COP27: somos mais, mas podemos ser melhores

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Cidade. População

                Miguel Panão | 15 Nov 2022 | ”Foto © Ishan /Unsplash.

“O planeta até aguenta o nosso peso, mas será que aguenta o peso dos nossos estilos de vida?

 

Chegámos aos oito mil milhões de seres humanos sobre esta Terra. O planeta até aguenta o nosso peso, mas será que aguenta o peso dos nossos estilos de vida?

Se estamos cada vez mais dependentes da energia,

  • o que representam milhares de milhões de pessoas a carregar todos os dias os seus telemóveis,
  • a trabalhar nos computadores, a manter o frigorífico e ar condicionado ligados,
  • apesar de nem todos terem acesso a esses?

O consumo de energia em kWh de cada pessoa nos primórdios da humanidade devia-se, essencialmente, ao metabolismo, pelo que seria cerca de 100kWh por ano.

Actualmente, de acordo com o Statista, esse valor varia

  • entre a Islândia, com 52.980 kWh, e a Nigéria com 135 kWh;
  • os valores ilustram as assimetrias económicas existentes entre os países do mundo e devia levar-nos a pensar que valores orientam os nossos modelos económicos.
  • Aliás, talvez o problema esteja em centralizarmos muitas das decisões em melhorar um paradigma que precisa de ser redirecionado para outro tópico que não o económico.

Vejamos.

Não é mau que uma pessoa consuma muita energia. A Islândia transitou para as energias renováveis desde os anos 1960 e cerca de 85% da energia consumida no país é de fonte renovável:

  • de cada pessoa que consome energia na Islândia, 7947 kWh desse consumo, em média, não têm uma fonte renovável;
  • o número é relevante, mas ainda é 58 vezes superior ao consumo da média de uma pessoa na Nigéria.

Pelo facto de a Nigéria ser um país menos desenvolvido,

  • a primeira ideia é a de que a percentagem das renováveis nessa nação deve ser marginal.
  • Mas o meu espanto foi que, ao pesquisar, me apercebi de que esse valor ronda os 75%.

Se um islandês consome energia para superar o frio, não precisa o nigeriano de consumir energia para superar o calor?

  • Porém, não é o bem-estar que está na raiz do consumo de energia, mas os estilos de vida.
  • Caso contrário, o Índice de Desenvolvimento Humano (que varia entre 0 e 1) não seria 0.535 na Nigéria e 0.959 na Islândia (o terceiro melhor do mundo).

O Índice de Desenvolvimento Humano foi criado

  • para evidenciar como são as pessoas e as suas capacidades que servem de critério último para avaliar o desenvolvimento de um país,
  • não somente o desenvolvimento económico ou o grau de sustentabilidade do mesmo.

E quando colocamos em contraste a diferença entre países como a Islândia e a Nigéria percebemos que

  • não é somente o investimento económico em energias renováveis que nos ajudará a ultrapassar a crise climática,
  • mas antes o investimento nas pessoas e nas suas capacidades.

 

Nesse sentido, as COP (“Conference of the Parties”  ou Conferência das Partes) deveriam tornar-se a “Cooperation of the Parties” (Cooperação das Partes) — de modo a ajudar cada pessoa a desenvolver mais as suas capacidades.

  • As negociações assentam ainda muito no paradigma económico, mas são muitos os que assinalam que esse paradigma é o problema
  • e daí a razão de iniciativas como a Economia de Francisco para actuar na mudança paradigmática.

Mas no caso das alterações climáticas, a urgência de se fazer alguma coisa é grande, e creio que seja também importante alterar o centro de acção da economia para a educação.

 

Chegar aos oito mil milhões de seres humanos representa um desafio para a energia,

  • mas se investíssemos na educação dessas pessoas, como fazemos nos países mais desenvolvidos,
  • a criatividade humana floresceria e o número de soluções aumentaria.

 

É fundamental resolver as necessidades básicas das pessoas que precisam de comer e ter saúde para sobreviver,

  • mas quando se quer impedir um país de crescer,
  • basta afectar a educação dos seus cidadãos.

Basta de economia. Mais investimento em pedagogia.

Fala-se muito em transferência de tecnologia,

  • mas como as pessoas dos próprios países não a compreendem bem,
  • acabam por manter a dependência dos países que as desenvolveram para as manter.

Os países desenvolvidos que financiam os menos desenvolvidos para investirem em tecnologia que os mais desenvolvidos vendem, parece-me ser mais um esquema do que uma vontade de resolver o problema.

  • Mas se o financiamento ajudar na educação das pessoas em países com menos desenvolvimento e que mais sofrem com as alterações climáticas,
  • a compreender a ciência e a tecnologia que melhora a captação, armazenamento e uso da energia de fonte renovável,
  • ajudará a gerar, hoje, mentes criativas para enfrentar os desafios de amanhã.

O que seria preferível:

  • dar dinheiro para comprarem painéis solares
  • ou financiarem estudos para gerar mentes que inventam novas formas de captação da energia solar?

A ideia de fundo do Índice de Desenvolvimento Humano é a de investir mais nas pessoas do que nas tecnologias e crescimento económico.

Mas, em todas as COP, a sensação é a de querer limpar um vidro com um pano oleado.

Somos mais, mas somos também capazes de ser e fazer melhor. Poderíamos começar por voltar o olhar da economia para o educar.

 

 

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Miguel Panão

é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.

Fonte: https://setemargens.com/cop27-somos-mais-mas-podemos-ser-melhores/

 

 

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