomami narraram os conflitos e a violência que vivenciam dentro do território demarcado para uso exclusivo do povo indígena.

  • “Os rastros de garimpeiros fazem crescer a malária. Antes, quando não tinha tantos garimpeiros, as doenças eram poucas.
  • Em algumas regiões do território Yanomami, nossas crianças estão morrendo por malária, desnutrição, pneumonia e até por infestação de vermes.”

Segundo as mulheres, quando buscam ajuda médica nos postos de saúde, recebem como resposta lamentos sobre a falta de remédios, que nunca chegavam, mesmo com a insistência junto às autoridades.

  • “Essa malária é muito forte e não tem medicamentos para tratá-la. O governo de Bolsonaro acabou com o estoque de cloroquina do Brasil e agora nós sofremos pela sua má gestão.
  • Não queremos ficar chorando porque as pessoas morrem, não queremos ficar chorando até a madrugada. Já temos muitas cinzas mortuárias”, relata o documento.

 

Violência generalizada

Atos violentos se espalharam no território.

  • Em dezembro, invasores queimaram um posto de saúde na região do Homoxi, o que colocou em risco a vida de 700 indígenas.
  • O crime ocorreu após uma operação da Polícia Federal na região.
  • A equipe médica que atuava no posto havia abandonado o local dias antes, após boatos de que os garimpeiros atacariam a unidade.

Agressões de cunho sexual também trazem uma preocupação ainda maior:

  • “Garimpeiros assediam as meninas e outros querem pagar serviços maritais. Eles querem fazer assim, mas nós mulheres não queremos que nossas filhas e netas sejam entregues e abusadas por essas pessoas.
  • Os garimpeiros aliciam os jovens e suas esposas. Esses jovens são atraídos e ficam dependentes dos poucos alimentos industrializados que recebem como pagamento.”

Depois da visita de Lula e de uma comitiva de ministros à TI, a Polícia Federal passará a investigar as acusações de genocídio e crimes ambientais, a pedido do Ministério da Justiça.

 

nádia (@nadiapontes) / Twitter

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Nádia Pontes

Fonte: https://p.dw.com/p/4MY7u

 

 

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