Francisco, as ordens religiosas e o Opus Dei

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POR FORTUNATO MALLIMACI – 11-08-2022  Foto: arquivo.

A decisão do Papa eliminou o privilégio da única prelazia pessoal que existia no Vaticano e a Ordem passa  ser mais uma entre muitas, que deve tornar públicos os seus bens econômicos e procedimentos todos os anos. Além disso, determinou que quem dirige a organização já não pode mais fazer parte da hierarquia episcopal.

 

Nos últimos dias repercutiu em certa imprensa, a notícia de uma decisão do Papa Francisco sobre a institucionalidade de uma obra católica muito conhecida nos meios políticos, educacionais e econômicos da Espanha e da América Latina e Caribe, como é a organização Opus Dei.

Hoje é formada por cerca de 90.000 pessoas e uns 2.300 sacerdotes que pertencem à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz.

 

O Opus Dei, a Obra de Deus – ou simplesmente o Opus, como é conhecido em certos círculos – é um grupo católico que, vale recordar, nasceu na Espanha em 1928 e que terá seu fundador, Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), figura central no seu desenvolvimento e consolidação em nível nacional e internacional.

 

Durante os anos do franquismo na Espanha, a maioria da instituição católica apoiará explicitamente esse tipo de regime político-religioso.

  • Numerosas pessoas formadas em suas fileiras farão parte do governo de Franco e nutrirão ministérios e quadros estatais,
  • não sem conflitos sobre as autonomias entre o político, o econômico e o católico.

 

O Opus, como outras ordens e movimentos,

  • formou milhares de pessoas – padres, freiras, educadores, economistas e profissionais –
  • de um catolicismo intransigente, profundamente anticomunista
  • e com uma forte reafirmação identitária de uma catolicidade hispânica defensora dos  “ameaçados” valores “ocidentais e cristãos”.

 

Particularmente, no caso do Opus,

  • trata-se de um catolicismo burguês, com forte ênfase em uma férrea moral sexual e familiar de valores católicos conservadores,
  • de grande importância para o ensino em ambientes universitários e formador de lideranças,
  • junto com uma visão liberal e meritocrática da economia e  a defesa da propriedade privada.

 

Hoje, a maior parte da imprensa e dos analistas espanhois qualificam-no como um movimento dentro das afinidades das culturas das “direitas”.

 

Na longa história das instituições católicas,

  • o surgimento de ordens, congregações e movimentos é o fruto de uma profunda reflexão comunitária
  • a fim de  criar o que está ausente neste ou naquele momento histórico do “plano de Deus e de Jesus Cristo”.

Para isso, iniciam o caminho da busca do próprio autofinanciamento e da eleição democrática das suas autoridades.

Isso significa um grau de autonomia dentro do poder e da territorialidade católica.

 

  • Estas características de organizações do tipo “seita” dentro de um universo hierárquico, pautado e movimentista  como o da catolicidade romana
  • foram e são fruto de tensões e de conflitos, não apenas no mundo religioso, mas também em seus múltiplos vínculos  com o resto da sociedade.

Há aí uma memória a não ser esquecida na construção moderna de Estados e de religiões.

 

O Vaticano obriga cada ordem religiosa com o triplo mandato de “obediência a Roma, castidade e pobreza”, o que mostra a contínua negociação do poder hierárquico e do modo de obediência no mundo católico.

 

Nesse mundo destacam-se, historicamente,

  • as ordens mendicantes com os seus ascetismos intramundanos (especialmente as franciscanas),
  • as monásticas com seus ascetismos extramundanos (especialmente as beneditinas)
  • e as inseridas intelectualmente, com os seus ascetismos racionalizados (especialmente jesuítas e dominicanos).

 

Nesse contexto, os integrantes do Opus Dei são “recém-chegados”. Vivem em um ascetismo racionalizado espiritual e economicamente.

O Opus Dei

  • não aparece entre os principais grupos religiosos que reformam o catolicismo global em meados do século 20,
  • e em especial no Concílio Vaticano II e no seu pós-concílio nos anos 60 e 70.

Estas reformas apontavam para uma abertura em ritos, normas e espaços de vida comunitária.

  • Voltar às origens do cristianismo, por um lado;
  • criticar o europeu como única maneira de ser católico;
  • descobrir nos sinais dos tempos dos povos os sinais do Plano de Deus, o que abre novos caminhos de emancipação.

 

Assim, nas décadas de 1960, 1970 e 1980,

  • a América Latina e o Caribe serão o cenário privilegiado para a interpretação e, sobretudo, a execução dessas profundas mudanças.
  • A modernidade latino-americana não é igual à europeia ou à ianque.
  • As relações entre o político, o religioso e o estatal têm vínculos  estreitos e de longo prazo.
  • A secularização não é o desaparecimento do religioso, mas a sua recomposição e diversidade.

