“A lógica que gerou avanço evangélico é a mesma que leva a seu caráter autoritário”. Entrevista com Jung Mo Sung

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Ricardo Whiteman Muniz – 07 Novembro 2022 – Foto: DAQUI

  • A pressão escancarada de pastores bolsonaristas para que seus fiéis votassem no candidato de extrema-direita, derrotado nas urnas em 30 de outubro, pode levar a uma debandada de crentes incomodados com o jogo político pesado no interior da “casa de Deus”?
  • Para além dessa questão recente no país, há algo na doutrina cristã que explica episódios como o apoio ao racismo nos Estados Unidos, ao apartheid na África do Sul ou à ditadura militar brasileira?
  • Qual o peso e a influência dos líderes desse campo religioso que não compactuam com tal processo?

 

Jung Mo Sung - Estudos Hegel

Responde Jung Mo Sung,   Foto: Reprodução)

Naturalizado brasileiro, Sung  nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1957 e radicou-se no Brasil em 1966. É membro do comitê científico do grupo de trabalho Class, Religion and Theology da American Academy of Religion

Sung é utor de A idolatria do dinheiro e os direitos humanos (2018) e Desejo, mercado e religião(2000), entre outros

A entrevista é de Ricardo Whiteman Muniz, publicada por ComCiência, 03-11-2022.

 

Eis a entrevista.

Diante das pressões políticas e eleitorais no interior de igrejas evangélicas a favor do candidato de extrema direita, derrotado nas urnas em 30 de outubro após casos documentados de compra explícita de votos, uso e abuso da máquina pública e intimidação por parte de patrões e pastores, pode haver a partir de agora uma debandada das igrejas? A vertente evangélica do neofascismo traz embutido um “tiro no pé”, algo como “as coisas foram longe demais”?

Penso que a lógica e a teologia que gerou o grande crescimento das igrejas evangélicas e pentecostais é a mesma que está levando a esse seu caráter autoritário – prefiro esse termo do que neofascismo.

E o crescimento de um grupo aumenta também seus problemas e diferenças internas. Nesse sentido, o processo que você está chamando de “debandada”  é previsível. O tempo vai dizer.

  • crescimento do pentecostalismo não pode ser entendido sem o uso dos rádios e das TVs , que têm um custo altíssimo e também o potencial de gerar superávits ou lucros.
  • Só se pode manter esse sistema Igreja-TVs/rádios com a aumento de números de membros que contribuem financeiramente e a promessa e o pagamento da benção econômica”, que fortalece uma espiritualidade de consumo e a acumulação de riqueza dos bispos proprietários das igrejas.

É importante deixar claro que

  • o bispo proprietário da Igreja e do “canal das bênçãos”é e deve ser autoritário, pois ele ou ela representa o Deus-Poderoso na vida dos crentes.
  • aliança com Bolsonaro pode acabar na medida em que ele perde o poder que atrai os bispos e pastores.
  • Mas o sistema já existia antes de Bolsonaro e vai existir depois.

Esse tempo de Bolsonaro é o ápice, por enquanto, de um sistema que tem uma certa coerência, mesmo que ética (ou teologicamente) equivocada.

É um sistema que, se entra, é muito difícil sair, pois é uma lógica sacralizada. Biblicamente eu poderia dizer que é um sistema econômico-religioso idolátrico. Mas para eles, divino.

 

Há algo no DNA da doutrina que intrinsecamente desemboca no autoritarismo, no fascismo, no racismo, na misoginia e no apoio a regimes de exceção, como ocorreu no Brasil com o apoio aberto das igrejas protestantes – salvo raras exceções – ao golpe de 64 e agora a Bolsonaro, chamado em muitas igrejas de “homem de Deus”?

Sua pergunta é muito importante mas difícil

  • porque coloca em discussão um tema “metafísico”, não no sentido de que se trataria de algo que está além do mundo físico ou real, nem no sentido de discutir o “ser”em si– por exemplo, o ser do cristianismo –,
  • mas sim sobre as condições de possibilidade de conhecimento e de funcionamento de um determinado sistema de pensamento.

