“É preciso passar da era do progresso à era da resiliência.” Entrevista com Jeremy Rifkin

 

Angelo Consoli – 12 Novembro 2022 | Link da Imagem: DAQUI

 “Não é o planeta que está em perigo, mas o ser humano. O dogma da eficiência e do crescimento nos levou à beira da extinção. Só temos uma forma de nos salvar: dar adeus ao consumismo e fazer as pazes com a natureza.”

É o que afirma o economista e guru do ambientalismo Jeremy Rifkin.

A reportagem é de Angelo Consoli, publicada em The Post International, 11-11-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto

 

Eis a entrevista.

 

Furacões, incêndios, secas, inundações. O que está acontecendo no planeta Terra?

Jeremy Rifkin

Jeremy Rifkin – Foto: DAQUI

A Terra está se renaturalizando.

As consequências catastróficas das mudanças climáticas

  • nada mais são do que reações naturais de um planeta que segue as regras da termodinâmica
  • em um ecossistema em que tudo está interligado.

Por muito tempo,

  • pensamos que poderíamos forçar a natureza a se adaptar às necessidades da nossa espécie,
  • mas agora somos nós que temos que nos adaptar a um mundo imprevisível.

Ou enfrentaremos a sexta extinção em massa na história da Terra.

 

O ser humano tem consciência disso?

A consciência humana está mudando diante das convulsões provocadas pelas pandemias e pelo aquecimento global.

  • Esses fenômenos destroem a vida das pessoas e a economia:
  • para nós, são um problema, mas não o são para o nosso planeta, que está simplesmente se renaturalizando.

 

Como chegamos a este ponto?

É a ideologia do progresso a todo o custo que nos levou à beira do abismo ambiental.

Assumimos como evidente uma concepção do tempo e do espaço em que a natureza é considerada um obstáculo incômodo à realização do progresso e às exigências da economia.

  • Mas agora o planeta, ao se renaturalizar, nos apresenta a conta.
  • E a única maneira que temos de nos salvar é substituir a Era do Progresso por uma nova visão forte, a da Era da Resiliência.

 

Em que consiste essa virada?

A grande revolução

  • consiste em passar da ideia de que a natureza deve se adaptar ao ser humano
  • para uma ideia segundo a qual o ser humano deve se adaptar à natureza.

Isso põe em discussão a concepção baconiana que considera a Terra como um recurso reservado ao consumo exclusivo da nossa espécie.

Para superar essa concepção errada, está sendo preparado um novo e inédito paradigma científico, que uma nova geração de cientistas chama de “Cases”, ou “Sistema complexo para a adaptação ecológica e social”.

 

O que ele envolve?

  • Considerar a natureza como fonte de vida, e não como recurso,
  • e perceber a Terra como um sistema complexo que se auto-organiza e evolui para metas desconhecidas, com espírito de adaptação.

 

Em que valores se baseia a Era do Progresso?

Na Era do Progresso, a chave é o conceito de eficiência,

  • a fim de otimizar a exploração e o consumo das riquezas do planeta em tempos cada vez mais rápidos e em ritmos cada vez mais elevados:
  • uma eficiência que envolve a eliminação de todos os fatores de redundância que podem retardar a otimização das atividades econômicas.

Assim, o principal papel do governo e da economia é administrar a natureza como uma propriedade:

  • a nossa missão passou a ser extrair sem parar pedaços do mundo natural,
  • mercantilizá-los e consumi-los, para depois descartá-los.

 

E na Era da Resiliência?

Na Era da Resiliência, pelo contrário, a redundância e a diversidade são premiadas: nos ecossistemas, a diversidade protege contra o colapso e as perturbações.

  • Quando o Homo sapiens surgiu, menos de 1% da biomassa total da Terra era utilizado pelo gênero humano.
  • Em 2005, usávamos 24%.
  • Em 2050, poderá chegar a 44%, deixando aos demais seres vivos apenas 56% da produção primária líquida da fotossíntese no planeta.

Talvez estejamos finalmente começando a perceber que não temos nenhum domínio sobre o planeta e que é a natureza que está no controle total da vida sobre a Terra.

