CARTA ABERTA DA 15ª ROMARIA DA TERRA E DA ÁGUA AO POVO DO PIAUÍ

 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
CNBB – REGIONAL NORDESTE IV
Teresina – Piauí – Brasil – Fone/Fax (86) 3223.3079

Reafirmamos com o salmista a certeza de que a terra doada por Deus a seus   filhos e filhas precisa ser cuidada para a garantia integral da vida, como defende o Papa  Francisco:

  • “nenhuma família sem casa,
  • nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direito,
  • nenhuma pessoa sem dignidade que provém do trabalho.”

 

CARTA ABERTA DA 15ª ROMARIA DA TERRA E DA ÁGUA AO POVO DO PIAUÍ

Nos dias 16 e 17 de julho de 2022, na cidade de Piripiri, Diocese de Parnaíba, PI, terra do sangue derramado da agricultora Antônia Flor, morta em 1984 na luta pela garantia da vida e da reforma agrária,

  • nós, cristãos bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, leigos e leigas das comunidades, pastorais e movimentos sociais, agricultores e agricultoras e sociedade civil organizada,
  • nos encontramos na 15ª Romaria da Terra e da Água do Piauí, com mais de cinco mil pessoas de todas as Dioceses do Regional Nordeste 4 da CNBB e outras organizações do povo de Deus,
  • refletindo e celebrando o tema da Romaria: TERRA E ÁGUA: DIREITOS SAGRADOS e o lema DEUS DEU A TERRA AOS SEUS FILHOS (Sl 115, 16).

Reafirmamos com o salmista a certeza de que a terra doada por Deus a seus
filhos e filhas precisa ser cuidada para a garantia integral da vida, como defende o Papa Francisco:

  • “nenhuma família sem casa,
  • nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direito,
  • nenhuma pessoa sem dignidade que provém do trabalho.”

A escuta dos clamores do povo, apresentados nos cinco seminários temáticos
desta romaria ecoam para toda a sociedade piauiense, conforme os destaques que seguem:

O Cartaz da XV Romaria da Terra e das Águas no Piauí / CNBB-RNE4

 

1. SEMINÁRIO: A VIDA NA MIRA DOS DESENVOLVIMENTO, PROJETOS ECONÔMICOS NO PIAUÍ

– O modelo desenvolvimento econômico imposto, confrontando com garantias sociais, ambientais e sustentabilidade dos territórios;
– Historicamente o Estado desvaloriza a promoção econômica do seu próprio povo, incentivando investidores externos;
– A desinformação das comunidades favorece o avanço deliberado dos grandes
projetos;
– Um dos graves impactos dos grandes projetos é a irregularidade do clima
comprometendo o ciclo das chuvas e o modo de produção tradicional.

 

2. SEMINÁRIO: ESPAÇO SAGRADO: TERRITÓRIO PESQUEIRO
TRADICIONAL

– Impacto dos grandes empreendimentos empresariais (turísticos, petrólífero, grandes obras e agronegócio);
– Especulação imobiliária nos territórios pesqueiros;
– Parques eólicos invadindo os territórios dos pescadores (as) e a privatização do mar.
– Invisibilidade dos povos tradicionais da pesca, a mortes destes pela degradação do território e violência provocada pelos grandes empreendedores.

 

3. SEMINÁRIO: JUVENTUDE, PROJETO DE VIDA, RURALIDADES E MUNDO URBANO

– Falta de perspectiva das juventudes e de uma educação que dialogue com a
realidade dos/as jovens;
– O uso incorreto das tecnologias;
– Falta de acolhimento da juventude;
– Ausência de Políticas Públicas para juventude urbana e rural.

 

4. SEMINÁRIO: INTOLERÂNCIA E CULTURA DO ÓDIO

– Intolerância com as diversidades: religiosa, étnico-cultural e de gênero;
– Propagação de fake news promovendo disseminação do ódio, gerando sofrimento e morte;
– Proliferação das incapacidades de diálogo maduro na sociedade, na Igreja e na política.