Qualquer sistema social ou grupo social tem que resolver os problemas da produção e da reprodução da vida.

 

  • Estar vivo é uma condição necessária para qualquer coisa e para isso precisa tomar decisões frente aos desafios e problemas que o seu meio ambiente natural-social coloca.
  • Diante dos desafios, é preciso decidir qual ou quais caminhos a tomar.
  • Normalmente é uma discussão técnica, no sentido moderno de definir qual é a melhor forma de usar os meios escassos para atingir os objetivos.

É o tema da eficiência do uso dos meios escassos.

 

Mas, o que não costumamos analisar e discernir

  • é sobre o fim último ou os valores fundamentais que norteiam as opções concretas
  • que levam os agentes ou atores sociais a fazerem ou não determinadas ações.

Nas décadas de 1950 a 70, o mundo estava claramente dividido entre o sistema capitalista e o comunista.

  • No lado capitalista, não se discutia se o sistema de mercado capitalista  era melhor ou pior do que o comunismo.
  • Era claro ou óbvio que o mercado capitalista era o melhor ou o único modo de organizar a economia e a vida social para… Para quê?
  • Não sabíamos bem qual era esse objetivo “final” do caminho.

Isso porque

  • utopia do capitalismo era o horizonte que dava e dá ainda o sentido das ações, das opções concretas no interior do caminho.
  • Assim como no lado comunista, a utopia dava o horizonte de sentido para os planos econômicos e o controle do Estado sobre a vida social, isto é, seus objetivos específicos.

Sem a utopia não temos como ver e analisar se estamos melhorando ou piorando o que queremos fazer ou onde chegar. A noção de aperfeiçoamento pressupõe a ideia do perfeito.

  • A noção do “mercado perfeito” ou do Mercado (perfeitamente) Livre é o que permite aos economistas neoliberais decidir suas escolhas políticas e econômicas e criticar outras propostas.
  • Assim funcionava nos países do bloco comunista, com a noção de Planejamento Estatal Perfeito”.

Esse processo de

(a) imaginar uma realidade utópica,

(b) analisar a partir dos conceitos transcendentais (por exemplo, Mercado Livre, Planejamento Perfeito, o Reino de Deus…) quais são os problemas, as suas causas e as soluções

(c) estabelecer os objetivos específicos e o seu caminho

é a condição de possibilidade de pensar e de atuar para nos mantermos vivos.

É disso que eu estou tratando como as “questões metafísicas”.

 

O mundo moderno, diferentemente do antigo ou pré-moderno, crê que seres humanos são capazes de atingir a perfeição ou o infinito.

  • Acredita que a constante evolução tecnológica nos levará a alcançar a realização dos desejos infinitos, por exemplo, a riqueza ilimitada ou a vida além da morte corporal.
  • É a ilusão de que com passos finitos poderemos chegar ao infinito, que Hegel criticou com a noção de “má infinitude”.
  • Essa ilusão de que encontramos uma instituição humana capaz de nos levar ao “Paraíso”e que, portanto, se precisar devemos oferecer todos os sacrifícios necessários para chegar lá.
  • realização do desejo infinito requer e justifica todos os sacrifícios humanos.

Essa lógica sacrificial  aparece

  • no discurso econômico capitalista dos custos/sacrifícios necessários (dos pobres e trabalhadores, normalmente) para o crescimento econômico;
  • no comunismo
  • e também nas religiões, incluindo o cristianismo.

O que quero chamar atenção é que

  • esse discurso sacrificial é resultado da ilusão de que
  • é possível construir um sistema social ou instituição que nos levaria ao Paraíso,
  • seja na terra ou na vida pós-morte.

Encontramos, por exemplo,

  • no cristianismo medieval a doutrina de que a salvação é possível por meio de oferecer sacrifícios demandados pela Igreja em nome de Deus.
  • Assim, a Igreja é vista como o caminho para chegar à vida eterna ou o chamado Reino de Deus.
  • Com isso, identifica a Igreja com o Reino de Deus e a sacraliza.

 

No mundo moderno capitalista, com o seu mito do Progresso, e nos dias de hoje, vivemos na ilusão de que o Mercado Livre realizará o desejo ilimitado aos que “merecem”.

