Como evitar que a direita ganhe a batalha das ruas. Artigo de Antonio Martins

.

Protestos contra o Bolsonaro – Foto: DAQUI

António Martins – 13 Setembro 2022 – 

“Dois fatores – um de longo prazo, outro conjuntural – explicam por que o bolsonarismo parece mais capaz de mobilização popular que a esquerda. Sem reverter o processo, a ameaça fascista persistirá – e poderá levar ao cerco de um governo Lula“. 

O artigo é de Antonio Martins, jornalista e editor do portal Outras Palavras, publicado por Outras Palavras, 09-09-2022. 

 

Eis o artigo.

 

Que Jair Bolsonaro ainda sonha com a vitória em outubro, é evidente – inclusive por temer a investigação de seus múltiplos crimes, assim que afastado do poder.

Que ele tentará o golpe, se tiver condições para tanto, também é claro.

Mas talvez tenha escapado à maior parte das análises sobre o 7 de setembro bolsonarista um terceiro objetivo, complementar aos dois primeiros e muito mais factível que ambos.

Começou na quarta-feira, a quatro semanas do primeiro turno, a tentativa de emparedar nas ruas um possível governo Lula.

 

Quem a promove é a ultradireita, mas ela poderá, mais tarde, interessar a outras forças do arco conservador. Por isso, é preciso compreendê-la, reconhecer sua gravidade e iniciar, desde já, as ações que permitirão desarmá-la.

A equação pode ser descrita em três termos:

a) o bolsonarismo tornou-se, momentaneamente, mais capaz de promover a mobilização política das multidões que a esquerda;

b) se esta situação perdurar, ela minará as forças de um governo Lula, levando-o ou ao desastre, ou à descaracterização;

c) o cenário pode ser revertido, mas para isso é preciso buscar, na história recente do país, o que levou a ele.

 

O objetivo deste texto é responder ao terceiro ponto do problema.

Mas vale examinar, mesmo que rapidamente, os dois primeiros.

  • Nos últimos meses, o mosaico da política brasileira assumiu um desenho incomum.
  • Parte das estruturas tradicionais de poder – Judiciário e mídia, em especial – deixou de ser conivente com os atentados do bolsonarismo à democracia,
  • aproximando-se objetivamente de Lula.

Nada indica, porém que estes poderes manterão a postura se o ex-presidente, ao assumir, realizar as esperanças que suscita entre seus apoiadores.

Ao contrário:

  • a tentativa de impor limites a Lula já está delineada.
  • Fala-se que, após o período de medidas eleitoreiras de Bolsonaro, será preciso “apertar os cintos” e “arrumar a casa”
  • como se a população devesse pagar pelos desvarios do atual presidente, aprovados aliás pelo Congresso.

Tenta-se, em especial, convencer Lula a se manter distante (como em seus primeiros governos) dasreformas estruturaisindispensáveis a reconstruir o Brasil em novas bases.

 

Protestos contra o Bolsonaro | Foto: DAQUI

 

Estas mudanças podem se dar sem ruptura com a ordem institucional – mas não sem tensioná-la.

Para realizá-las,

  • não bastará, por exemplo, contar com a boa vontade de um Congresso deformado, e dominado pelo Centrão.
  • Será preciso reclamar que o Legislativo enxergue a devastação do país e aja para revertê-la.
  • Mas como fazê-lo se, entre a sociedade, a força mais mobilizada for o fascismo?

Este cenário conduzirá à derrota certa:

  • ou a um governo que se divorcia rapidamente de suas bases (como Dilma 2) e abre brechas para o golpismo,
  • ou à adoção de uma agenda que, em essência, repete a dos liberais, passa a ter neles sua base principal de apoio e renega seus compromissos.

 

Para evitar qualquer dos dois desastres, será preciso recuperar as ruas.

Mas por que as perdemos?

Um dos fatores – o de mais longo prazo – costuma ser descrito, de forma um tanto simplória, como “falta de trabalho de base”.

  • Não se trata de algo relacionado a suposta preguiça, mas à institucionalização e à mudança do perfil socioeconômico e etário da antiga “militância”.
  • Para um exame em profundidade do fenômeno, vale ler um ensaio provocador, intitulado Em busca da funda de Davi, do filósofo, professor e ativista Maurício Abdalla.

 

No texto, Abdalla

  • descreve um notável movimento em xis ocorrido há cerca de 35 anos e que resultou na perda, por parte da esquerda latino-americana, de antigas fortalezas que tinha entre os setores populares – em especial nas periferias.
  • A marca do deslocamento são as chamadas reuniões de Santa Fé, realizadas nesta cidade norteamericana nos anos 1980.
  • Sob orientação de consultores apontados pelo Estado norte-americano (particularmente a CIA), forças políticas de direita redefinem o foco de sua atuação junto às maiorias.

 

Já não basta, dizem em síntese os Documentos de Santa Fé (de 1988) atuar nas instituições.

  • É preciso ir às franjas gigantescas das metrópoles, onde vivem as multidões empobrecidas que estão sendo conquistadas pelos partidos de esquerda e pela Teologia da Libertação.
  • E o instrumento decisivo para agir nestes territórios é a guerra cultural de cunho conservador.
  • É fácil deduzir que o instrumento de excelência para operar este combate são as igrejas evangélicas ou o conservadorismo católico.