 

Em seu livro “A Era da Resiliência”, você lembra que essa vontade de dominar a Terra deriva da promessa feita, segundo a Bíblia, por Deus a Adão e Eva, segundo a qual eles e seus herdeiros teriam “o domínio sobre os peixes do mar, as aves do céu, o gado e todos os répteis que rastejam sobre a terra”.

A resiliência nos salvará”. Entrevista com Jeremy Rifkin - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Foto: Reprodução

Essa promessa, infelizmente ainda levada a sério, além de suas conotações teológicas, levou ao colapso dos nossos ecossistemas planetários.

  • Porém, ela não autorizava os descendentes de Adão a queimarem combustíveis fósseis emitindo gases de efeito estufa na atmosfera.
  • Nem a encher os mares com microplásticos.
  • Nem ainda a destruir milhares de quilômetros quadrados de floresta amazônica para alimentar o comércio internacional de carnes.

Esse domínio podia ser exercido de forma mais respeitosa da vida dos outros animais e do ambiente.

 

Você defende que estamos começando a nos dar conta do problema.

Para as gerações mais jovens, os parâmetros estão mudando:

  • da ideia de crescimento à de florescimento,
  • do capital financeiro ao capital ecológico,
  • do PIB ao “Bem-estar Interno Bruto”,
  • do consumismo à ecoproteção,
  • da linearidade à circularidade,
  • de economias de escalas verticalmente integradas às cadeias de valor distribuídas horizontalmente:

em suma, da Globalização à Glocalização; e da geopolítica à política da biosfera.

 

Em seu livro, você retoma a polêmica questão do paradoxo da empatia, segundo o qual o desenvolvimento de uma consciência empática foi possibilitado por um consumo cada vez maior de energia e recursos naturais com uma consequente e drástica deterioração da saúde do planeta. Como é possível sair disso?

Temos que mudar totalmente a nossa relação com os recursos naturais: os agentes naturais são muito mais poderosos do que nós.

  • A nossa espécie estava se preocupando por ter colocado o planeta em perigo,
  • mas agora deve reconhecer que ela mesma está em perigo.

 

Não é uma visão um pouco catastrófica demais?

A catástrofe está no horizonte, mas podemos evitá-la, se nos tornarmos resilientes à mudança em curso.

Devemos abandonar as falsas ideias de progresso e eficiência, e abraçar uma nova visão em que o ser humano e o planeta estejam em simbiose e não em guerra.

 

Os conceitos de progresso e eficiência são universalmente considerados como positivos: em vez disso, você faz uma inversão desses valores.

Era do Progresso, outrora considerada sacrossanta, já está em seu declínio: a eficiência nos prende no incessante esforço de otimizar a expropriação, a mercantilização e o consumo dos dons da Terra com o objetivo de aumentar a opulência da sociedade humana.

O fundador do ambientalismo moderno, Samuel P. Hays, resumiu a questão assim:

  • “Os apóstolos do Evangelho da eficiência subordinavam o aspecto ambiental ao utilitário.
  • Na visão deles, a conservação da paisagem natural e dos sítios históricos permanecia subordinada ao incremento da produtividade industrial”.

A retórica da eficiência nas primeiras décadas do século XX, inspirada em mentes sublimes como Charles Darwin e Frederick Taylor,

  • além de justificar a mais selvagem exploração do ser humano pelo ser humano,
  • tornou-se um expediente conveniente para se esquivar da interrogação fundamental:
  • sobre as responsabilidades do gênero humano em relação à natureza.

 

Falemos sobre produtividade. Por que ela se tornou tão importante nos nossos estilos de vida?

A produtividade é apenas um conjunto de inputs e outputs, associadas especialmente à tecnologia, que acompanham práticas comerciais.

  • Tanto a produtividade quanto a eficiência são processos lineares, não circulares, e são limitados no tempo:
  • têm enormes efeitos negativos sobre a natureza, mas são positivos para a produção e o mercado.

 

Demos alguns exemplos.

O esgotamento dos nutrientes no solo, a destruição das florestas, o aquecimento da atmosfera, o envenenamento dos mares:

  • tudo isso são externalidades negativas, mas aumentam a eficiência e a produtividade, e permitem que as empresas exploradoras aumentem seus lucros, aumentando a entropia no planeta.
  • Nos ecossistemas biológicos, por outro lado, a produtividade não é medida em termos de eficiência, mas de regeneratividade e adaptabilidade.