 

As teologias da libertação produzem na América Latina e no Caribe  novos modos de falar de Deus a partir do mundo dos pobres e, ao mesmo tempo, crentes e explorados. Afirma-se assim que não há uma história de Deus e outra das pessoas, mas que se trata de uma única história.

 

  • No mundo das ordens, congregações e movimentos católicos na América Latina e no Caribe,
  • milhares de líderes cristãos, sacerdotes e bispos católicos estão sendo martirizados por seu compromisso e espiritualidade, junto ao dos estigmatizados, dominados e discriminados.
  • Em uma experiência única em nível global.

Essas vivências libertadoras são estranhas, distantes e condenáveis para líderes do mundo católico ligados aos setores hegemônicos. O Opus Dei é um dos muitos exemplos.

A chegada ao papado primeiro de João Paulo II em 1979 e depois de Bento XVI em 2005 marca, nesse sentido, uma inflexão.

Para estes dirigentes do Vaticanos

  • há uma profunda crise resultante dos “excessos” dos que se “politizaram” e “ideologizaram”.
  • É necessário proibir e condenar mais do que compreender.
  • Insiste-se no poder sacerdotal do sagrado do homem, celibatário e misógino.

As mulheres, dizem repetidamente esses papas, não têm espaço no âmbito do sagrado. As mulheres são subsidiárias dos homens.

 

Do Vaticano

  • busca-se, com apoios nacionais, refazer e reformular identidades católicas de certezas, de verdades
  • e lutar contra o que chamam de “relativismos”, “niilismos” e“excessiva politização e presença no popular”.

 

Nesta nova etapa,

  • as “velhas ordens religiosas” como “os antigos movimentos de trabalhadores, estudantes, camponeses ou intelectuais” já não têm espaço.
  • É necessário ir e apoiar os chamados “novos movimentos religiosos”, os “novos movimentos de espiritualidade”
  • que – se dizia e se apoiava – voltarão a impor uma “sã e verdadeira ordem cristã “.

 

Experiências como

  • os Legionários de Cristo, Comunhão e Liberação, Grupos carismáticos de oração, Novos Catecumenatos e afins
  • ocupam, então, o espaço público institucional católico.
  • Entre eles, destaca-se um movimento internacional: o Opus Dei.

 

O Opus aparece com novas relações com Roma,

  • os bancos vaticanos incluem economistas e financistas formados nessa organização,
  • e a sua inserção nas igrejas locais da Espanha e da América Latina amplia-se
  • com nomeações de bispos pertencentes a esse grupo.

Uma situação semelhante se dá com os Legionários de Cristo e o seu líder Marcial Maciel,

  • ligado a setores econômicos poderosos do México
  • e contra qualquer reforma.
  • Rapidamente, tem “relações carnais” com o papado e o Vaticano.

 

Ao mesmo tempo

  • tornam-se públicas as denúncias de abusos sexuais cometidos por uma parte do clero católico
  • e que são “arquivadas” nos labirintos da Cúria Romana e das igrejas nacionais.

 

Milhares de vítimas desses abusos

  • são acusadas de fazer campanha contra a instituição católica.
  • As concepções patriarcais também se reproduzem e vão desgastando ordens religiosas femininas que se inserem no popular.

 

Em 1982, e como resultado desta evolução, o Papa João Paulo II toma uma decisão sem precedentes nos últimos séculos.

  • Decide que uma ordem religiosa terá o privilégio único de ser um espaço pessoal do papado para acompanhá-la nesta nova tarefa de “reafirmar certezas e identidades”,
  • e dispõe que quem a dirija já não será mais um “simples” sacerdote, mas terá o título de prelado e será nomeado bispo.

 

Nasce assim, em 1982, por decisão do Papa João Paulo II, a primeira e única Prelazia pessoal da Santa Cruz e Opus Dei com presença do Vaticano – tanto nas decisões de funcionamento institucional como no econômico – e quem a dirige é agora um dignitário especial, um prelado com o cargo de bispo.

 

  • Os milhares de sacerdotes do Opus Dei não devem responder agora às legítimas autoridades locais e territoriais  mas ao prelado/bispo.
  • Esta nomeação produz um fato que choca setores críticos da instituição católica
  • e, em especial, o restante das ordens e congregações religiosas, que sentem que há uma traição ao “carisma” de autonomia dessas instituições.

 

Pela mesma época,

  • os Legionários de Cristo também começam a ser mais protagonistas das políticas do Vaticano ao mesmo tempo em que seu líder é denunciado dezenas de vezes no México
  • por abuso sexual,  abuso de poder e negociações clandestinas milionárias em dólares.

