As religiões na escola

O ENSINO RELIGIOSO NA ESCOLA PÚBLICA - ppt carregar

 

Quantos cristãos saberão que, se Adão e Eva fossem figuras reais e nossos contemporâneos, precisariam, para viajar para o estrangeiro, de um passaporte iraquiano?

  • Quantos se lembram de que Abraão, que está na base das três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo, islão –, possuiria igualmente nacionalidade iraquiana?
  • Quantos se lembram de que os primeiros capítulos do Génesis, referentes ao mito da criação e da queda, se passam na Mesopotâmia, onde mergulham algumas das nossas raízes culturais?

As religiões estão sempre presentes. Mas quem tem delas um conhecimento mínimo? Qual é a relação entre religião e violência, religião e política, religião e desenvolvimento económico, religião e saúde?

 

O grande Umberto Eco, agnóstico, lamentava-se:

  • “Nas escolas italianas, Homero é obrigatório, César é obrigatório, Pitágoras é obrigatório, só Deus é facultativo.
  • Se o ensino religioso se identificar com o do catecismo católico, no espírito da Constituição italiana deve ser facultativo.
  • Só lamento que não exista um ensino da história das religiões.
  • Um jovem termina os seus estudos e sabe quem era Poséidon e Vulcano, mas tem ideias confusas acerca do Espírito Santo, pensando que Maomé é o deus dos muçulmanos e que os quacres são personagens de Walt Disney…”

Ernst Bloch, o filósofo marxista heterodoxo e ateu religioso, com quem tive o privilégio de conversar, sublinhou que

  • o desconhecimento da Bíblia constitui uma “situação insustentável”, pois produz “bárbaros”, que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus”,de Bach, ficam como bois a olhar para palácios.

É um facto que não é possível ensinar literatura, história, filosofia, artes, sem uma cultura religiosa mínima.

Por outro lado,

  • vivemos num mundo cada vez mais multicultural e multireligioso
  • e, sem paz entre as religiões, não haverá paz no mundo.
  • A paz exige o diálogo inter-religioso, mas o diálogo pressupõe o conhecimento das religiões, como acentuava o teólogo Hans Küng.

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Neste contexto, em 2002, a pedido do ministro francês da Educação Nacional, o filósofo agnóstico Régis Debray apresentou o Relatório sobre  “O ensino do facto religioso na escola laica”.

O ministro Jack Lang escreveu no Prefácio:

  • se “a escola autêntica e serenamente laica deve dar acesso à compreensão do mundo”,
  • as religiões enquanto “factos de civilização”e “elementos marcantes e, em larga medida, estruturantes da história da humanidade”têm de estar presentes,
  • e os professores, sem privilegiarem esta ou aquela opção espiritual, devem dar o justo lugar ao seu conhecimento nas várias disciplinas escolares.

Uma melhor formação dos professores em ordem a poderem tratar serenamente o facto religioso é uma necessidade.

Há o perigo da incultura religiosa que faz com que, perante uma Virgem de Boticelli, qualquer dia um jovem pergunte: “Quem é a gaja?”

De qualquer forma, Régis Debray sublinha que “a história das religiões não é a recolha das lembranças da infância da Humanidade”.

Não há ninguém que não se confronte com a pergunta: Qual é o fundamento e o sentido último de tudo? E esta pergunta abre inevitavelmente à questão religiosa.

  • Mesmo se as religiões não têm o monopólio do sentido,
  • integram o universo simbólico, como o direito, a moral, a história da arte ou o mito,
  • sendo dever da escola aprofundar a sua inteligência reflexiva e crítica.

Este esforço impõe-se tanto mais quanto o paradigma da economia, da gestão e das novas tecnologias não pode constituir “o horizonte único e último”.

É preciso reconhecer também que relegar o facto religioso para fora dos circuitos da transmissão racional, portanto, escolar,

  • não é o melhor remédio para enfrentar “a vaga esotérica e irracionalista”bem como o fundamentalismo.
  • Como recentemente sublinhou o Papa Francisco, “a educação é essencial para superar fundamentalismos.”

 

Uma vez que se trata da escola laica, deve tornar-se claro que “o ensino do religioso não é um ensino religioso”.

Por outras palavras,

  • não se pode confundir informação histórica e crítica com catequese.
  • Aqui, não se faz catecismo, pois o objectivo é uma “aproximação descritiva, factual e nocional das religiões em presença, na sua pluralidade, sem privilegiar nenhuma”.

De qualquer forma, a perspectiva “objectivante”não colide com a perspectiva “confessante”, desde que as duas possam “existir e prosperar simultaneamente”. São duas ópticas não concorrentes: a da fé e a da cultura.

É a laicidade que torna possível a coexistência das várias opções espirituais. Mas

“a faculdade de aceder à globalidade da experiência humana, inerente a todos os indivíduos dotados de razão, implica a luta contra o analfabetismo religioso e o estudo dos sistemas de crenças existentes”,

  • sendo preciso passar de “uma laicidade de incompetência”a religião não nos diria respeito –
  • a uma “laicidade de inteligência” é nosso dever compreendê-la.

O princípio a manter no ensino do facto religioso na escola pública foi formulado pelo filósofo Hegel:

  • não se trata de tornar os crentes descrentes nem os descrentes crentes,
  • mas contribuir para que todos se tornem lúcidos.

Neste quadro, não pode deixar de ser veementemente saudada a criação da Academia para o Encontro de Culturas e Religiões da Universidade de Coimbra (APECER-UC), com o objectivo fundamental da promoção do “diálogo cultural e inter-religioso”, dentro da missão da Universidade, que é formar pessoas integrais para um mundo bom, justo, na paz.

 

Ecumenismo e proselitismo « Associação Rumos

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

 

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/o-silencio-dos-inocentes-15233918.html

 

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