Em outras palavras,

  • todos os sistemas sociais ou culturais que são capazes de se reproduzir
  • têm dentro de si essa ilusão de realizar o desejo “impossível”
  • por meio de uma instituição que, para isso, exige sacrifícios.

 

Na questão específica do cristianismo atual e a sua aliança com setores neoliberais e autoritários, é preciso agregar algumas outras questões.

cultura de consumo, que surge nos países ricos do capitalismo na década de 1950, entra nas igrejas cristãs com uma nova teologia:

  • Deus é favor do consumismo e as bênçãos divinas se manifestam publicamente por meio de ostentação de mercadorias-símbolos – a Teologia da Prosperidade.
  • Há uma profunda inversão na compreensão cristã sobre o dinheiro e a ostentação do consumo.

Agora pobre não é objeto de caridade ou cuidado, mas é visto como pecador, amaldiçoado por Deus.

 

Além disso, com o aumento da concorrência no mercado profissional,

  • os cristãos de classes média e baixa, com pouca formação educacional e técnica,
  • buscam em Deus, isto é, na igreja, o “poder” para entrar e se manter no mercado consumidor.

Há nesse processo uma relação de troca:

eles pedem a benção na forma de poder de consumo em troca de uma vida cristã ativa, militante.

E qual seria essa militância religiosa tão poderosa que lhe garantiria essas bênçãos?

Antes da cultura de consumo, ser cristão militante era lutar contra o mundo moderno. Mas, a partir da década de 1970 a luta e os inimigos mudam.

  • No lado da Teologia da Libertação e as Cebs (Comunidades Eclesiais de Base), com a opção pelos pobres,
  • injustiça social do capitalismo passa a ser “o” inimigo a ser combatido
  • e para essa luta abraça as ciências sociais modernas e a política.

Por outro lado,

  • há um outro setor do cristianismo que assume a ideia de que também os pobres têm o direito de uma vida melhor, mais próspera,
  • valorizando o consumismo. Mas são pró capitalismo.

 

Para esse grupo, o principal agente de transformação da situação econômica é Deus

  •  e a principal ação da Igreja nessa caminhada não é lutar contra as injustiças do capitalismo, como é para a linha da Teologia da Libertação,
  • mas lutar contra os inimigos de Deus.

Na medida em que essas igrejas abraçam a cultura de consumo, que é moderna,

  • a benção divina, manifestada e comprovada no aumento da capacidade de consumo,
  • é conquistada pela sua guerra espiritual contra os novos inimigos de Deus: os comunistas e os “gays”.

 

Os “comunistas são inimigos de Deus

  • não porque são ateus, pois acusam também cristãos que creem em Deus de comunistas,
  • mas porque eles querem “dar”dinheiro aos pobres que são pecadores.

Ao dar dinheiro aos pobres e dizer que todos seres humanos têm direitos sociais,

  • esses comunistas estão contra o modo como Deus distribui as “bênçãos”,
  • isto é, o processo de distribuição de riqueza, a meritocracia”, por meio do Mercado Livre.

Estabelece-se aqui uma identificação entre a benção distribuída por Deus e aideologia da meritocraciado mercado neoliberal.

 

E como essa guerra é espiritual, divina, é preciso, na mentalidade deles, o envio por parte de Deus de um ou “o” Messias.

O Messias enviado é, por definição na cultura religiosa desse tipo,

  • uma autoridade que deve se impor sobre as leis humanas.
  • A perspectiva da democracia se opõe à noção de messianismo, seja na direita ou na esquerda.

 

luta contra os comunistas não é algo tão cotidiano, pois é uma figura meio abstrata.

Por isso,

  • para se garantir como parte da comunidade ou da igreja que canaliza essas bênçãos de Deus,
  • esses cristãos e cristãs precisam entrar na guerra espiritual contra aqueles e aquelas que ameaçam a família tradicional, patriarcal,
  • que Deus teria criado: a comunidade LGBT+.

 

figura mítica de Bolsonaro é a expressão de uma visão teológica que alia o neoliberalismo, o fascismo/autoritarismo, a cultura de consumo e uma religiosidade tradicional presente em muitas religiões do mundo.

