Que futuro para a Igreja?

Atendendo à evolução recente e inédita da nossa civilização,

  • o catolicismo deve, portanto, dar finalmente à mulher todo o seu lugar, em igualdade com o homem,
  • nos ministérios e no governo de uma religião que se quer universal e comum a homens e mulheres.

 

Nas sociedades, também na Igreja, o pior é o poder enquanto domínio.

Jesus, a pedido deles, ensinou os discípulos a rezar. Ensinou-lhes o “Pai nosso”,

  • dirigindo-se a Deus como Pai/Mãe
  • e não como Senhor, Rei ou Imperador, e o seu reino não é um império,
  • mas a Humanidade toda enquanto comunidade de filhos e filhas.

A revolução de Jesus está no novo encontro com Deus,

  • omnipotente, mas não com a omnipotência do arbitrário e da dominação,
  • mas enquanto Força infinita de criar e de servir,
  • para que todos se possam realizar plenamente.

 

➻ Jean Delumeau [1923] | Teoría de la historia

E volto a Jean Delumeau, (foto/ reprodução) 

  • historiador eminente,
  • católico convicto, que deixou obras essenciais sobre o passado do cristianismo,
  • e, como só quem conhece e reflecte sobre o passado pode projectar o futuro, escreveu uma luminosa, sobre o futuro, em 2015:

L´avenir de Dieu (O futuro de Deus).

E lá está: no contexto da imagem terrífica de Deus, que tem de ser revista,

“hoje, os cristãos podem mais seguramente afirmar:

ou os homens perdoam uns aos outros ou criaram já muitas vezes e, ai!, criam hoje também o inferno na Terra.”

L'avenir de Dieu - CNRS Editions

Hoje, quando já vivemos numa aldeia planetária,

  • “descobrimos que somos forçosamente solidários uns com os outros
  • e, para não perecermos, estamos condenados a unir-nos e a erguer uma governança mundial que deveria ter os meios de ser obedecida.

E indo ao núcleo da questão:

qual é o grande mal do cristianismo? A sua ligação ao poder.

“Pelas suas consequências,

  • uma das mais trágicas falsas vias para as Igrejas cristãs foi, depois do fim das perseguições,
  • a ligação entre o poder imperial romano e a hierarquia eclesiástica,
  • simbolizada e fortificada pela coroação de Carlos Magno pelo Papa.”

Não se deve esquecer que

  • desde sempre tinha havido, no Império Romano e fora dele, ligação e amálgama entre o poder religioso e o poder político.
  • Foram, por isso, necessários muitos séculos e conflitos incessantes para que

“o religioso e o político aceitem por fim distanciar-se um do outro, num equilíbrio aliás instável e que é necessário reajustar continuamente.”

De qualquer modo,

“desde o início do século IV, a Igreja tornou-se um poder.”

Ora, “esta deriva perigosa”, que durante muito tempo só a poucos chocou, ainda não terminou.

A Igreja Católica

“tem atrás de si um grande e belo passado de escritos religiosos sublimes, inumeráveis iniciativas caritativas e múltiplas obras de arte. Realizou uma obra civilizadora grandiosa e mundial.

Deu à Humanidade legiões de santos e santas, canonizados ou não, incansavelmente dedicados ao serviço do próximo.

Mas a sua grande fraqueza foi ter-se constituído em poder…

Ora, é preciso que de ora em diante abandone o poder, pratique a humildade para poder de novo convencer e dar-se a si mesma estruturas mais flexíveis do que no passado e, portanto, capazes de evoluir.

Porque hoje é necessário aceitar e dominar evoluções inevitáveis.”

Nesta espécie de “testamento” (Delumeau tinha 92 anos), apresenta então “pistas e proposições”para o futuro.

O governo da Igreja tem de “ser profundamente repensado e reconstruído”, devendo estar “mais atento do que no passado aos desejos e aspirações dos fiéis”.

Não deveriam estes

“poder escolher os seus representantes que constituiriam uma espécie de parlamento da catolicidade?”

Há uma série de reformas urgentes que a civilização em que estamos mergulhados impõe”.

Por exemplo,

não impor o celibato aos padres (o que não impediria em nada a existência de fiéis que livremente escolham o celibato, para se consagrar inteiramente à Igreja e à oração)”.

O que pode impedir a ordenação de homens e mulheres casados para presidir às comunidades e à Eucaristia?

Impõe-se “valorizar o lugar da mulher na Igreja”, indo aliás ao encontro de várias práticas das primeiras comunidades cristãs.

“Esquece-se demasiado que o cristianismo, historicamente, contribuiu em grande medida para a libertação da mulher.”

Desejava, pois,

“com uma forte convicção, a reabilitação plena e completa da mulher no catolicismo”.

Estamos na civilização da

“inovação absoluta, a que devemos fazer face, desembaraçando-nos dos reflexos, desconfianças e interditos herdados de um passado superado.

Ora, não encontraremos nos Evangellhos nem razões teológicas nem maldições eternas a sancionar o “sexo fraco”.

Atendendo à evolução recente e inédita da nossa civilização,

  • o catolicismo deve, portanto, dar finalmente à mulher todo o seu lugar, em igualdade com o homem,
  • nos ministérios e no governo de uma religião que se quer universal e comum a homens e mulheres.

O êxito de uma nova evangelização passa, na minha opinião, pela reabilitação completa da mulher nas Igrejas cristãs.

Por imperativo da minha alma e consciência, e antes do silêncio que em breve a morte me imporá, quero lançar um grito de alarme:

  • na minha opinião, a salvação e o futuro do cristianismo, e nomeadamente do catolicismo,
  • passam por esta completa reabilitação da mulher.”

 

Nesta linha, multiplicam-se os testemunhos de teólogos eminentes e de bispos.

A doutrina do pecado original contradiz a evolução e o Evangelho. É preciso mudar a linguagem, pois ninguém entende hoje expressões como:

“desceu aos infernos”, “subiu aos céus”, “ressurreição da carne”…

Impõe-se o diálogo ecuménico e inter-religioso.

Não se pode ignorar a ciência, e é fundamental estar atento às novas tecnologias, e refiro concretamente as NBIC (nanotecnoligias, biotecnologias, inteligência artificial, neurociências)…

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/que-futuro-para-a-igreja-15056646.html

 

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