Espiritualidade e autonomia. Artigo de Raúl Zibechi

“Falta ainda compreender a espiritualidade como núcleo de uma ética da vida que questiona nossos modos de viver, em particular o individualismo. Uma ética que sustente aqueles que resistem ao capitalismo, que não se vendem, não claudicam, nem se rendem”,
escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 21-10-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

Nós que fomos formados no materialismo e no pensamento crítico eurocêntrico temos sérias dificuldades em compreender e assumir o papel da espiritualidade nos processos emancipatórios.

  • Somos profundamente dependentes da célebre frase de Marx que se referia à religião como o ópio dos povos,
  • e parece nos reconfortar a redução do espiritual às instituições eclesiais hegemônicas.

No entanto, ignorar a espiritualidade dos povos leva à reprodução do capitalismo através do individualismo e do consumismo.

Graças ao apoio de um pequeno grupo de ativistas do Brasil, pude conhecer o território indígena Tenondé Porá, habitado por guaranis mbyas nas matas do sul do município de São Paulo.

  • Nos últimos 10 anos, empreenderam intensas lutas através da retomada de terras ancestrais,
  • processo em que recuperaram quase 16.000 hectares e fundaram 12 aldeias novas, onde antes havia apenas dois.

 

Indígenas guarani mbya pressionam por “cinturão verde” em SP

Indígenas guarani mbya pressionam por “cinturão verde” na cidade de São Paulo – Foto: DAQUI

A experiência vivida na aldeia Kalipety,

  • os diálogos com membros da comunidade, as partilhas com amigos e, sobretudo, a participação em rituais na casa de reza,
  • mostraram-me as limitações do pensamento crítico em que fomos formados [1].

Uma dessas limitações, vinculada a um materialismo estreito,

  • é a incompreensão da espiritualidade como argamassa das comunidades,
  • de seu vínculo com a terra e o território,
  • e como eixo de suas resistências passadas e atuais.

 

Espiritualidade que não é religião, nem ideologia.

  • Envolve os corpos e não apenas as mentes,
  • recria-se no cotidiano e sustenta a vida humana e não humana.

Nas aldeias

  • não existem monoculturas, nem a concentração dos meios de produção
  •  e tudo o que se consome é produzido trabalhando,
  • boa parte disso por meio de trabalhos coletivos.

 

Diferentemente das místicas ou eventos culturais dos movimentos sociais, que por breves períodos acompanham mobilizações e formações,

  • para os guaranis mbyas a espiritualidade é entendida em um tempo sem tempo, como escreveu Mario Benedetti.
  • casa de reza é o centro simbólico da vida comunitária.
  • Todos os dias, ao entardecer, a comunidade dança e canta ao som de suas músicas, por algumas horas.

Em certas ocasiões, a reza se estende até o amanhecer.

 

espiritualidade não é praticada para obter um fim, para conseguir algo que se pede a alguém (deuses, sacerdotes ou políticos).

  • Reza-se para ser, para continuar sendo o que se é, individual e coletivamente,
  • para continuar sendo povos diferentes.

O vídeo sobre Las Abejas de ActealTeciendo el territorio, aprofunda esse assunto sem mencioná-lo, pela naturalidade com que o povo tsotsil e os povos maias resistem e reproduzem suas vidas.

 

As espiritualidades dos povos, suas cosmovisões e valores estão intimamente ligados à luta pela autonomia.

A reflexão de Francisco López Bárcenas, em Autonomías y derechos indígenas en México, ressalta formas de mobilização invisíveis para o exterior como as que “realizam dentro de si mesmos”.

Nessas práticas,

  • recorrem aos seus guias espirituais com o objetivo de restabelecer a harmonia entre os homens deste tempo e os do passado,
  • bem como entre a sociedade e seus deuses.

Em seus lugares sagrados, fazem oferendas e se comprometem a recompor suas relações com seus antepassados, suas divindades e a natureza.

A reflexão termina relacionando espiritualidade e autonomia.

  • Como muitos não as veem ou as vendo não as entendem, pensam que os povos não se mobilizam,
  • quando na verdade são as mobilizações mais significativas para os povos,
  • porque a partir delas constroem sua autonomia.

 

Considerar a espiritualidade um suporte para a autonomia

  • implica superar o materialismo estreito,
  • para adotar uma visão mais ampla.

 

No pensamento ocidental, a chave da comunidade é a terra coletiva, entendida como um meio de produção e não um espaço integral de vida.

  • Pelo que pude sentir, e pelo que se constata onde os povos resistem (mais uma vez recordo as quatro famílias de Nuevo San Gregorio),
  • espiritualidade é um aspecto central que complementa e sustenta a posse coletiva das terras.

As resistências dos povos

  • se organizam em torno de suas próprias cosmovisões e espiritualidades.
  • Não parecem preocupados com ideologias ou programas, como acontece com o pensamento crítico eurocêntrico.

Falta ainda compreender a espiritualidade como núcleo de uma ética da vida que questiona nossos modos de viver, em particular o individualismo. Uma ética que sustente aqueles que resistem ao capitalismo, que não se vendem, não claudicam, nem se rendem.

Nota

[1] Minhas reflexões estão entrelaçadas com as de várias pessoas: Tato Iglesias, da Rede Trashumante, na Argentina; Silvia Beatriz Adoue, professora na Escola Florestan Fernandes, do MST, e os antropólogos Lucas KeeseAlana Moraes e Salvador Schavelzon.

 

Unser Autor: Raúl Zibechi • Assoziation A • Berlin/Hamburg

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Raúl Zibechi

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/623259-espiritualidade-e-autonomia-artigo-de-raul-zibechi#

 

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