 

O desejo de poder e influência de pastores por si explica o apoio massivo de evangélicos a Bolsonaro? Tudo se resume a isenção de impostos, concessões de TV e rádio?

As noções de poder e influência, que se expressariam concretamente em objetivos bem específicos como isenção de impostas e concessões, são importantes, mas penso que não dão conta dessa relação.

  • Para entendermos um pouco mais a relação entre Bolsonaro e os pastores, eu penso que é útil discutirmos a questão do ressentimento.
  • Uma questão central do ressentimento é o sentimento de que eu/nós não sou/somos tratados como merecemos e nos sentimos mal com isso.

Essas lideranças são vistas e tratadas com respeito e admiração pelos membros das igrejas e se sentem escolhidas por Deus.

O problema é que

  • quando participam em eventos ou reuniões organizadas ou dirigidas por pessoas de formação ilustrada, isto é, com um discurso teológico e/ou político moderno ilustrado,
  • são tratados como “menores”.

Isto é, são vistas e tratadas como pessoas

  • que ainda não assumiram a “maioridade”,
  • que ainda não estudaram a teologia moderna com a exegese moderna
  • e usam uma linguagem religiosa tradicional para falar da vida e dos desafios da igreja e da sociedade.

Ao serem tratadas assim, de forma não respeitosa, essas lideranças e membros comuns das igrejas se sentem mal e se defendem ou se distanciam.

Pior ainda

  • quando essas lideranças não são convidadas a participar em eventos públicos importantes em que gostariam de estar
  • e de que se sentem com merecimento pela sua liderança.

O ressentimento se acumula.

Bolsonaro é aquele líder político que dá lugar especial a essas lideranças religiosas anti-modernas e expulsa aquelas que não os respeitam.

Penso portanto que a relação entre os pastores evangélicos e pentecostais com ele

  • vai muito além da questão “material”dos impostos ou dos cargos,
  • é uma questão de autoestima e ressentimento.

 

Qual é o real peso e influência de pastores dissidentes diante da onda neofascista no interior das igrejas evangélicas?

Com certeza os pronunciamentos de pastores, pastoras e lideranças pentecostais e evangélicas são muito importantes, tanto para a sociedade quanto para cristãos e igrejas menores.

Mas, é muito difícil medir e pesar. Isso só vai ficar mais claro daqui a um tempo.

Uma questão importante é: qual é a régua com a qual medimos esse processo?

  • Eu penso que as categorias das ciências sociais e das ciências da religião modernas, as com que quase todos nós estudamos,
  • não dão mais conta do mundo atual.

Por exemplo,

  • relação entre a religião e a política, ou a relação entre Igreja e Estado, mudou profundamente
  • e as categorias usadas a partir da noção de secularização [processo em que a religião em geral perde influência sobre as variadas esferas da vida social] não são suficientes ou não apropriadas.

 

Pois, na verdade,

  • fora da Europa o mundo não foi secularizado como os cientistas sociais pensavam.
  • E a noção de sociedade pós-secular   (Habermas) e a de “capitalismo como religião” (W. BenjaminF. Hinkelammert)
  • nos obrigam a repensar a relação entre a religião e a política.

O que podemos dizer agora é que esses pastores que, além da ação nas suas igrejas, atuam nas redes sociais têm um papel fundamental para que cristãos e cristãs possam resistir a essa onda autoritária e neoliberal.

 

Ricardo Muniz e Vivian Whiteman - Comtudo

Ricardo Whiteman Muniz

é jornalista (Cásper Líbero, 2004), bacharel em direito (USP, 1993) e mestre em sociologia da religião (Metodista de São Paulo, 2000). …

Editou entre 2011 e 2017 a revista Ensino Superior (Centro de Estudos Avançados) e o site Inovação (2011-2013) da Unicamp. É coeditor executivo da revista digital ComCiência (parceria do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp com a SBPC). …

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/623648-a-logica-que-gerou-avanco-evangelico-e-a-mesma-que-leva-a-seu-carater-autoritario-entrevista-com-jung-mo-sung

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