 

5. SEMINÁRIO: OS DESAFIOS DA QUESTÃO FUNDIÁRIA URBANA E RURAL

– Desmatamento e queimadas pelo agronegócio, contaminação das águas por
agrotóxicos e assoreamento de margens de rios e lagoas;
– Grilagem, violência no campo, migração e expulsão dos povos da terra;
– Violência contra os indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, mulheres e povo em situação de rua;
– Trabalho escravo, especulação fundiária para o mercado estrangeiro.

 

Esta escuta suscitou

  • proposições de mobilizações e incidências para a Igreja, sociedade civil, poder público e o judiciário,
  • marcadas por esperanças, sonhos, desejos de transformação e perspectivas de vida nova para o povo de Deus.

Os seminários apontaram como proposições:

– Intensificar políticas públicas de fortalecimento da agricultura familiar de base agroecológica;
– Que a Igreja e Movimentos Sociais, por missão, intensifiquem as ações de formação e informação das comunidades e territórios diante de ameaças dos grandes projetos econômicos no Piauí;
– Que o Estado, por responsabilidade constitucional, se antecipe à implantação dos grandes projetos para a garantia dos direitos das comunidades e territórios;
– Que a Igreja considere as situações e lutas das mulheres nos territórios impactados e insira essas situações nos debates e mobilizações da romaria e outras;
– Realização de audiências públicas em cada diocese, em parceria com o Ministério Público e Defensorias Públicas, para mapear e denunciar os conflitos;
– Favorecer a efetivação do acolhimento e protagonismo da juventude rural e periférica na Igreja;
– Valorizar a Pastoral da Juventude em sua identidade e organização como protagonista do Reino de Deus;
– Desenvolver projetos ou políticas públicas que possibilitem a permanência dos/as jovens em seu ambiente familiar, tendo como exemplo as escolas técnicas família agrícola e garantir uma educação inculturada para as comunidades tradicionais Quilombolas e Indígenas;
– Valorizar o Estatuto da Juventude, principalmente nas leis existentes que garantem, e que consolidam políticas públicas que acolham os jovens no mercado de trabalho, na cultura, na educação, no esporte e no lazer;
– Fortalecimento efetivo da fiscalização do processo de grilagem de terra e destruição ambiental, da utilização de mão de obra escrava no Estado;
– Que os processos de regularização Fundiária Urbana e Rural na esfera federal e municipal tenham celeridade;
– Que os territórios tradicionais Indígenas, quilombolas, ribeirinhos, brejeiros tenham sua posse emitidas com mais brevidade;
– Que a titulação das famílias assentadas dos projetos de Reforma Agrária seja feita de forma gratuita pelo INCRA;
– Leis que tenham uma maior fiscalização na pulverização de agrotóxicos em todo o Estado;
– Realizar mobilizações pela revogação da Lei Complementar à Lei Estadual de
Regularização Fundiária, que criou favorecimentos as ações de grilagens de terras;                                                                                                                                   – A Igreja precisa caminhar, sentir e lutar pela vida do seu povo com mais presença nas comunidades pesqueiras;
– O poder judiciário precisa conter diversos retrocessos em legislações que só atacam, tiram os direitos dos pescadores (as);
– Poder público precisa criar e sancionar leis que protejam os territórios pesqueiros e suas diversas riquezas;
– É preciso criar políticas públicas de valorização dos pescadores (as), comunidades e de suas riquezas econômicas;
– É necessário um fortalecimento em rede da sociedade civil e movimentos de luta e defesa dos pescadores e de seus territórios.

As propostas aqui apresentadas, dadas pelos romeiros, exigem de todos nós
atitude profética e corajosa para lutar e resistir, na defesa incondicional da vida.

Por isso reafirmamos com o Santo Padre, o papa Francisco, o que disse em seu discurso aos participantes do encontro mundial dos movimentos populares em 2014,

“não o digo só eu, mas está escrito no compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuai a lutar pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam beneficiar dos frutos da terra”.

Com esta certeza, convocamos todo o povo de Deus ao mesmo exercício em nossa caminhada de seguidores e seguidoras de Jesus Cristo, promotor da justiça e vida plena para todos.

 

Piripiri-PI, 17 de julho de 2022.

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB NE4
Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB NE4
Fórum Regional de Pastorais Sociais – NE4
Coordenação Central da 15ª Romaria da Terra e da Água do Piauí

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