Nenhuma destas denúncias prospera e a indignação vai crescendo diante destes silêncios e cumplicidades.

  • A proteção a estes delitos e crimes é total.
  • A mobilização social no México vai conseguir – não sem grandes dificuldades – a denúncia e a condenação pública de Maciel (sempre caninamente defendido e bajulado por João Paulo II – NdR).

 

Em 1992, dez anos após a criação da Prelazia pessoal, o líder indiscutido da obra, Josemaria Escrivá de Balaguer, é proclamado beato e em 6 de outubro de 2002 proclmado santo por João Paulo II.

 

A chegada ao papado de Bento XVI em 2005

  • continua na linha de reafirmação identitária
  • e de fazer caso omisso das denúncias públicas e midiáticas de pedofilia e malversação de fundos nos bancos do Vaticano.

Os problemas do Vaticano e da instituição já não vêm de “fora” (como simplesmente se dizia diante de qualquer crise durante décadas), mas agora vêm “de dentro”.

 

O ano de 2013 será lembrado na história da Igreja Católica e do Vaticano como o da grande ruptura. Pela primeira vez na história, um Papa renuncia ao seu cargo e continua a viver no Vaticano. A dessacralização e democratização do cargo já começaram.

 

Por isso, não é de estranhar que neste caminho de modificar alguns privilégios,

  • o atual papa Francisco com uma carta pessoal (que o Vaticano denomina Motu proprio e intitulada em latim ‘Ad charisma tuendum’, ou seja, “Para tutelar o carisma”) , datada em Roma em 14 de julho de 2022,
  • tenha decidido que, a partir de 4 de agosto, as competências da Prelazia do Opus Dei sejam transferidos da antiga sede dos bispos para a sede do clero,
  • e que tenha também estabelecido que quem dirige o Opus Dei já não possa fazer parte da hierarquia episcopal.

Isso significa que os 2.300 sacerdotes do Opus Dei devem compartilhar a “sua vida” no território onde a autoridade é o bispo local. Ou seja, como ocorria antes de 1982 e como  atualmente fazem todas as ordens católicas femininas e masculinas.

 

A partir de 4 de agosto, tal como outras ordens religiosas,

  • o Opus deve apresentar um informe anual sobre o estado da obra.
  • O Papa Francisco lembra-lhes que “é necessária uma forma de governo baseada mais no carisma do que na autoridade hierárquica”.

 

Como é habitual nos textos pontifícios, esta decisão é apresentada como continuadora e  superadora da anterior. Não há críticas ao papa anterior.

 

O prelado do Opus, monsenhor Fernando Ocáriz (“nascido na França de família espanhola que teve de se exilar devido à guerra civil”, segundo diz a página oficial), em resposta a Francisco, vai na mesma linha e considera que a decisão é uma oportunidade de “compartilhá-la com muitas pessoas no ambiente familiar, profissional e social”.

 

E chama a “reforçar o clima de família, de afeto e de confiança: o prelado deve ser um guia, mas antes de tudo um pai”.

E recorda

  • “que o governo do Opus Dei deve estar ao serviço do carisma – do qual somos administradores e não proprietários –
  • para que cresça e dê frutos, com a fé de que é Deus quem opera tudo em todos”.

 

Em síntese, e para além das palavras dos protagonistas, esta ação sobre o Opus Dei

  • mostra-nos o que se passa hoje na instituição católica em relação a organizações que tinha tomado poder e funcionaram de forma independente e por vezes sem nenhum tipo de controle.
  • Não se deve esquecer que as ordens religiosas são – como vimos – uma parte central do dispositivo católico em nível mundial.

 

Com esta ação

  • o Papa Francisco elimina o privilégio da única prelazia pessoal que existia no Vaticano e o Opus Dei passa a ser  mais uma ordem,
  • que deve tornar públicos todos os anos seus bens e procedimentos econômicos (isso é importante tanto diante das denúncias públicas de ex-integrantes da obra com em relação aos seus movimentos econômicos com a cúria e os bancos vaticanos);
  • os seus sacerdotes devem inserir-se em espaços territoriais.
  • E trata-se  também de dessacralização da sua excepcionalidade.

É mais um passo, também, para mostrar que a autoridade papal continua a tomar decisões, embora se continue murmurando  sobre possíveis renúncias.

 

Por Fortunato Mallimaci

Fortunato Mallimaci

O autor é professor titular da UBA e pesquisador sênior do CONICET

https://www.telam.com.ar/notas/202208/601429-papa-grancisco-opus-dei-ordenes-religiosas.html

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