Trump tinha material ‘top secret’ em casa. Buscas galvanizam republicanos

OFBI encontrou documentos marcados como “top secret” durante as buscas de segunda-feira à casa do ex-presidente Donald Trump, tendo levado um total de 20 caixas de informação de Mar-a-Lago. A informação foi avançada pelo The Wall Street Journal, com base na lista de material que acompanha o mandado de busca que se esperava fosse tornado público esta sexta-feira.

Trump reagiu de imediato, alegando que tudo já estava desclassificado. Em guerra contra o FBI e o Departamento de Justiça, que acusa de ser politizado e empreender uma “caça às bruxas”, Trump conseguiu galvanizar os republicanos e mudar a narrativa negativa dos últimos meses.

Além dos documentos classificados, havia material referente ao perdão de Roger Stone, um aliado de Trump condenado por obstrução de Justiça, e um dossier sobre o presidente francês, Emmanuel Macron.

Não há referência a material sobre armas nucleares, que o The Washington Postdizia ter levado a emitir o mandado – Trump tinha dito que isso era “uma farsa”.

De acordo com oThe New York Times, os agentes executaram o mandado para investigar potenciais crimes relacionados com a violação da Lei de Espionagem, que proíbe a retenção sem autorização de informações de segurança nacional que podem prejudicar os EUA ou ajudar os adversários; uma lei federal que criminaliza a destruição ou ocultação de documentos para obstruir uma investigação governamental; e outra lei que se prende com a remoção ilegal de material governamental.

Segundo o The Wall Street Journal, o mandado dava aos agentes margem de manobra para procurar material que estaria a ser armazenado indevidamente em Mar-a-Lago, incluindo acesso ao escritório do ex-presidente e “todas as zonas de armazenamento e todos os quartos ou áreas” que pudessem ser usados para guardar documentos. 

Trump queixou-se que os agentes “reviraram os armários da primeira-dama e vasculharam as suas roupas e itens pessoais”.

 

Impacto das buscas

“Durante um bom período, parecia que o movimento de Trump estava a perder mais terreno do que a ganhar”, disse o vice-governador da Georgia, Geoff Duncan, um dos republicanos que tem defendido que o partido deve virar a página ao ex-presidente. 

Mas agora, acrescentou à agência AP, Trump está a beneficiar de “ventos favoráveis incrivelmente rápidos”.

As audiências públicas da comissão da Câmara dos Representantes que investiga a invasão do Congresso pareciam estar a prejudicar o ex-presidente. Isto porque o inquérito aponta para que os eventos de 6 de janeiro de 2021 tenham sido planeados, instigados por Trump, e não fruto do momento.

Para se perceber o poder que o ex-presidente ainda tem entre os apoiantes basta ver o que aconteceu após as buscas. Na quinta-feira, um homem armado foi morto depois de tentar entrar nos escritórios do FBI em Cincinnati, no Ohio, com os media norte-americanos a revelar que teria lançado um “apelo às armas”.

Ricky Schiffer, de 42 anos, escreveu na Truth Social que queria “guerra” e convidava os “patriotas” a matar agentes federais, por causa das buscas a Mar-a-Lago.

Para recuperar o controlo da narrativa após as audiências públicas, o ex-presidente estaria a pensar lançar já este verão a candidatura às eleições de 2024, muito antes do esperado. Segundo a Reuters, os conselheiros de Joe Biden estão também a pressionar o presidente para que anuncie que é candidato à reeleição – eventualmente após as intercalares de novembro.

Apesar de estar a cair nas sondagens, Trump ainda é o candidato favorito para 49% dos eleitores republicanos. Além disso, vários dos candidatos que tem apoiado para as eleições intercalares de novembro estão a sair-se bem nas primárias republicanas: no total, desde maio, cerca de 180 ganharam e menos de 20 perderam.

As buscas na casa de Trump, inéditas para qualquer ex-presidente, serviram para este galvanizar os republicanos. Além dos seus eternos apoiantes, vários nomes dentro do partido – inclusive eventuais adversários nas primárias republicanas para 2024 – vieram criticar a operação do FBI e a politização do Departamento de Justiça.

O líder da minoria na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, ameaçou o procurador-geral, Merrick Garland, com uma investigação no Congresso, assim que os republicanos recuperarem a maioria. Contudo, esse apoio poderia mudar caso se confirmasse que Trump teria em Mar-a-Lago informações confidenciais sobre armas nucleares.

“Pagar para ver”

Quebrando o silêncio três dias depois das buscas, Garland revelou que ele próprio aprovou a decisão de pedir o mandado de busca à casa de Trump. Sem revelar as razões por detrás de tal decisão, condenou os “ataques infundados” ao FBI e ao Departamento de Justiça.

Além disso, indicou que “obrigações éticas” impediam-no de dar mais detalhes, tendo contudo pedido a um juiz da Florida para tornar público o mandado. Isto porque Trump já tinha tornado públicas as buscas e havia “interesse público substancial nesta matéria”.

Para alguns analistas, Garland estava a “pagar para ver”, depois do bluff de Trump, que tem reiterado que as buscas foram politicamente motivadas. Desta forma, deixava nas mãos do ex-presidente a decisão de aprovar ou bloquear a sua divulgação.

Trump disse na Truth Social que não só não se opunha à divulgação do documento, como “encorajava”, reiterando que as buscas foram “antiamericanas, injustificadas e desnecessárias”.

A parte potencialmente mais comprometedora do mandado, o documento que inclui as provas para a existência de “causa provável” para ordenar a busca, não será contudo revelado.

susana.f.salvador@dn.pt

Diário de Notícias – Lisboa

 

 

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