 

Abdalla descreve como ambos serão, nas décadas seguintes, fartamente financiados, para que reúnam, por meio de tentativas e erros, o conhecimento necessário para atuar com desenvoltura nas periferias.

 

Porém, o artigo é ainda mais provocador ao frisar que tal esforço foi enormemente facilitado pela trajetória de sentido oposto percorrida pela esquerda.

  • Ao obterem suas primeiras vitórias eleitorais, a partir dos anos 1980, as forças progressistas apressam-se a ocupar o aparelho de Estado.
  • São milhares de postos nos parlamentos, secretarias de Estado ou de Município e, mais tarde, prefeituras e governos. Ocupá-los era necessário, e não se pode culpar moralmente os militantes, que vinham de lutas em condições extremamente adversas sob a ditadura, por desejar atuar na política com algum conforto. O que faltou foi visão de todo, estratégia.
  • Partidos interessados em transformações sociais profundas – algo muito maior que a mera conquista de governos – teriam combinado a presença institucional com a manutenção das bases junto aos setores populares.

 

Por sua própria natureza, este primeiro problema não pode ser resolvido a curto prazo.

  • Enfrentá-lo exigirá muitos anos de reflexão e trabalho, em esforço que precisa ser iniciado tão logo o bolsonarismo seja batido.
  • Mas a perda das ruas, por parte da esquerda, deriva também de uma questão conjuntural, que pode – e precisa – ser enfrentada sem demora.
  • É a dupla resistência da campanha Lula: a acenar com uma visão clara sobre o futuro do país e a engajar seus apoiadores na luta por este horizonte.

 

Levar o povo às ruas não depende de “trabalho de base”prévio.

Jean-Luc Mélenchon esteve a ponto de passar ao segundo turno das eleições presidenciais francesas, e liderou uma campanha que obteve o maior número de votos para o Parlamento (quase 1/3 do total), sem que seu partido, (a França Insubmissa) tivesse raízes ou capilaridade.

Ele foi capaz de empolgar a população com uma ideia potente:

é possível superar a crise civilizatória por meio de um choque de igualdade e de novas relações entre o ser humano e a natureza.

Desta matriz derivavam propostas concretas para os problemas que mais afligem a sociedade francesa:

  • pobreza, precarização, desemprego, encolhimento das classes médias, inflação, medo ds mudanças climáticas, por exemplo.
  • Além disso, os comícios se multiplicaram (muitas vezes, o candidato falou simultaneamente em várias cidades, por meio de telões).
  • E em todos eles havia apelos diretos aos presentes para que espalhassem a mensagens, além de sugestões concretas sobre como fazê-lo.

 

A mesma combinação

  • entre uma visão de futuro e um apelo a construí-lo em luta de todos esteve presente em quase todas as disputas anteriores protagonizadas por Lula – por isso, sua ausência agora é tão chocante.
  • O tema tem sido tratado na própria mídia comercial: não é concebível que a campanha do ex-presidente o ignore.
  • Se resiste, é porque teme assumir compromissos.

 

As consequências podem ser muito graves. Na disputa eleitoral, o bolsonarismo não está batido.

  • crise civilizatória produz instabilidade extrema e, entre vastos setores da sociedade, a busca de uma saída e alguma forma de pertencimento para escapar do desamparo – seja ela qual for.
  • Daí o enorme crescimento das igrejas evangélicas.

Se no campo político a esquerda

  • desperdiça a chance de despontar como alternativa de projeto de futuro e de forma de estar no mundo,
  • abre um enorme vácuo, que o fascismo tem sido hábil em ocupar, não apenas no Brasil.

 

Na hipótese hoje mais provável – a da vitória de Lula –, a reconquista das ruas será ainda mais crucial. Ela não deve ser vista como uma tarefa do governo.

Este, como se vê já na fase da campanha, tenderá a hesitar demais, ou a se manter paralisado em meio à vasta rede de interesses presentes em seu espectro de alianças.

Melhor seria

  • se um arco de movimentos sociais, de importância reconhecida pela sociedade, se propusesse a formular propostas relacionadas a uma pauta do povo
  • e às mudanças estruturais indispensáveis para assegurá-la.

Estes movimentos poderiam contar com apoio de pensadores comprometidos com a reconstrução do país em novas bases – numa aliança que já está sendo construída, embrionariamente, em processos como as Conferências Livres das Saúde, das Cidades e da Economia Solidária.

  • Uma construção de tal tipo será naturalmente heterogênea, mas poderá se dar sob um nome comum,
  • que funcione como guarda-chuvas político capaz de sinalizar o sentido compartilhado por todas as iniciativas.
  • Por exemplo, Poder Popular.

 

Todo o Ocidente parece envolto em turbulências políticas. A ameaça fascista espalha-se. A crise civilizatória, porém, abre espaço para uma mudança de sentido oposto.

É preciso construí-la desde já – e retomar as ruas terá, neste processo, caráter estratégico…

 

A força bruta é a ação de quem não tem argumentos”. Entrevista especial com Antonio Martins - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

.

Antonio Martins

Fontes: https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/como-retomar-da-direita-a-maioria-nas-ruas/

https://www.ihu.unisinos.br/622099-como-evitar-que-a-direita-ganhe-a-batalha-das-ruas-artigo-de-antonio-martins

 

Leia mais:

c

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>