 

Você explica que o aumento da eficiência se traduz em redução dos postos de trabalho e em consumidores mais endividados.

E também em menos equidade, igualdade, direitos políticos, moralidade.

  • A eficiência foi exaltada como uma lei da natureza acima de tudo,
  • como se questionar esse conceito significasse se chocar com as leis imutáveis do mundo natural.
  • Infelizmente para nós, é exatamente o contrário!

 

Em sua opinião, o impacto que a nossa espécie teve sobre a Terra foi catastrófico…

  • Há um século, a superfície terrestre ainda era 85% selvagem.
  • Hoje é menos de 23%.
  • E se prevê que ela desaparecerá totalmente nas próximas décadas.

A responsabilidade por tudo isso

  • é da comunidade científica e dos profissionais da economia e das finanças,
  • que têm sustentado a narrativa segundo a qual a economia global e o livre mercado são a melhor garantia para promover os interesses de todos.

Hoje vemos que absolutamente não é bem assim: o planeta e os ecossistemas foram sacrificados à lógica do lucro, e não do bem-estar coletivo.

 

Em seu livro, você anuncia uma grande virada iminente no planeta.

Trata-se da evolução natural da relação entre a nossa espécie e o planeta. Durante a maior parte do nosso tempo na Terra, encontramos maneiras de nos adaptarmos continuamente às forças avassaladoras da natureza.

  • Depois, 10 mil anos atrás, no início do Holoceno, iniciamos um novo curso, forçando a natureza prometeicamente a se adaptar a nós.
  • Com a ascensão dos grandes impérios agrícolas hidráulicos, há seis mil anos, e mais recentemente com as revoluções industriais do fim da Idade Média e da Idade Moderna – que renomeamos como “civilização” – exercemos um crescente domínio sobre o mundo natural.

Pois bem,

  • agora chegou a hora de inverter essa tendência e voltar a adaptar a nossa espécie à natureza.
  • Essa grande mudança será a prova da capacidade da nossa espécie de sobreviver e de florescer novamente em um planeta que está se renaturalizando.

 

O que significa “consciência biofílica” na nova visão que você propõe?

Ironicamente, a nossa espécie, ao contrário dos nossos semelhantes, é um Jano de duas faces:

  • podemos destruir tudo, mas também somos potencialmente os detentores da solução.
  • Possuímos uma qualidade especial nos nossos neurocircuitos: o impulso empático.

Nos últimos anos, por exemplo, as gerações mais jovens começaram a estender o impulso empático aos nossos amigos animais, que fazem parte da nossa mesma família evolutiva.

Na Era da Resiliência, teremos que repensar a maneira como educamos os nossos filhos:

  • deixar que a biofilia natural, ou seja, o impulso incorporado na composição genética de uma criança,
  • possa se expressar e prosperar na idade pré-escolar e continuar amadurecendo ao longo da escola, no trabalho e na vida social.

Isso já está acontecendo.

 

Onde?

  • Nos Estados Unidos, 5.726 escolas introduziram recentemente cursos de ciências ecológicas em seu currículo. Eles são frequentados por 3,6 milhões de crianças.

Os estudantes estão aprendendo o que são as mudanças climáticas e estão se empenhando a combatê-la na prática, com atividades como

  • o monitoramento da fauna selvagem,
  • a observação das mudanças climáticas, da seca e das condições do solo,
  • a limpeza das bacias hidrológicas,
  • a medição da pegada de carbono
  • e o rejuvenescimento dos ecossistemas locais.

Isso é o que os biólogos chamam de “consciência biofílica”.

 

Como o sentido da vida está mudando para as novas gerações?

Estamos começando a entender que as nossas vidas – a biosfera – são extensões das esferas da Terra:

  • a hidrosfera para a água,
  • a litosfera para os minerais e nutrientes,
  • a atmosfera para o oxigênio.

Elas nos atravessam continuamente sob a forma de átomos e moléculas que se instalam nas nossas células, nos tecidos e nos órgãos, conforme prescrito pelo nosso DNA, para depois serem substituídos em intervalos específicos durante a nossa vida.

