Um homem mostra a bandeira da Nicarágua na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante a oração do Angelus liderada pelo Papa Francisco em 21 de agosto de 2022

AFP – 22 agosto 2022
Foto: © Filippo MONTEFORTE – Um homem mostra a bandeira da Nicarágua na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante a oração do Angelus liderada pelo Papa Francisco em 21 de agosto de 2022
O papa Francisco rompeu o silêncio sobre a Nicarágua para expressar “preocupação” com a situação política tensa neste país, mas evitou mencionar especificamente a detenção de religiosos e condenar a repressão do governo de Daniel Ortega.

“Acompanho de perto com preocupação e dor a situação criada na Nicarágua, que envolve pessoas e instituições”, disse o pontífice após a bênção do Angelus do domingo na Praça de São Pedro.

Esta foi a primeira vez que o papa falou em público sobre o tema delicado, que provocou grandes controvérsias entre os analistas pelo silêncio de Francisco.

Muitos questionaram

  • os motivos do silêncio de quase duas semanas do papa latino-americano sobre a grave crise entre a Igreja da Nicarágua e o governo de Ortega,
  • aprofundada após a detenção na sexta-feira do bispo de Matagalpa, Rolando Álvarez, um aberto opositor do regime.

Perseguição, operações de busca, detenções, fechamento de meios de comunicação católicos e até o exílio de religiosos estão entre as medidas enfrentadas pela Igreja no país da América Central nos últimos anos.

Francisco, que tem o hábito de falar sobre vários temas, de catástrofes naturais até tragédias pessoais,

  • não mencionou diretamente a detenção do bispo Álvarez e um grupo de colaboradores que estavam na diocese,
  • embora tenha citado indiretamente “pessoas e instituições” afetadas.

Em sua mensagem, o papa afirmou:

“Quero expressar minha convicção e desejo de que por meio de um diálogo aberto e sincero ainda é possível encontrar as bases para uma convivência respeitosa e pacífica”.

Para alguns analistas, a prudência do pontífice, seu apelo ao diálogo e o fato de evitar o confronto com o governo significam um convite para a diplomacia, a busca de saídas.
  • “Um silêncio papal não significa inatividade ou falta de decisão, não, nada disso.
  • Significa que estão trabalhando em outros planos”,

afirmou na semana passada Rodrigo Guerra, secretário do Pontifício Conselho para a América Latina.

Toda a Igreja latino-americana,

  • do influente Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM),
  • passando pelos arcebispos da Costa Rica, El Salvador, México e inclusive o cardeal hondurenho Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga, considerado próximo ao papa,
  • expressaram solidariedade com o religioso perseguido, pediram orações e lamentaram a situação. 

“Uma ruptura é muito fácil, mas a sabedoria do Santo Padre é que busca caminhos de diálogo, porque há milhões de fiéis católicos que também estão sofrendo”,

disse Rodríguez Maradiaga à imprensa católica no domingo.

“As palavras do papa certamente decepcionaram muitos porque esperavam que o papa condenasse alguns e defendesse outros”,

comentou a teóloga colombiana Consuelo Vélez.

“O papa se expressou nos termos que apresentou em sua última encíclica, Fratelli Tutti”,

destacou, em uma referência ao documento papal dedicado à fraternidade e amizade social.

O texto resume a linha adotada por Francisco em quase 10 anos de pontificado.

  • E não apenas para o caso da Nicarágua, um conflito que conhece de de perto,
  • mas também para a guerra russa na Ucrânia.

O papa sempre defende o diálogo.

Desde que assumiu a liderança da Igreja Católica em 2013, Francisco quer ser identificado como o artesão do diálogo e da paz, um pacifista convicto.

Em 4 de agosto, Álvarez foi posto em prisão domiciliar na Cúria de Matagalpa, junto com uma dúzia de pessoas.

O local foi sitiado dias depois que o bispo denunciou o fechamento pelas autoridades de cinco rádios católicas e exigiu que o governo de Daniel Ortega respeitasse a “liberdade religiosa”.

De acordo com a polícia, a Diocese de Matagalpa está sendo investigada por tentar “organizar grupos violentos” e “incitar ódio para desestabilizar o Estado da Nicarágua”.

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