TESTEMUNHO do padre casado do Paraguai Dionísio Gauto Galeano

TESTEMUNHOS

 

Dionísio Gauto Galeano – 11 julho 2022 

Tradução: João Tavares

Foto: Homenagem ao autor, no Senado paraguaio, por sua contribuição à língua e cultura guarani, à defesa da Democracia e dos Direitos Humanos/ Senado Paraguaio

Na realidade, minha missão como padres casado não foi tanto no interior da Igreja, mas no mundo (nas realidades sociais, políticas, económicas, culturais), com a difusão da Doutrina Social da Igreja e a  educação cívica e política (como quer o Vaticano II, G. et S. 75; e Medellín, JUSTICIA 16).

 

Meu nome é Dionísio Gauto Galeano.

Fui ordenado sacerdote em julho de 1963, depois dos estudos de Teologia em Buenos Aires. Depois estudei Direito Canónico (Gregoriana, Roma) e Pastoral (Lumen Vitae, Bruxelas).

Exerci o ministério 14 anos (no meu país, Paraguay), começando como pároco  rural. Logo em seguida fui membro da Equipe Formadora do Seminário Maior Nacional (que começou em 1969).

Nos últimos seis anos de sacerdócio (1972-1977),

  • fui Secretário Geral da Conferência Episcopal
  • e Diretor Fundador de seu semanario “Sendero” (nos anos difíceis da ditadura: 1954-1989).
  • Nessa época obtive o título de advogado na Universidade Católica (onde ajudava, em horário noturno, ensinando Direito  Canónico).

Libro sobre sacerdotes casados

 

Livro de Dionísio Gauto, sobre os padres casados/ Foto: Reprodução

Deixei de exercer o ministério em 1978; em 1980 o Papa João Paulo II me outorgou a dispensa de ordens e nesse mesmo contraí matrimonio religioso com Marina Vázquez, professoras, 28 aaos.

  • Desde então e até hoje, 2022, con 85 anos de idade,
  • com boa saúde, graças à minha família (esposa, três filhas e três netops),
  • utilizo todos os estudos realizados e as experiências acumuladas, para continuar em plena atividade no estado laico.

Lamento que todos os meus  ex-companheiros sacerdotes

  • tenham falecido no exercício  do ministério, cedo
  • e geralmente pela falta de atenção à sua saúde,
  • pela solidão e sem família.

 

A passagem do estado clerical ao laical não significou para mim diminução de fé ou falta de amor à Igreja.

  • O matrimônio e a família não constituem obstáculo para o ministério laical,
  • ao contrário, foi estímulo, ajuda e complemento;
  • comprovei que o homem sozinho é um ser incompleto (Génesis).

 

Primeiro me incorporei ao Comité de Igrejas, na defesa jurídica dos presos políticos. Após a queda da ditadura (1989), a Conferência Episcopal me nomeou Diretor da Pastoral Social Nacional (que inclui Pastoral da Terra, Migrações, Cáritas, Promoção da Mulher, Saúde e Infância).

  • Coube-me representar a Igreja em encontros e congressos em vários países e cidades,
  • sem que para isso tenha sido obstáculo a minha condição de sacerdote aposentado ou secularizado.

O campesinato paraguaio valorizou muito

  • nosso trabalho (com uma equipe interdisciplinar), de promoção integral (conscientização, educação permanente, organização, produção agropecuária),
  • com o método de educação popular e as experiências das Ligas Agrárias Cristãs.

O projeto durou 30 anos e significou uma viajem,  nos fins de semana, de 200 quilômetros, sem que minha família tenha significado um obstáculo: pelo contrario, sempre foi um apoio.

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A entrega da Medalha do Senado paraguaio a Dionísio Gauto Galeano – Foto: Daqui

Meu campo de ação com profissionais leigos é intenso na defesa e promoção dos direitos humanos:

  • formando uma Mesa Memória Histórica (interinstitucional), que levou a conseguir a criação da Comissão de Verdade e Justiça;
  • logo depois, dos esforços para uma Reparação Integral às vítimas da ditadura,
  • criação de um Museu das Memórias, nome de um Defensor do Povo,
  • o pagamento de indenizações às vítimas, dos mortos-desaparecidos (uns 500), que segue até agora.

Entretanto se realizou a Constituinte (1991-92) pós-ditadura, onde se declarou o guarani como idioma oficial, como o castelhano, e fui nomeado tradutor oficial da Constituinte (minha língua materna é o guarani).

Durante os anos, pus ao alcance dos setores populares os conhecimentos que se usam em nível superior,

  • traduzindo para o guarani uma grande variedade de textos legais, assim como os ensinamentos sociais da Igreja.
  • Até hoje mantemos os organismos de DD.HH. (Mesa Memória Histórica, Mecanismo de Prevenção da Tortura, etc.), que segue cumprindo seus objetivos.

Mantenho boa amizade com os bispos do meu país. Inclusive, fui expositor em suas jornadas, como nos casos do bispo responsável pela Pastoral Social, pela Pastoral de Leigos, de Missões Indígenas.

Elaborei os estatutos para a formalização da Rede Nacional de Emissoras Católicas, assim como da Radio Fe e Alegria, entre outros casos.

Na realidade,

  • minha missão como padres casado não foi tanto no interior da Igreja,
  • mas no mundo (nas realidades sociais, políticas, económicas, culturais),
  • com a difusão da Doutrina Social da Igreja e a  educação cívica e política (como quer o Vaticano II, G. et S. 75; e Medellín, JUSTICIA 16).

Por fim, agora está em impressão na Universidade Católica meu livro “Laicos cristianos, constructores del cambio”; e estamos formando com vários grupos de leigos, que chamamos “Rede nacional de Leigos”, levando adiante “O Ano do Leigo 2022” instituído pelo Episcopado Nacional.

Deste modo, estamos caminhando com a hierarquia, em sinodalidade.

90% da população paraguaia se declara católica, mas é o país com mais desigualdades sociais e económicas, principalmente por causa da corrupção e da impunidade reinantes na administração pública.

 

Dionísio Gauto Galeano

Assunção, 11 de julho de 2022

Enviado do meu iPhone

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