Talvez alguém se surpreenda ao saber que a maioria dos tecidos e dos órgãos que compõem o nosso corpo se renovam periodicamente: por exemplo,

  • o esqueleto se renova a cada 10 anos;
  • o fígado, a cada 300 ou 500 dias.

Ainda mais surpreendentemente, compartilhamos o nosso corpo com muitas outras formas de vida: bactérias, vírus, protistas, arqueas, fungos.

 

E então?

Nós acreditamos que as espécies e os ecossistemas da Terra param nas margens do nosso corpo,

  • mas na realidade eles fluem continuamente para dentro e para fora de nós.
  • Cada um de nós é uma membrana semipermeável na qual se estendem as esferas da Terra.

 

E como isso impacta o “sentido da vida”?

Isso deveria despedaçar a falsa convicção de que a nossa espécie está separada da natureza que nos cerca.

  • Inúmeros relógios biológicos regulam os nossos ritmos corpóreos internos e os adaptam continuamente
  • aos circadianos, aos ritmos das marés, aos ciclos sazonais e anuais que marcam a rotação da Terra e sua passagem ao redor do Sol.

Pertencemos à Terra com cada uma de nossas menores células.

O Eu autônomo da Era do Progresso está dando lugar ao Eu ecológico da Era da Resiliência.

 

Você também quer repensar a noção de governança e introduzir o conceito de biorregiões transnacionais. Que transformação elas trazem na organização da sociedade e da política representativa?

Na Era da Resiliência,

  • a governança passa da soberania de uma nação sobre os recursos naturais
  • para a proteção supranacional dos ecossistemas regionais,
  • que não conhecem fronteiras nacionais.

Isso já ocorre:

  • por exemplo, cinco Estados do noroeste dos Estados Unidos e cinco províncias dos territórios canadenses adjacentes
  • criaram a biorregião supranacional dos grandes lagos chamada de “Região Econômica do Noroeste do Pacífico”
  • para proteger os próprios ecossistemas comuns, o próprio “capital natural”.

Estamos nos encaminhando para um futuro

  • em que os muros construídos artificialmente no meio de ecossistemas homogêneos são demolidos
  • e passamos da representação política indireta (democracia representativa) para formas de representação direta
  • como as assembleias paritárias transnacionais de cidadãos, percebidas como mais adequadas para governar o compromisso abrangente necessário
  • para a preparação e a adaptação aos desastres climáticos cada vez mais virulentos e suas consequências.

 

Como funcionam essas assembleias de cidadãos?

Eles são escolhidos aleatoriamente para exercer vários níveis de poder político e decidir

  • a alocação de fundos, a partilha das medidas de segurança,
  • a prevenção, o socorro em caso de desastres climáticos,
  • os sistemas da escola pública,
  • a polícia de proximidade,
  • a implantação de infraestruturas resilientes
  • e a gestão de serviços ecossistêmicos locais.

Atualmente, as assembleias de cidadãos que operam no mundo são mais de três mil.

 

O que podemos fazer para proteger e valorizar o capital natural das biorregiões?

Nada: deixá-lo em paz. E nos adaptarmos à natureza e à sua evolução. Na nova Era da Resiliência, a eficiência dá lugar à adaptabilidade, trazendo consigo mudanças profundas na economia e na sociedade.

 

É razoável pensar que a geração que causou o problema ao permitir a privatização dos bens comuns pode propor soluções?

Eu acredito muito na “Geração Greta”: ela é animada por uma nova consciência biofílica que já começa a se afirmar nas escolas, reorientando-se para novos princípios em substituição aos antigos.

 

Qual a probabilidade de o ser humano ter sucesso nisso?

Se há outros caminhos, eu não os vejo. Em um momento em que a família humana teme profundamente pelo seu próprio futuro,

  • Era da Resiliência traz consigo uma nova e poderosa narrativa
  • que, se se afirmar, pode lançar as bases para um futuro radicalmente diferente, l
  • evando-nos de volta ao redil da natureza.

Dando à vida uma segunda chance de florescer sobre a Terra.

Angelo Consoli

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/623873-e-preciso-passar-da-era-do-progresso-a-era-da-resiliencia-entrevista-com-jeremy-rifkin#

 

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